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Juros usurários? É fácil ser demagogo em Portugal…

10 Novembro, 2012
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O meu segundo texto no Público desta semana foi sobre a demagogia a propósito dos “juros usurários”:

Em tempos difíceis é confortável, tentador mesmo, enfiar a cabeça na areia a ver se o temporal passa. Esta tem sido, até ao momento, a atitude preferida do PS, em particular neste debate. Entrincheirando-se na posição mais cómoda – a de não querer discutir quaisquer cortes na despesa pública -, sugere que a solução está em “políticas de crescimento” (ignorando que foram essas políticas voluntaristas que nos trouxeram até este buraco) e em viagens pela Europa para “renegociar” os juros e os prazos da dívida. É um duplo logro. Primeiro, porque, mesmo que aliviássemos um pouco os juros, não evitávamos ter de cortar em todas as outras despesas. Depois, porque, ao contrário do que é voz corrente, os juros que pagamos à troika são tudo menos usurários ou punitivos, um coro que começou na extrema-esquerda, continuou no Conselho Económico e Social e conhece agora a adesão de António José Seguro. Senão vejamos: de acordo com o Jornal de Negócios, a taxa que pagamos aos nossos parceiros europeus está entre os 3% e os 3,2%, com maturidades relativamente longas (12 anos). É menos do que pagamos aos FMI (4,7%), menos do que pagamos aos privados (4,35%) e bem menos do que têm pago a Itália e a Espanha, quando vão aos mercados. Estas taxas já baixaram desde que foram aceites por José Sócrates (ser “bom aluno” e negociar discretamente dá algum resultado…) e podem baixar ainda mais, mas não muito mais. Não será só por aqui que nos salvamos, até porque no passado beneficiámos de taxas de juro mais baixas e não deixámos por isso de nos endividar. O trabalho tem mesmo de começar dentro de casa, o resto é pouco mais do que fogo-fátuo.

16 comentários leave one →
  1. JEM's avatar
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    10 Novembro, 2012 21:15

    Os juros da dívida pesam 4% no pib, face a uma média europeia de 2,5%

    Se chantagearmos a Europa como fez a Grécia, talvez consigamos reduzir de 4% para 3% do pib. Isto melhor das hipóteses. 1 ponto percentual. Pouco para quem tem um défice real de 6%.

    Esta chantagem teria custos muito elevados: fuga de investimentos (mais desemprego), fuga de depósitos (menos crédito disponível para as empresas), subida das yields (mais longe dos mercados, mais dependentes da troika) e impacto reputacional – seremos muitos anos conhecidos internacionalmente como aldrabões.

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  2. JDGF's avatar
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    10 Novembro, 2012 21:56

    Gostaria de entender essa complacência em relação aos credores com esta afirmação (oficial):
    Portugal vai pagar um total de €34.400 milhões em juros pelos empréstimos do programa de ajuda da troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional), segundo dados do Governo…“.
    http://expresso.sapo.pt/portugal-vai-pagar-836434400-milhoes-de-juros-a-itroikai=f690266#ixzz2BrKsAbcK

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  3. economista's avatar
    economista permalink
    10 Novembro, 2012 22:27

    Enterrar a cabeça na areia é não ver que a Banca é criminosamente a principal culpada da crise e escandalosamente seja a principal beneficiária da crise e à custa do desgraçado contribuinte !… Cheira a BE não é ? …à falta de melhor argumento …A ignorância do nosso jornalismo resume-se a muita coisa !… Por exemplo, alguma vez leu a Lei de Wagner ? Alguma vez leu a História Financeira Portuguesa ? Estamos em Democracia (duvido…) . Nunca foi possível reduzir significativamente a Despesa Publica em regime democrático . Com a vossa sabedoria consegue resolver a eterna quadratura do circulo . Candidatos a Nobel não faltam ! ! ! … Crescimento imparável da Divida Publica ! Crescimento Económico , ZERO ! ! ! …A Divida Publica contraída no Consulado de Cavaco como PM somada com a divida publica contraída já por Passos Coelho , ultrapassa já a Divida Publica contraída com as loucuras(suspeito de escutas a Belém?) de Sócrates com a tão badalada e danosa colaboração institucional de Cavaco com Sócrates ! ! ! …
    QUEM comprou a QUEM ???
    “Quem andou a comprar dívida portuguesa não foi a Alemanha, foi a banca portuguesa e a Caixa (que se sobre endividaram junto do BCE, e a quem deixaram umas cautelas de risco elevado), assim como —pasme-se— o principal fundo de pensões do estado… português!
    Desafio, pois, o PS do inseguro Seguro, o PCP do megafone Jerónimo, e o Bloco do reciclado Mao, a desfazerem este nó! Quem pagará a reestruturação que defendem para a gigantesca dívida pública portuguesa? Se a dita dívida está em boa parte sentada ao colo dos bancos indígenas à beira da falência, do banco público, igualmente insolvente, e do fundo de pensões do tal estado social, cuja liquidez dá para oito meses, a quem servirão as vossas desmioladas alternativas ao memorando da Troika assinado pelos três partidos do arco da desgovernação?Se quiserem não pagar, ou pagar menos, já sabem quem ficará com o calote ao colo, não é? E então?A Autoeuropa, a SAP e a Simens são algumas das empresas que funcionam bem em Portugal há décadas, ao contrário de tudo o que vem dos piratas do PS, dos piratas do PSD, dos piratas do BES, da Mota-Engil, do Grupo Mello e do resto da corja de imbecis e de ladrões que levaram o país à bancarrota e insistem em roubar o que resta.. Usar a Alemanha, a tia Merkel, e a Troika, como bodes expiatórios da pirataria local é mais uma prova de demência de uma parte dos indígenas da Tugolândia, que assim bem merece a má sorte que lhes caiu em cima.Há uns séculos atrás a mesma corja de então expulsou sucessiva e alegremente os judeus, culpando-os da bancarrota do país. Expulsou os Jesuítas da Lusitânia do oeste e do Brasil. E, algumas décadas depois, extinguiu as ordens religiosas, para depois vender a pataco conventos e igrejas, cujas pedras foram usadas para fazer muros, casotas e tanques de água, deixando à vista até hoje cicatrizes escandalosas na paisagem de ruínas de pedra que abunda pelo país. Em todos estes casos citados o objetivo foi o mesmo: obter liquidez para tapar as finanças públicas arruinadas. Os criminosos de então são os mesmos de hoje: a corja dos rendeiros e dos burros com poder a soldo dos primeiros.Ou seja, expulsámos, sucessivamente, gente que sabia fazer dinheiro, mas sobretudo gente culta e que sabia pensar. Ficaram, já então, a maltratar este pobre país, os burros do poder, os cretinos assessores, os rendeiros de sempre e os putos e putas da corte. A comandar ficaram e estão, lançando milho à populaça estupidamente agradecida — como galinhas.Uma vez mais, a mesma corja de burros dominantes, incultos e criminosos, lança o povo contra os credores, no preciso momento em que estes enviam o dinheiro que paga mensalmente os vencimentos da função pública, dos governantes, e os lucros usurários dos banqueiros e dos rendeiros protegidos desta cloaca da Europa.Há porém uma diferença: desta vez, não conseguirão expropriar os credores externos. Apenas podem roubar a Previdência Social e rebentar de vez com o estado social — o que têm estado a fazer nas costas dos eleitores.E assim, não pagar é assunto muito sério também, cujo preço só poderá ser o fim deste imprestável regime, desta democracia populista, desta partidocracia sem concerto nem conserto, de mais uma cleptocracia disfarçada.Espero bem que, desta vez, esta bancarrota arruíne boa parte da corja que matou, uma vez mais, Portugal. Os portugueses pobres e remediados estão a ser arruinados diariamente, pelo que nada têm que temer da ruína dos ricos que assaltam o país cantando e rindo.” (sic)

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  4. Fincapé's avatar
    Fincapé permalink
    10 Novembro, 2012 22:27

    Hoje de madrugada a TVI24 repetiu um documentário sobre o Goldman Sachs, esta entidade tão “amiga” dos nossos liberais. É curioso que o nosso liberalismo mais ou menos radical nunca tenha dito uma palavra sobre esta instituição que tanta tinta e tantos gigabytes de imagem têm utilizado.
    Ah! Eu ando a ler o livro. Aquele lançado este ano.

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  5. Lucas Galuxo's avatar
    Lucas Galuxo permalink
    10 Novembro, 2012 22:34

    “Isto melhor das hipóteses. 1 ponto percentual.”

    1 % = 1,7 mil milhões de euros por ano = +- os encargos das PPPs. É, falamos de migalhas.

    “Esta chantagem teria custos muito elevados: fuga de investimentos”.

    O que assustará mais o investidor? Um devedor insano que diz que paga sabendo não ter condições para pagar ou um devedor sensato que propõe um plano de pagamento razoável?

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  6. Fincapé's avatar
    Fincapé permalink
    10 Novembro, 2012 22:56

    Estes dirigentes alemães são danados. Desde que ganhem muito dinheiro, nem que seja com os juros que pagamos pelas dívidas, até dispensam informação.
    http://clix.expresso.pt/video-de-marcelo-recusado-pela-alemanha=f766017

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    • economista's avatar
      economista permalink
      10 Novembro, 2012 23:27

      … o filme respeita o modo de via alemão ? (ich bin ein berliner!…)

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  7. Joaquim Amado Lopes's avatar
    Joaquim Amado Lopes permalink
    10 Novembro, 2012 23:42

    JDGF,
    O dinheiro emprestado pela troika era necessário para cobrir as despesas do Estado. Se a troika não nos tivesse emprestado, teriamos que o ir pedir a outros, que exigiriam taxas de juro muito mais elevadas. Assim, tão importante quanto vamos pagar à troika é quanto teriamos que pagar aos outros.
    Como conseguiu descobrir quanto vamos pagar de juros à troika, talvez possa também descobrir qual a taxa de juro que os “outros” nos estavam a pedir quando chamámos a troika.

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  8. JEM's avatar
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    10 Novembro, 2012 23:50

    “O que assustará mais o investidor? Um devedor insano que diz que paga sabendo não ter condições para pagar ou um devedor sensato que propõe um plano de pagamento razoável?”

    Pode tirar as dúvidas comparando o caso grego ao irlandês.

    Na Grécia a conversa é mais tempo, mais dinheiro, fora a troika, acabar com a austeridade. O resultado está à vista. Miséria, depressão económica, fuga de capitais, falta de investimento, desemprego, novos planos de resgate.

    A Irlanda cumpriu serenamente o seu programa. A recessão acabou, o desemprego parou de subir, já tem acesso aos mercados e a troika está quase a ir para casa.

    Qual caminho prefere para Portugal?

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  9. anti-praticos's avatar
    anti-praticos permalink
    11 Novembro, 2012 01:16

    JEM, a irlanda é um caso diferentede portugal.Não há comparação possivel.A irlanda ao contrario de nos nao tinha um problema económico, mas sim de bancos.É um pais mais rico, com mais poder de compra, e com menos impostos
    Pelo contrário, a politica orçamental está a falhar,e os aumentos de impostos do proximos ano só poderão falhar, como já falharam este ano.Um orçamento nefasto e irrealista
    E a nossa politica economica é igual á de socrates e ps!

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  10. anti-praticos's avatar
    anti-praticos permalink
    11 Novembro, 2012 01:20

    “Pode tirar as dúvidas comparando o caso grego ao irlandês. ”
    JEM, responda-me a esta pergunta , sem se rir: E nós por acaso temos condições para pagar? É que se dissermos que sim mas não tivermos, então estamos a mentir

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  11. Lucas Galuxo's avatar
    Lucas Galuxo permalink
    11 Novembro, 2012 01:26

    “Miséria, depressão económica, fuga de capitais, falta de investimento, desemprego, novos planos de resgate”

    Qual dessas não ocorre ainda em Portugal?

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  12. André's avatar
    André permalink
    11 Novembro, 2012 09:35

    Sabe quais são os juros que devem ser pagos por Portugal às organizações internacionais? Devem ser de 0%. Eu explico, nós também contribuimos com fundos para aquelas organizações ao longo dos anos, fazemos isso na esperança de que quando precisarmos vamos ser ajudados e não explorados. Por isso, essa face da moeda era facilmente resolvida, pagamos o que devemos e o resto é estória (com e, para afirmar o desprezo).
    Os juros aos privados, podem ser considerados como investimentos de risco (juros a 4%, tenho de arranjar um negócio com o meu banco para ter juros desses sem risco nenhum). Nós vamos pagar enquanto pudermos, se deixarmos de poder pagar (que vai acontecer este ano, tal é a receita fiscal que vai faltar no orçamento) então, foi um investimento de risco que deu para o torto, às vezes a vida tem destas coisas.

    P.S. Isto até trazia vantagens, nunca mais nos emprestavam dinheiro, assim, também nunca mais nos endividávamos e metiamo-nos nesta situação.

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  13. C. Medina Ribeiro's avatar
    11 Novembro, 2012 10:41

    Podemos recuar a «O Mercador de Veneza» ou a tempos mais remotos – o fenómeno é sempre o mesmo:
    Um indivíduo precisa de dinheiro, arranja quem lho empreste, e acordam nas condições.
    Ao ver o seu problema “resolvido”, faz uma grande festa, mas quando chega a altura de pagar, o credor é que é o odioso, o usurário…
    Em certos casos, até pode ser que seja verdade, mas conheço vários outros (e alguns bem mais perto de mim do que eu gostaria!) em que o empréstimo foi feito a juro ZERO e SEM PRAZO de pagamento estipulado. Nesses casos, correu tudo na paz dos anjos – mas só até ao dia em que o credor perguntou ao devedor: «Olha lá – não leves a mal a pergunta… – mas quando é que achas que podes começar a pagar-me o que te emprestei?».

    Já Ramalho Ortigão dizia (e cito de memória, d’ «As Farpas»): «Se queres ver-te livre de alguém, empresta-lhe um conto de reis que ele não te possa pagar – podes ter a certeza de que não o voltas a ver».

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