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Renascido das cinzas

6 Setembro, 2012
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O sector português do calçado. Há pouco mais de 3 anos fizeram-se-lhe inúmeros epitáfios quando algumas multinacionais, então as maiores empresas, começaram a encerrar as operações em Portugal. Os custos de produção, designadamente salariais, seriam proibitivos e inviabilizadores do negócio.

Em pouco tempo, ter-se-á operado uma revolução no sector, a tal ponto que é hoje o 2º mais caro do mundo, tendo ultrapassado a “requintada” França e perdendo apenas para Itália, outro potentado da moda e do bom gosto (vd. aqui, pág 12, quadro The Big Players).

Mais relevante porém, é o facto de esta inversão ter ocorrido com tecnologia, inovação e marketing basicamente portugueses e à revelia dos “cânones tradicionais”, cuja via para o aumento de competitividade deste sector (e não só), teria de passar fatalmente pelo esmagamento dos custos.

Tudo indica que os nossos industriais privilegiaram o valor e as margens unitárias em detrimento do volume. Não aparentam competir pelos custos, pois o sector é dos poucos em que os salários têm subido de forma consistente e significativa nos últimos anos. Denotam um claro objectivo de diferenciação pela qualidade, a melhor forma de obter preços de venda elevados. Bem elucidativo disto é a repartição das nossas exportações por tipo de produto (mesmo relatório, pág. 17), com quase 80% dos 65 milhões de pares exportados concentrados nas fileiras de maior preço (Couro e Outros). De realçar ainda que o preço médio do par português foi dos que mais subiu em 2011: 23,6%, que compara muito favoravelmente com os normais 14,7% de Itália, os surpreendentes 14,2% da China e os modestos 6,6% da França raffinée.

A subida dos nossos preços médios tem-se verificado de forma consistente nos últimos anos (em 2010 “só” fomos o 3º mais caro), o que tem constituído o principal driver da retoma das exportações, que estarão no entanto ainda longe de atingir o volume de pares exportados em 2001 (mais de 100 milhões). O saldo comercial tem melhorado significativamente (30% desde 2009), mas irá previsivelmente plafonar no corrente ano, muito por força da desvalorização do euro face ao dólar. O que só atesta que a qualidade rende mais se vendida em moeda forte.

Eis um bom exemplo de um sector tradicional que soube reestruturar-se da melhor forma. O crescimento económico sustentado passa por emular este tipo de estratégia, baseada na qualidade e no valor e não nos baixos salários. E oremos para que os políticos não se intrometam…

12 comentários leave one →
  1. ccz's avatar
    6 Setembro, 2012 08:57

    Excelente desempenho.
    .
    Só uma nota:
    A evolução do preço tem sido esta http://t.co/sHSlZxXx.
    A evolução do número de pares tem sido esta http://t.co/4O6Ce8Ap

    Algures, talvez este ano, ou no próximo, a quantidade de pares produzidos deve começar a inverter. Apesar da redução da produção de pares, a facturação do sector tem crescido desde o golpe da saída das multinacionais e, quase que sou capaz de jurar que a facturação de 2011 quase igualou o máximo de sempre.

    Este sector tem empresas que nos últimos 5 anos nunca cresceram abaixo de 40%.

    Apesar das elites e dos académicos e longe de Lisboa

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  2. Renato's avatar
    Renato permalink
    6 Setembro, 2012 09:02

    Se calhar tb está relacionado com o aumento do nível de educação do país. A tal dos “doutores universitários” do eduquês como gostam de chamar.
    Isto é um bom exemplo em que a subida da formação dos patrões se nota descaradamente. Explicar a um empresário que tem o 9º ano ou menos, que eu com um licenciatura em design o posso ajudar a ganhar mais dinheiro do que um trabalhador sem qualificações é impossível. Porque tb lhe tenho de explicar que mereço ganhar o dobro. E isto ainda acontece em Portugal em muitas áreas.
    Contratar um gajo com um licenciatura em design ou em marketing saí muito mais caro do que contratar um trabalhador com a 4ª classe a ganhar o salário mínimo para fazer sapatos mas rende muito mais no futuro. Coisa que os empresários portugueses não souberam ver, nem aproveitar ao longo dos últimos anos. Resta-nos este bom exemplo… espero que venham mais.

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  3. LR's avatar
    6 Setembro, 2012 09:12

    Caro Ccz,
    .
    Obrigadíssimo pelos dados adicionais. Andei à procura de dados longos para quantidades e preços, mas não os encontrei. E só reforçam que houve uma autêntica revolução: em pouco mais de 10 anos, o nosso preço médio do par quase duplicou.

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  4. LA-C's avatar
    LA-C permalink
    6 Setembro, 2012 13:34

    E isto apesar de tudo quanto é inteklectual andar por aí a dizer que os nossos empresários, em especial os do calçado e sector têxtil, serem uns atrasados iletrados.

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  5. José Silva's avatar
    José Silva permalink
    6 Setembro, 2012 14:41

    Tudo isto no tempo de Sócrates, o que é curioso. A receita da direita neoliberal, do esmagamento dos custos através da redução de salários, não foi aplicada, e as coisas funcionaram. E o bom desempenho das exportações portuguesas no último ano ainda é resultado deste tipo de políticas, incentivadas pelo anterior Governo. A partir do segundo semestre, quando se começarem a fazer sentir os efeitos da diplomacia económica de Portas e da política do pastel do Álvaro, é ver as exportações a ir por aí abaixo. Já se nota agor,a com muito menos encomendas do exterior às empresas portuguesas. Os resultados virão depois.

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  6. João Santos's avatar
    João Santos permalink
    6 Setembro, 2012 14:46

    Alguém tem dados sobre o numero de trabalhadores e de famílias que dependem deste sector? Nos últimos 20 ou 30 anos?
    A gerência agradece…

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  7. ccz's avatar
    6 Setembro, 2012 16:08

    Caro João Santos,

    Em 1974 existiriam, segundo os dados da APICCAPS cerca de 15300 trabalhadores. Depois, com a abertura da economia e a entrada das multinacionais em força, o número de trabalhadores no sector ascendeu a cerca de 59100 em 1994. 10 anos depois, o efeito China já se fazia sentir e o número tinha caído para cerca de 40250. O mínimo foi atingido em 2009 com cerca de 32500 em 2009. (Recordo que em 2009 Felgueiras já era um concelho de pleno emprego) Em 2010 o número cresceu para pouco mais de de 32700. No ano passado o número voltou a crescer, pode pesquisar na net os protestos dos empresários do sector que não encontravam gente disposta a trabalhar, pode pesquisar sobre os prémios que as empresas pagavam aos trabalhadores que trouxessem outros trabalhadores.
    .
    Em 2010 trabalhei com várias empresas de calçado e vi, ninguém me contou, a forma como os empresários tratavam o pessoal, com medo de os perder para a concorrência.
    .
    Mas mais interessante, IMHO, é o rácio trabalhadores por empresa: http://yfrog.com/mm63zxwj
    .
    As multinacionais vieram cá montar ou alimentar fábricas de mão de obra barata, compravam minutos, apostavam no volume tinham n unidades com mais de 1000 trabalhadores. Na década da mudança estrutural do sector assistimos a fábrica mais pequenas de um pico superior a 36 trabalhadores por empresa, em 2010 tínhamos cerca de 24 trabalhadores por empresa, em que cada trabalhador produz muito mais valor acrescentado potencial.

    Esta evolução dos trabalhadores por empresa ocorreu no têxtil e vestuário.

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  8. ccz's avatar
    6 Setembro, 2012 16:57

    Queria acabar com “Esta evolução dos trabalhadores por empresa ocorreu no têxtil e vestuário também” mas esqueci-me do também

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  9. joao santos's avatar
    joao santos permalink
    6 Setembro, 2012 17:59

    Caro ccz
    Grato pelos dados.

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  10. josé's avatar
    josé permalink
    7 Setembro, 2012 07:50

    Asneiras.
    Se os produtores de calçado Português não conseguirem começar a produzir em paises com mão de obra mais barata daqui a 10 anos estão todos falidos. E sera importação massiça de sapatos.

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  11. LR's avatar
    7 Setembro, 2012 15:20

    José,
    .
    Você não percebeu que, no sector de calçado (e não só) Portugal só ganha se apostar na especialização em nichos de mercado? E neste caso não é relevante a produção massificada, mas o fato por medida. A China e os USA tendem a “commoditizar” toda a produção porque estão padronizados para pensar em grande escala. Um país pequeno como Portugal jamais pode pensar nesses termos, tem de diferenciar e almejar o top na qualidade (e nos preços).
    Você tem de ler o blogue do Ccz, que ele tem esta estratégia muito bem fundamentada.

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