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No representation without taxation

1 Junho, 2012

A ler este texto de Pedro Lomba no PÚBLICO: «Há dias, Christine Lagarde causou escândalo porque fez um pequeno comentário sobre a desordem e o incumprimento fiscal dos gregos. “Os pais das crianças gregas têm de pagar os seus impostos”, referiu a responsável máxima do FMI. De imediato, começaram a borbulhar ataques e respostas por todo o lado. Até que alguém se lembrou que a própria Lagarde não paga impostos sobre o seu salário. A notícia foi logo posta em circulação, como se fosse uma grande novidade. Não quer dizer que fuja aos impostos, ou que esteja em absoluto isenta de os pagar. Mas, estando à frente de uma organização internacional, Lagarde possui a imunidade que o direito internacional atribui aos agentes diplomáticos, que também inclui isenções fiscais de vária índole. Foi o que bastou para despertar ainda mais a suprema ira do povo.
Ninguém tem de conhecer a convenção de Viena sobre relações diplomáticas que prevê imunidades fiscais para os agentes diplomáticos. Aliás, não é esse o problema. Mas a revolta com que o facto foi recebido, com toda a gente espantada porque Lagarde e outros beneficiam de um estatuto fiscal altamente favorável, ensina alguma coisa sobre o mundo em que vivemos. Toda a gente conhece e escrutina ao milímetro o ministro X ou o deputado Z. Mas, quando se trata desta nova e cada vez mais poderosa nomenclatura internacional, a ignorância continua a ser o mais comum.
A imunidade diplomática é um das regras mais antigas do direito internacional. Na prática, destina-se a proteger a independência de que os representantes de um estado precisam quando se encontram oficialmente noutro. Traduz o respeito e a reciprocidade que devem reger as relações entre estados.
E, no entanto, quanto falamos de organizações como o FMI ou a ONU, levanta-se uma dúvida sobre até onde deve ir essa imunidade: há alguma razão para cargos como o de Christine Lagarde, esta nova classe de técnicos e funcionários internacionais, continuarem largamente isentos do dever de pagar impostos? Não sou fiscalista, mas pergunto se não gozarão estas eminências de imunidades fiscais excessivas?
Só um ingénuo pode achar que estas organizações são meras organizações diplomáticas e executivas, compostas por representantes dos estados. São hoje muito mais do que isso. Apropriaram-se de funções de Governo. Por isso, dispõem já de apreciáveis e dispendiosos aparelhos administrativos. Trabalham, segundo dados dos respectivos sítios, 2500 pessoas na OCDE, 9000 no Banco Mundial, 3600 na FAO. Certo que não têm todas o mesmo estatuto. Comparados com as administrações nacionais, os números são exíguos. Mas o que interessa é registar a novidade histórica que tudo isto representa. Pessoas como Christine Lagarde não podem ser vistas como agentes diplomáticos. Também não são políticos; e certamente também não são só burocratas e técnicos. Não sei que nome lhes dar. Mas sei que fazem parte de uma nova classe que manifestamente tem “direitos” a mais.
É uma reforma mais fácil de idealizar do que de executar. Mas quando hoje o que mais ouvimos dizer é que “não há dinheiro” porque os estados estão atolados em dívidas e impostos, está aberto o concurso para ajudar François Hollande a acabar com a austeridade. Porque neste século globalizado temos que dizer ao contrário: no representation without taxation.»

12 comentários leave one →
  1. Ana Vasconcelos's avatar
    Ana Vasconcelos permalink
    1 Junho, 2012 16:01

    É só a gritaria do costume porque ela não disse aquilo que nos convinha. Caso ela tivesse dito que ía sustentar a Grécia a pão de ló, já não havia problema nenhum com a situação fiscal da senhora.
    E mais vale haver isenções fiscais a membros de organizações internacionais do que estar a inventar mais impostos, que não se sabe quem ía decretar, cobrar e para que seriam usados.
    Ana Vasconcelos

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  2. NS's avatar
    1 Junho, 2012 16:03

    E a sra. Lagarde seria taxada em que país? França? EUA?
    E se a sra. Lagarde decidir mudar a sede do FMI para Barbados? Ou para Vanuatu?
    E porque hão de ser os EUA a ficar com impostos de uma organização multilateral paga pelos contribuintes de uma série de países? E, no caso de distribuirmos os impostos da sra. Lagarde por todos os países que são accionistas do FMI, que taxa aplicamos? Fará sentido cada parcela do salário ser distribuída proporcionalmente pelos países que contribuem e aplicar-se-lhe a taxa que se aplicaria em caso de residência nesse país?
    A mim parece-me que o Pedro Lomba, ao contrário do que é habitual, está a levantar um problema inexistente. A sra. Lagarde já deve ter o não pagamento de impostos imputado ao seu salário líquido, pelo que isto é uma falsa questão.

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  3. MJRB's avatar
    1 Junho, 2012 16:11

    Mas qual a surpresa ? Já se sabe que detentores de alguns cargos têm vários benefícios…
    ———————————————–
    Surpresa para alguns, terá sido a intervenção de José Pacheco Pereira, ontem, no Quadratura do Círculo, sobre o caso Relvas & Carvalho, assoc.
    Cristalina, a “explicação”.
    Está no Sapo. Coragem ao ouvirem inconveniências.

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  4. MJRB's avatar
    1 Junho, 2012 16:13

    Coragem, HMatos,
    coragem ao ouvir JPPereira e ALobo Xavier, que coloca uma pergunta incomodativa : PPCoelho não sabia de nada ? PPCoelho nunca se encontrou com SCarvalho ?

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  5. MJRB's avatar
    1 Junho, 2012 16:21

    Domingo, levo ao Rock in Rio uns amigos (e amigas). Entre eles, um deputado “da maioria”, velho Amigo, que me acompanha sem esforço algum, porque também gosta de música rock. Da boa, no caso, por mim convidado para lhe fazer valer a importância das letras de Bruce Springsteen.
    Espero que na segunda-feira, quando retomar “funções”, esse meu Amigo se lembre de BS e da situação da sociedade portuguesa.

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  6. von's avatar
    von permalink
    1 Junho, 2012 16:23

    E como as convenções foram redigidas e aprovadas, fazemos delas doutrina, apenas porque sim… ou porque sempre foi assim. Quando se fala de outros salários, as razões mudam… Talvez por convém, talvez por uma meia dúzia ser fácil de justificar e alguns milhões nem por isso. Porque se alguém chega a um lugar, é por direito e valor, e outro(s) alguém(s) se calhar, não. Eis a moralidade e ética do comentador feito profissional da coisa: umas vezes é, que sim, que merece, outras não, porque lá está, não é conveniente. Um dia que sim, outro, veremos. O mundo do comentário político, na Internet, rádio e principalmente na TV, porque o “profissional” paga-se, tornou-se a nova oportunidade, o novo riquismo da informação. Um grupo, alargado, de lugares comuns, frases feitas e refeitas, ideias repisadas, mas que semana a semana se repete, se transmite e se embolsam umas coroas que dão jeito, mesmo se a mais valia é nula. Fala-se de funcionalismo público, de gente a mais a fazer menos, e tanto comentarista profissional na linha do horizonte.

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  7. Pedro M's avatar
    Pedro M permalink
    1 Junho, 2012 16:24

    O que essa gaja Lagarda devia ter feito era ter ficado calada.
    Uma gaja que não paga impostos (seja por que motivo for) e ainda por cima tem os rendimentos que tem, devia ter vergonha naquele focinho e não arrotar postas de pescada sobre pagamento de impostos dos outros (por maior razão que até lhe possa assitir em concreto).
    Essa gaja não passa de uma grande vaca.

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  8. helenafmatos's avatar
    helenafmatos permalink
    1 Junho, 2012 16:27

    «PPCoelho nunca se encontrou com SCarvalho ?» Não há como perguntar mas creio que a pergunta não faz sentido. Tendo em conta os cargos que S Carvalho teve deve ter-se encontrado com boa parte da classe política e empresarial portuguesa. E não apenas os suspeitos do costume que é como quem diz os do PS ou do PSD.

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  9. MJRB's avatar
    1 Junho, 2012 16:35

    HMatos,
    a pergunta faz todo o sentido ! Arrisco, face à magnitude do caso : todinho, VASTÍSSIMO, o sentido !
    (Compreendo o seu comentário, porque desinformada).

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  10. MJRB's avatar
    1 Junho, 2012 16:44

    HMatos,
    acresce o seguinte : as funções do SIED são outras, que não as reveladas e debatidas ultimamente…
    “Que raio”, por que terá o seu director (e não só) penetrado nas vidas de certas pessoas e de empresas ? E, enviado (ou transmitindo pessoalmente !) informações sobre assuntos para os quais o SIED não foi criado ?
    Por que se encontrou “com boa parte da classe política e empresarial portuguesa” ?

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  11. Portela Menos 1's avatar
    Portela Menos 1 permalink
    1 Junho, 2012 17:53

    Esta opinião de Lomba é um bocadinho diferente dos habituais editores radicais do Blasfémias.

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  12. zemanuel's avatar
    zemanuel permalink
    1 Junho, 2012 20:51

    Christine Lagarde enquanto pertencente aos quadros do FMI(IMF) não é abrangida, tal como os outros funcionarios, permanentes ou temporarios, por impostos ‘nacionais’…o que é compreensivel numa organização internacional em que diferentes sistemas fiscais levariam a fundas discrepancias para a mesma remuneração(trabalho igual, remuneração igual, não é ?) e que de algum modo tem também a ver com a ‘independencia’ da função.
    …mas isto não significa que não estejam sujeitos a ‘descontos’ para os sistemas ‘ privados’ de pensão e assistencia social…!

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