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Promover o mau ensino superior …

18 Julho, 2012

… e o eduquês.

O novo sistema de professores é um sistema de avaliação pelos pares. Os avaliadores têm de possuir mestrado ou doutoramento, estarem no 4º escalão ou noutro superior ou possuírem especialização em supervisão pedagógica ou experiência profissional em supervisão pedagógica e observação de aulas. Como é habitual, não haverá qualquer distinção entre os mestrados e doutoramentos que conferem o direito de ser avaliador. Para o ministério da educação todos os doutoramentos são iguais, o que favorece as universidades menos rigorosas na atribuição de doutoramentos. Favorece ainda os doutoramentos em educação, que são os mais fáceis de obter. Portanto, vamos ter o ministro Crato a promover o eduquês. Note-se este tipo de decisões, que têm um efeito destrutivo em todo o ensino,incluindo o superior, são tomadas em parceria entre o ministro e os sindicatos.

32 comentários leave one →
  1. Fincapé's avatar
    Fincapé permalink
    19 Julho, 2012 00:10

    Velhos tempos em que o principal objetivo das profissões era exercê-las bem. A moda atual é tentar subjugá-las a “especialistas” que não percebem nada daquilo que andam a avaliar. Se fosse feito um inventário das asneiras que dizem esses falsos especialistas ficaria maior do que a enciclopédia britânica.
    Controleiros desses já vão existindo e irão aumentar. O liberalismo que está a desregulamentar quase tudo, irá regulamentar, igualizar e retirar criatividade à maioria das profissões que dela necessitam. Uma merda.
    Faz lembrar aqueles miúdos de vinte e tal anos que andam a “vender” a qualidade dos serviços que têm de ser certificados, sem nunca terem trabalhado. Fartam-se de perceber de qualidade.

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  2. airesff's avatar
    19 Julho, 2012 01:50

    Caro João,

    Entendo a sua preocupação. Contudo, no presente situação não há maneira do sistema ser um sistema de avaliação de pares e ao mesmo tempo esses pares terem o tipo de habilitações que implicitamente você refere (ex. doutoramento em áreas científicas). A razão é simplesmente que os professores de básico-secundário não têm a formação científica, até porque se o tivessem não teriam entrado no sistema (veja os meus comentários anteriores). Como resolver esta situação? Não é fácil. Sei que nos EUA em alguns estados o que se faz é convidar professores universitários com boa reputação para presidir a reuniões de avaliação de professores de básico-secundário. A ideia é existir um avaliador neutro (sem interesses naquele grau de ensino) e que tenha formação avançada. Dizem que funciona razoavelmente. Como o fazer em Portugal com quadros tão mal formados? Não tenho a certeza. Contudo, tenho a certeza que esta medida que você refere só serve para alimentar ainda mais o lobby do Eduquês, em Portugal, lançando a confusão, tentando convencer as pessoas que o Governo está a fazer um bom trabalho já que agora os avaliadores são mestres e doutores. Contudo, o bom trabalho seria garantir que os mestres e doutores em Portugal são de facto mestres e doutores em alguma coisa, i.e., com trabalho original reconhecido pelos pares estrangeiros.

    Cump., A. F.

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  3. JDGF's avatar
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    19 Julho, 2012 07:35

    A ‘inquietação’ reside na circunstância de, só pelo facto de ser um professor universitário doutorado, essa qualificação académica não lhe confere, automaticamente, qualidades pedagógicas indispensáveis para se tornar um ‘bom’ avaliador…

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  4. JC's avatar
    19 Julho, 2012 08:23

    Vá ler a proposta. Talvez fique com algumas dúvidas quanto à não distinção dos graus de mestre e doutor.
    Uma leitura possível é que esses mesmos graus também devem ser em supervisão pedagógica ou avaliação de desempenho.
    A má qualidade do ensino superior já chegou ao legislador há muito. As leis são, cada vez mais, confusas e enigmáticas.
    .
    Quanto ao resto, que propõe como alternativa à avaliação pelos pares?
    Que sejam médicos a avaliar professores, polícias a avaliar enfermeiros ou cantoneiros a avaliar juízes?
    Ah, já sei! Uma avaliação como a dos profs do superior: uns inquéritos e tal, número de publicações manhosas, independentemente da sua originalidade e qualidade…
    Ou é, simplesmente, contra a avaliação?

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  5. Trinta e três's avatar
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    19 Julho, 2012 08:34

    O Crato, depois de tudo o que disse antes de ser ministro, só não é a maior deceção deste governo porque está lá o Álvaro.
    .
    Airesff:
    Desculpe a rudeza, mas o senhor não sabe o que diz. A eventual falta de reconhecimento de competências, tanto se aplica aos professores do básico/secundário como do superior. Desde logo, porque não há uma homogeneidade de formação científica nos primeiros (o que impede a generalização), depois porque, nos segundos, os que provavelmente mais vão interferir no processo, são gente das chamadas ciências da educação, precisamente uma das áreas que mais dúvidas levanta sobre… “competências”. Nesta busca da “pureza avaliativa”, a única coisa que conseguimos é criar um monstro que, como disse o João Miranda, mais não vai fazer do que alimentar mitos e negócios. Um professor, seja qual for o seu nível de ensino, deve ser avaliado pelo seu currículo. Exatamente como qualquer outro profissional. Isso deixa de fora a treta das aulas assistidas que não passam disso mesmo: uma treta manipulável, a menos que os avaliadores sejam os que estão presentes em TODAS as aulas- os alunos. O problema é que isto não arranjava emprego para inspetores, “especialistas” em avaliação e outros doutores… da “mula russa”.

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  6. PiErre's avatar
    PiErre permalink
    19 Julho, 2012 08:37

    O Fincapé só vem para aqui lançar a confusão. Ele, que nem percebe nada do que é o liberalismo!…

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  7. simil's avatar
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    19 Julho, 2012 08:41

    Sequer, cada um joga a sua, aí, por despeito, gostar de botar faladura, simplesmente, e achar-se o melhor por si .

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  8. XisPto's avatar
    XisPto permalink
    19 Julho, 2012 09:52

    Ok, já se percebeu: se os Estado nunca sabe distinguir entre as classes de graduação que institui, não há razão para o impor a terceiros e deve deixar o mercado regular esse problema (não chateiem mais com o Relvas). Mas, então, como defende um liberal puro e duro e escolástico a avaliação dos profs numa universidade?

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  9. zazie's avatar
    19 Julho, 2012 10:57

    Pois é. ele é um cientoino jacobino. Essa imbecilidade tira-lhe o retrato.

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  10. zazie's avatar
    19 Julho, 2012 11:01

    E depois continuam com a treta de papaguearem a palavra “avaliar” sem saberem traduzir isto.
    .
    E o Crato, idem- quer avaliar, como avaliava bolsas da praxis. Aí também havia e há uma “bolsa de avaliadores” às claras. E outra na sombra, para as cunhas.

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  11. airesff's avatar
    19 Julho, 2012 11:40

    Caro/a 33,

    Não desculpo os seus maus modos, mas desculpo a sua falta de atenção. Você critica-me pelo que afirmei, mas depois vem logo defender o mesmo. Repare que o que eu disse foi precisamente que o nível médio dos professores (sejam de que nível forem, incluíndo Superior) é fraco. Para além disso, existem concepções muito erradas sobre os graus e sobre o que eles representam. Um doutoramento com qualidade representa uma especialidade; alguém que se especializou num área científica. Isso é meritório. É meritório pois exigiu um grande percurso de estudos avançados e competição a nível internacional. Há doutoramentos bons e menos bons em todo o Mundo. Em Portugal, contudo, há um domínio forte do Eduquês, a começar no Superior, pois como você afirma e bem, “são gente das chamadas ciências da educação” que formam os Professores de Secundário que temos: sem formação científica que se veja. Para ter uma ideia cheguei a a assistir (por acaso) a uma situação em que o finalista do melhor curso de Ensino de Física do País defendia que a gravidade na Lua era inferior do que na Terra, não pela diferença de massa entre estes dois corpos, mas antes pela falta de atmosfera na Lua, a qual não fornecia a pressão suficiente para manter os pés no solo. Repare no disparate. Isto foi dito por um finalista (dum curso de 5 anos se não me engano) e nenhum dos colegas o corrigiu; pelo contrário ficaram espantados com o douto raciocínio do colega! Fiquei chocado por uns instantes, mas logo tudo fez sentido: eu bem tinha assistado à diferença de exigência entre o que me foi exigido (na vertente científica) e o que foi exigido aos alunos da Via de Ensino. Não vejo os lobbies como algo necessariamente mau, mas este (o do Eduquês) passou todos os limites e é um dos problemas do Ensino em Portugal. Há outros, como imagina. Há-os em todo o lado, mas no 1º mundo alguns desses problemas/dificuldades já foram resolvidos há dezenas de anos atrás. Em Portugal, o compadrio e a chique-espertice ainda domina; repare que até os licenciados (advogados, etc.) se acham “doutores” e que há pessoas a comentar aqui que não sabem que a carreira de Ensino Secundário está apenas acessível a quem tem formação em via de Ensino. As pessoas em Portugal gostam demasiado de palpitar, quando não são sequer da área.

    Cump.,
    A. F.

    PS. Há formas de avaliar os professores no Secundário (ou outros): através dos resultados. Mas a questão dos avaliadores é subtil, como eu disse, e como João Miranda recordou. Não basta reunir doutores em Ensino.

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  12. zazie's avatar
    19 Julho, 2012 11:45

    ò aires. ainda não percebeste que tens andado a dizer disparates, com essa de ser obrigatório ter licenciatura de ensino para se dar aulas?

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  13. zazie's avatar
    19 Julho, 2012 11:46

    A estupidez disto é que o Crato nem sabe o que é o secundário e para que serve. E vá de aplicar uma tabela que fazia melhor se a usasse no superior.
    .
    Mas aí, está quieto- esses são intocáveis- avaliam-se entre capelinhas.

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  14. zazie's avatar
    19 Julho, 2012 11:48

    Para que raio serve um doutoramento a quem dá aulas do secundário?.
    .
    Para nada. Só se for para ser frustado. E que serve isso para aferir o quê, em indo assistir a umas aulinhas de outro prof que não é doutorado?.
    .
    Serve para nada. É o mesmo folclore com mais burocracia. Bastava haver directores, como dantes, como os antigos reitores e as escolas terem uma verdadeira cabeça e mando, que não fosse uma palhaçada eleita pelas “forças vivas da terra”.

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  15. zazie's avatar
    19 Julho, 2012 11:51

    Querem ver para que serve um doutoramento a prof de liceu? serve para esta anormalidade.
    .
    (têm de juntar o link porque o meu blogue está bloqueado aqui nas caixinhas dos liberais)
    .
    http:// cocanha. blogspot.pt/2011/04/as-oxidacoes-do-atinente.html

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  16. zazie's avatar
    19 Julho, 2012 11:52

    Esta pascácia tem doc ou mestrado pela Nova e é prof de secundário:
    .
    «(…)Esta cultura literária é, assim, produto e processo de humanização de/em diferentes sociedades, revelando a força dessas sociedades ao mesmo tempo que se constitui, ela mesma, em iniludível força, ao potenciar uma compreensão dialéctica do mundo e dos homens, fundamental num contexto de afirmação megalómana, redutora e tentacular da cultura tecnológica, “tubarão” moderno a que se agarram os “pegadores” modernos. Contribuir para adequar a cultura literária às propriedades do “torpedo”, na convicção de que há mar e terra para todos, deve constituir-se como objectivo da escola.
    (…)
    .
    a língua portuguesa vive no presente, vive nos/com os textos, esses marcos de referência da nossa cultura literária e pulsa, também, na vida política e económica, porque a vida nos seus mais diversos domínios, é sempre atinente à palavra e a palavra atinente à vida.
    (…)
    .
    também contestamos qualquer opção curricular não argumentada por juízos de valor claros e fundamentados; é da aceitação da compatibilidade destes procedimentos que resulta a ancoragem num paradigma dialéctico, avesso à bipolarização e ao radicalismo, oxidações que desvirtuam a bússola do conhecimento e da acção pedagógica.»

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  17. zazie's avatar
    19 Julho, 2012 11:56

    Deve ser mais uma intelectual do século XXI, graças às ciências sociais e humanas, como dizia a outra da selva…

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  18. PiErre's avatar
    PiErre permalink
    19 Julho, 2012 12:41

    Isto só prova que a democracia é a pior das ditaduras.

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  19. Trinta e três's avatar
    Trinta e três permalink
    19 Julho, 2012 13:23

    Airesff:
    Repare nesta sua afirmação: ““são gente das chamadas ciências da educação” que formam os Professores de Secundário que temos”. Isso não é verdade. Em primeiro lugar, porque ainda temos muita gente a lecionar, que tirou os seus cursos antes de haver “vias de ensino”; em segundo lugar, porque as formações mais polémicas são as das Escolas Superiores de Educação (apesar de me dizerem que, também aí, não pode haver generalizações), que, salvo erro, orientam a sua formação, sobretudo, para os 1º e 2º ciclos. Assim sendo, os “doutos” conhecimentos desses “cientistas da Educação” interferem, apenas, na formação pedagógica e não na científica. Mas também aqui lhe digo: há muito professor doutor nas nossas universidades a quem não fazia nada mal alguns conhecimentos de pedagogia.

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  20. zazie's avatar
    19 Julho, 2012 13:51

    33:
    .
    Eu já lhe disse isso mil vezes mas o maluco não lê. Teima que para se ser prof é preciso ter um curso diferente, quando a diferença sempre existiu e se chamava pedagógicas.
    .
    Agora existem para aí umas tretas de “cursos para professor disto e daquilo”, mas nem conta, para o caso.

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  21. zazie's avatar
    19 Julho, 2012 13:52

    E sim, de acordo, há muito prof universitário que, não só é nulidade, como nem a nulidade sabe ensinar.
    .
    Mas esses são intocáveis.

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  22. zazie's avatar
    19 Julho, 2012 13:52

    Aliás, quem forma os profs do secundário? são os do superior!

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  23. airesff's avatar
    19 Julho, 2012 14:16

    Caro/a 33,

    Tem razão quando diz que muitos docentes são anteriores às chasmadas “vias de ensino”. Contudo, mesmo esses têm na maioria uma pobre formação científica. E não sāo apenas as Escolas Sup de Educação. Como eu disse, uma das melhores Univ do País, a do Porto, se nāo mesmo a melhor, tem o lobby do eduquês instalado, pois oferece cursos de Ensino com currículos fracos. Já os cursos científicos são bons em alguns departamentos. Quanto aos professores, meu caro, há de tudo, mas a média fica abaixo do desejável. Não é por acaso que Portugal nem é referido no novo ranking da Times. Não estamos na 1liga. Nem admira. A gestão foi tão desastrosa que nāo há financiamento (nem ambiente) para contratar e reter os melhores entre os jovens investigadores portugueses por esse mundo fora.

    Cump., AF

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  24. professor's avatar
    professor permalink
    19 Julho, 2012 15:56

    Este Crato já partiu o prato . Um ingrato . Este Crato já virou Gato . Gato não é Cão . Mas Crato está transformando a Escola num verdadeiro Mundo Cão . Este Crato é um Rato . Este Crato enganou o Gato .
    Aqui há Gato . Este Acto dura mais 3 anos . . . Ai , eu Mato este Crato .

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  25. Fincapé's avatar
    Fincapé permalink
    19 Julho, 2012 20:54

    PiErre
    “O Fincapé só vem para aqui lançar a confusão. Ele, que nem percebe nada do que é o liberalismo!…”
    Acho piada a estas pequenas provocações, PiErre. Mas do que eu “não percebo” nada é do ultraliberalismo. 😉
    airesff
    “Repare que o que eu disse foi precisamente que o nível médio dos professores (sejam de que nível forem, incluíndo Superior) é fraco.”
    Chegado aqui, não li nem mais uma linha. E se um filho meu me dissesse uma coisa destas sobre qualquer profissão punha-lhe o dedo no nariz.
    É a modinha desgraçada dos convencidos. Alguns deles esparralham-se a seguir a dizer que temos a juventude mais preparada de sempre. Não é verdade, mas, se fosse, essa formação teria vindo, de certeza, das famílias. 😉
    Boa(s) zazie!

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  26. andresilva's avatar
    andresilva permalink
    20 Julho, 2012 01:30

    Diga-me lá, o que é que um Doutor formado na distinta faculdade de tretas, perdão, de letras, em pesca da baleia dos Açores percebe de avaliação de professores?

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  27. andresilva's avatar
    andresilva permalink
    20 Julho, 2012 01:37

    É o mercado que faz a selecção, estúpido!

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  28. airesff's avatar
    20 Julho, 2012 02:29

    Caro Fincapé,

    Se me permite sugiro-lhe o seguinte: vá a uma faculdade procurar os doutorandos a fazer investigação e pergunte-lhes da qualidade dos professores que lá tiveram. Espante-se com as resposta.

    Entretanto, se se der ao cuidado de ler umas linhas, dar-lhe-ei ao espírito o que ouvirá dessas pessoas.

    1. A situação financeira é precária. É relativamente fácil obter financiamento da FCT, mas o dinheiro chega tarde. Por exemplo, um grupo concorre a um projecto de 200k $ para fazer ciência experimental. A avaliação demora um ano. Os resultados são públicos e demora-se outro ano a entregar os projectos. Passaram-se dois anos, o dinheiro chega, mas o projecto já é irrelevante. Às vezes chega rápido uma tranche, mas depois há imenso atrito burocrático para fazer compras rápidas de equipamento. Em ciências experimentais os timing são muito apertados e a concorrência é feroz. Já em estudos mais teóricos é possível ir fazendo algum progresso, enquanto o dinheiro para comprar super-computadores e trazer colaboradores do estrangeiro não chega. Já para não falar que é impossível ser-se competitivo com projectos com tectos tão baixos e acima de tudo com pouco potencial de atrair jovens para fazer o trabalho duro de laboratório (os professores não podem dedicar-se a 100% aos projectos, como imagina, têm outras responsabilidades: ensinos, outros projectos, etc.). O resultado é que por exemplo não há física experimental de ponta em Portugal. A pouca que há, é tão rara, que quando é publicada causa-nos sempre espanto e admiração. Recordo-me dum paper na PRL dum investigador de Coimbra há cerca de dois anos.
    2. Mesmo quando há $ há toda a questão da “burocracia”: aos professores pede-se que façam investigação, dêem aulas, mas também que sejam secretários. Isso implica trabalhar 20 horas por dia, às vezes. Muitos desistem e deixam de fazer algumas destas coisas (normalmente, a investigação). Mesmo quando não desistem, não conseguem ser tão competitivos. É quase um milagre os casos que existem de pessoas reconhecidas internacionalmente pelos seus trabalhos científicos. Isto está relacionado com a falta de divisão em Portugal de Universidades mais “técnicas” e Universidades mais de “investigação”. Repare que não dou espaço para Universidades de “Eduquês”.
    3. A situação dos jovens investigadores que mencionei no ponto 1. é precária: é precária a situação da maior parte dos doutorandos ou jovens doutorados que possuem uma bolsa da FCT. Uma bolsa significa que não existe um contrato justo. Esses bolseiros estão isentos de IRS. É um pagode. Quem quer continuar assim toda a vida? A descontar 0? E de facto parece que continuam assim toda a vida pois,
    4. não há capacidade de contratação em muitas áreas. Quadros preenchidos! A razão: péssima gestão de recursos quando as universidades estavam a crescer nos anos 80-90: contratou-se tudo para os quadros. A maior parte sem habilitações para tal: até professores de Secundário (sem doutoramento) foram promovidos, uma festa! A falta de capacidade de deslocar para outras posições ou de despedir estas pessoas resultou no seguinte cenário: os bolseiros estão em média muitíssimo mais preparados que os seus professores (de quadro), mas são os últimos que têm um emprego (com contrato, vínculo e regalias) e não os primeiros.
    5. Existe o Lobby do Eduquês dentro das Universidades. Encontraram nas ciências da educação e na pedagogia uma forma de manterem os seus trabalhos. Tudo isto não tinha mal algum se fosse marginal, mas a verdade é que existem demasiados cursos e demasiados alunos inscritos em cursos cujo currículo é essencialmente um currículo de pedagogias. É certo que um professor de secundário precisa duma pequena formação pedagógica, para não cometer erros básicos, como virar as costas aos alunos. Mas no essencial o que o professor de secundário precisa é de ter tido uma boa formação. Uma formação dura em que aprendeu acima do nível que vai leccionar, para depois não ensinar que 1+1 = 3 (num comentário anterior dei um erro equivalente, mas na disciplina de física newtoniana clássica). Os professores de matemática e física (duas disciplinas frulcais) são mal preparados e muitas vezes nem entendem os conceitos que ensinam. Não sabem o porquê da área debaixo do gráfico ser dada por um processo de integração. Até a derivada duma função real parece ser um conceito misterioso para alguns professores com quem fui contactando. O Lobby do Eduquês nas Universidades tem por isso o efeito que os alunos de secundário têm professores mal preparados; exames nacionais em que as perguntas difíceis e abstractas foram substítuidas por anedotas à base de raciocínios por analogia e coisas do género. Claro que há professores excelentes e que estão revoltados com esta inflexão em direcção ao facilitismo. O facilitismo pagar-se-à caro mais tarde (ou seja, já).
    6. A prova que os professores do superior / Universidades têm qualidade abaixo da média (a frase que você tanto criticou) é que Portugal nem aparece no ranking da Thomson Reuters. Estas coisas medem-se por número e qualidade de publicações científicas, patentes, etc., produzidas por os docentes e suas equipas de investigação (jovens doutorados, doutorandos, alunos, outros professores, etc.). Portugal tem meia dúzia de centros de investigação de qualidade internacional. A esses temos de fazer uma vénia, pela determinação e paciência. E imaginemos o que poderiam ser num ambiente científico mais saudável! [Lembre-se do que eu disse no ponto 4: a maior parte dos actuais professores são duma altura em que não existia a pressão de publicar em revistas científicas internacionais. Foram-se doutorando sem publicar, outros nem se doutoraram. Outros doutoraram-se com publicações fracas. Não faz parte da formação destas pessoas a vida frenética e difícil da investigação. Não fez parte enquanto eram jovens, muito menos agora.]
    7. O Estados e os Governos foram os gestores e avaliadores de todo este processo.
    8. Em Portugal não há iniciativa privada de jeito a nível de Ensino Superior (2/3 excepções), o que é lamentável. Parece que existe uma ligação muito forte das universidades privadas e politiquice. No fundo é como tudo o resto. Eu estou preocupado que existam tão poucas instituições privadas ao nível das melhores em Portugal. E também estou preocupado que o topo de Portugal (Univ Porto, Coimbra, Técnico, etc.) seja praticamente irrelavante em termos internacionais, ou melhor, fazem parte da 2ª Liga. Portugal não tem uma única universidade no top das universidades com menos de 50 anos. Isso é preocupante, pois a democracia já tem algum tempo e já se esperava ver uma nova universidade portuguesa a brilhar. Mas não. Isso só acontece em Inglaterra, EUA e na Ásia, onde há a possibilidade de começar projectos de novo e reformar projectos falhados.

    Cump.,
    A. F.

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  29. Fincapé's avatar
    Fincapé permalink
    20 Julho, 2012 09:07

    Disse tanta coisa importante no texto acima com as coisas concordo que, por falta de tempo, vou apenas dizer o seguinte:
    Contra o eduquês, MARCHAR MARCHAR. Infelizmente o eduquês está a atingir as Universidades no estômago e às vezes ainda com vanglória e foguetes. Na crítica ao eduquês incluo o neo eduquês do atual ministro Crato, do qual basta ler alguns despachos.
    Em relação à formação pedagógica, permita-me dizer que a considero muito importante, sem se sobrepor à científica, obviamente.
    A minha “zanga” tem a ver com a minha tendência para não gostar de ouvir dizer que os profissionais desta ou daquela área são maus. Não aprecio generalizações. E se de facto houver algum setor mais fraco será certamente mais por razões de ordem social do que individual. E, quanto a este assunto, considero que os professores portugueses, especialmente do secundário, fazem milagres, perante aquilo em que a escola pública foi transformada: a exigência do “sucesso” a toda a força, indisciplina (ou excesso de irrequietude), escola armazém, desculpabilização das famílias, critérios de avaliação facilitadores, etc. Um sem fim de problemas que o Ministério foi montando ao longo dos anos para OCDE ver (ver com olhos vesgos).
    Só faltavam as licenciaturas expresso das Novas Oportunidades para poder dar-se seguimento ao que foi feito no secundário. E também aqui não foram os professores os culpados. Alguns foram-no, mas enquanto entidades políticas. Mas esses agora estão bem porque não ficaram com os problemas às costas e passaram a ter no currículo o cargo de ministro.
    Cumprimentos

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  30. aremandus's avatar
    aremandus permalink
    20 Julho, 2012 09:40

    o mau ensino tuga ensinou-me a ler nas estrelas.
    leio que hoje fenece um governante, ou apenas desfalece…

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  31. professor's avatar
    professor permalink
    20 Julho, 2012 18:59

    AIRESFF
    Conheço o percurso . Tem absoluta razão .
    N.B.
    A avaliação pelos resultados é complicada …

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