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Da luta à indignação*

14 Outubro, 2011

Aprimeira vez que vi os “Homens da Luta”, pensei que se tratava de um agrupamento de direita que tivera a ideia de parodiar as canções de intervenção de esquerda. Depois percebi que não. Ou, melhor dizendo, percebi que diziam que não eram de direita e que participavam em manifestações ditas de esquerda. E percebi também que o imaginário do operário metalúrgico – noutros tempos tão importante que homens como Jerónimo de Sousa ou Lula da Silva, pese o pouco tempo que efectivamente trabalharam na metalurgia, acabaram a apresentar-se toda a vida como metalúrgicos tal como outros se apresentam como professores, doutores ou viscondes – deu lugar ao do indignado.
E convenhamos que não há nada mais fácil do que ser indignado, essa combinatória de Marx e flower power hippie em versão simplificada, tipo Novas Oportunidades. O indignado não tem passado nem tem oficialmente ideologia. Ele está para a política como o “pensamento positivo” para o cancro nos livros de auto-ajuda: uma pessoa tem o pensamento certo e eis que a mudança acontece.
A extraordinária simpatia que este movimento colhe junto dos jornalistas leva a que uma simples noite passada ao relento por estas desocupadas e abonadas almas – não vão dizer-me que eram trabalhadores e pobres aqueles ditos indignados que acamparam no Rossio em Lisboa ou nas Portas do Sol, em Madrid, pois não? – seja transformada num acto de resistência. E sobretudo explica por que se evita perguntar-lhes não apenas do que vivem e como têm tanto tempo e dinheiro para viajar e acampar, mas sobretudo o que pensam.
Mas valeria a pena o esforço porque os indignados mostram uma particular aversão pela democracia: “No dia 15 de Outubro, pessoas de todo o mundo tomarão as ruas e as praças. Da América à Ásia, de África à Europa, as pessoas estão a erguer-se para lutar pelos seus direitos e pedir uma autêntica democracia. Agora chegou o momento de nos unirmos num protesto não violento à escala global.” É assim que começa o manifesto do 15M que, segundo anunciam os jornais, as rádios e as televisões encherá as ruas de parte do mundo no próximo sábado. O que é a “autêntica democracia“? O que se entende por reivindicar “autêntica democracia” em países como Portugal, Espanha, Bélgica ou EUA? Quer isso dizer que a democracia que aqui existe é falsa? Com todos os seus defeitos e falhas, não vejo regime melhor do que este e temo muito que a “autêntica democracia” de que falam estes manifestantes seja, tal como no passado, uma forma de designar processos revolucionários em que umas minorias ruidosas e agressivas impõem a sua vontade às maiorias. Portugal tem, aliás, na sua história recente exemplos abundantes dos extremos demagógicos a que podem chegar os defensores da “autêntica democracia”: depois de, em Abril de 1974, terem sido prometidas eleições livres aos portugueses, e muito provavelmente porque o resultado das eleições em Portugal nem em sonhos se aproximava daquele que o PCP e a extrema-esquerda esperavam, rapidamente o Parlamento eleito passou a ser apresentado como o símbolo de uma falsa democracia, uma assembleia burguesa e um regime ao serviço de uns quantos, até que, de deslegitimação em deslegitimação, um dia, em nome da democracia autêntica e da dinâmica da rua, a Assembleia Constituinte foi cercada e os deputados sequestrados.
Não admira, portanto, que, para quem se interessa pelos processos revolucionários, sejam eles de esquerda ou de direita, o segundo parágrafo deste manifesto do 15M tenha qualquer coisa de muito antigo, a saber a tentativa de criar a ilusão de que há uma maioria da rua que tem legitimidade para se impor às maiorias resultantes dos processos eleitorais: “Os poderes estabelecidos actuam em benefício de uns poucos, ignorando a vontade da grande maioria e sem se importarem com o custo humano ou ecológico que tenhamos que pagar. Há que pôr fim a esta situação intolerável.” Não fosse a referência ao “custo ecológico” e podia ser um parágrafo de um comunicado do PREC! Claro que faltam aqui as referências às massas, à classe operária e aos trabalhadores, mas o resto, ou seja, a má-fé, está lá toda: eles, que se dizem uma maioria e que invocam “a vontade da grande maioria”, acham-se legitimados para pôr fim ao que definem como “situação intolerável”. Mas que maioria é esta? Donde vem? Onde é que se viu? Onde é que se apresentou a votos? Nas democracias, as maiorias não estão na rua. Estão nas urnas de voto. Encher ruas não dá maiorias a ninguém e, em alguns casos, pode até corroer-lhe o eleitorado. Quanto à acusação de que os “poderes estabelecidos actuam em benefício de uns poucos”, ela cola-se directamente com o parágrafo seguinte deste manifesto: “Unidos em uma só voz, faremos saber aos políticos e às elites financeiras que eles servem que agora somos nós, o povo, que decidirá o nosso futuro. Não somos mercadorias nas mãos de políticos e banqueiros que não nos representam.”

*PÚBLICO
Está aqui toda a cartilha esquerdista dos anos 70: os políticos são caricaturizados como estando ao serviço dos banqueiros e estes últimos transformados em donos do regime; os poderes estabelecidos actuando em benefício de uns poucos. Curiosamente, é nos países em que os indignados enchem mais ruas, como é o caso da Espanha, que os poderes estabelecidos mais actuam em função de todos. Mas isso não importa ou, pelo menos para mim, que leio tanto papel dos anos 70, já não me causa surpresa. O que sempre me espanta, apesar de saber que sempre se chega lá no final do texto, é este “nós, o povo”. Do início do manifesto até agora, deu-se um passo de gigante: “as pessoas” tornaram-se “o povo” e o povo é representado por quem faz este manifesto. Mas qual povo? Onde é que estava o povo nos acampamentos da Porta do Sol? Só se fosse nas brigadas de limpeza que, nos dias seguintes ao levantamento dos barracos, passaram horas a lavar o chão. Ou ao balcão dos estabelecimentos comerciais que não só viram as suas vendas cair a pique como ainda tiveram de suportar a praga de pulgas e o cheiro que emanava das tendas dos indignados. Mas o que para o caso conta é que esta multidão que ideologicamente tem uma concepção de afrontamento do poder herdeira das manifestações esquerdistas dos anos 70 se auto-denomina povo e que, enquanto tal, se propõe “pôr em marcha a mudança global que queremos. Vamos manifestar-nos pacificamente e vamos organizar-nos até atingirmos o nosso objectivo. Chegou a hora de nos unirmos. Chegou a hora de nos ouvirem.” Não deixa de ser irónico que esta gente que não diz um ai sem que lhe ponham um microfone diante termine este manifesto com a frase “Chegou a hora de nos ouvirem.” Eu diria que chegou a hora não de os ouvir, porque não se tem feito outra coisa, mas sobretudo de lhes perguntar o que querem. Qual é esse objectivo pelo qual se propõem organizar-se até o atingir? O que é essa “mudança global” que defendem? E se os outros não estiverem de acordo?
Creio que é mais do que tempo de, em termos de informação, se deixar de tratar este movimento como um acampamento de Verão ou um festival de excêntricos alternativos. Esta gente tem propostas políticas. Por sinal muito perigosas.

15 comentários leave one →
  1. João Lisboa's avatar
  2. da-se's avatar
    14 Outubro, 2011 20:21

    Ninguém como o maçon Januário para nos vir lembrar que bispo se escreve com a mesma inicial de besta.

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  3. Diogo's avatar
    14 Outubro, 2011 20:52

    Helena Matos: «Está aqui toda a cartilha esquerdista dos anos 70: os políticos são caricaturizados como estando ao serviço dos banqueiros e estes últimos transformados em donos do regime; os poderes estabelecidos actuando em benefício de uns poucos.»
    .
    .
    Num artigo de Fernando Madrinha, no Jornal Expresso de 01-09-2007, este explicou de que forma o Poder Financeiro controla os Estados e as populações:
    .
    a) Os poderes do Estado cedem cada vez mais espaço a poderes ocultos ou, em qualquer caso, não sujeitos ao escrutínio eleitoral.
    .
    b) A ponto de os próprios partidos políticos e os governos que deles emergem se tornarem suspeitos de agir, não em obediência ao interesse comum, mas a soldo de quem lhes paga as campanhas eleitorais.
    .
    c) Os bancos continuarão a engordar escandalosamente porque, afinal, todo o país, pessoas e empresas, trabalham para eles.
    ..
    .
    Palavras para quê?

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  4. SM's avatar
    14 Outubro, 2011 21:01

    Helena, os manifestantes são na sua maioria desempregados ou precário. E por muito que não queira ver hoje vivemos uma democratura, uma democracia teórica mas quem manda são os mercados. Minha cara os seus textos começam a configurar-se como um ressabianço de uma ex-extrema esquerda.

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  5. Arlindo da Costa's avatar
    Arlindo da Costa permalink
    14 Outubro, 2011 21:05

    Será que amanhã, dia 15, a JSD e o PSD vão apoiar os Indignados e a Geração à Rasca, como apoiaram no tempo do Engº Sócrates?

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  6. A.Silva's avatar
    A.Silva permalink
    14 Outubro, 2011 21:50

    leninha há alguma coisa que te está a deixar incomodada?

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  7. JP Ribeiro's avatar
    JP Ribeiro permalink
    14 Outubro, 2011 23:36

    SM:”vivemos uma democratura, uma democracia teórica mas quem manda são os mercados.”

    Está aqui exposta toda a doutrina fascista. O autor manifestamente desconhecedor da história do século XX, faz a apologia das duas filosofias políticas que levaram ao assassinio de milhões de seres humanos em nome de um “ideal” de pureza ou dos amanhãs que cantam.

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  8. Fernando S's avatar
    Fernando S permalink
    15 Outubro, 2011 00:28

    Oportuna chamada de atenção da Helena Matos para estas manifestações anti-democraticas e com uma ideologia de tipo totalitario.
    Isto é gente da pior espécie, que não respeita nada nem ninguém.
    São um perigo para a segurança e a liberdade das pessoas. São uma ameaça para a democracia.
    Se continuarem a querer impor-se pela força e pela violencia, a insultar e agredir fisicamente outras pessoas, a bloquear a livre circulação das pessoas, a degradar e a destruir bens publico e privados, … devem ser impedidos e reprimidos com determinação pelas forças policiais.

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  9. Arlindo da Costa's avatar
    Arlindo da Costa permalink
    15 Outubro, 2011 01:02

    Não foi o PSD que apoiou todas as manifestações da Geração à Rasca?
    Até houve um deputado da Madeira (o Pita) que aconselhou todos a fazer Greve Geral!
    Mas isso foi no temo do grande engenheiro Sócrates, que nunca reprimiu nenhuma manifestação e foi um exemplo de tolerância e superioridade democráticas.

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  10. SM's avatar
    15 Outubro, 2011 04:16

    JP Ribeiro não fale de fascismo em vão. veja que amanhã 51% dos eleitores poderiam decidir outro rumo que não o da troika e todo o grande capital fugiria daqui para fora. Afinal quem manda?

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  11. Mauritano's avatar
    Mauritano permalink
    15 Outubro, 2011 08:44

    Gostaria de saber quem é o estilista que veste e penteia os indignados… é que eles são todos iguais quer em Lisboa, em Madrid ou em Nova Iorque. Para além disso gostaria tambem de saber quem é o fornecedor de erva, este deve estar a ganhar rios de dinheiro em cada manifestação (provavelmente algum banqueiro ou poder estabelecido). Quanto ao artigo da Helena (desculpe o trato pessoal) nada há a acrescentar. Esta gente deixa-se manipular de uma forma assustadora por alguns poderes na sombra sempre ansiosos de virar a mesa ao contrário.

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  12. Freire de Andrade's avatar
    15 Outubro, 2011 23:38

    Helena Matos escreve exactamente como eu penso. Excelente post. Também li e tenho presente textos dos anos 70, dos que então não se intitulavam indignados, mas sim revolucionários. Como disse alguém, a história repete-se. Então não eram tão pacíficos, talvez porque os tempos agora não são, pelo menos em Portugal, muito favoráveis a violências. Mas imagino que há quem, mesmo não participando nas manifestações, preferisse que houvesse mais incidentes e pancadaria para poder incriminar os políticos que tanto detestam. Afinal, embora não esteja já em moda a expressão “democracia burguesa”, é contra essa democracia que se viram. Só que a “democracia autêntica” que pretendem ou é uma “ditadura do proletariado” (onde existe agora proletariado?) ou qualquer coisa indefinida e indefinível.

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  13. jose.gcmonteiro's avatar
    17 Outubro, 2011 11:25

    É parva, mesmo.

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