zangados com a realidade
Uma das características mais admiráveis dos portugueses, porque constante e quase universal, é a sua resistência aos factos. Perante um qualquer que contrarie as suas expectativas e os seus planos, o português reage-lhe com animosidade, como se os factos tivessem vida própria e existência física. Esta atitude tem-nos trazido dissabores e desilusões, mas faz de Portugal e dos portugueses num interessante caso de investigação sociológica, ainda que eu tenha sérias dúvidas – tal e qual o Presidente sobre o orçamento – do rigor científico dessa disciplina…
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De todo o modo, há experiências que podem ser feitas e observações interessantes que delas podemos retirar. Por exemplo: neste post, que ontem aqui escrevi, limitei-me a descrever três ou quatro factos que não oferecem qualquer dúvida: que o actual orçamento de estado não reúne a simpatia do Presidente da República e do CDS (que deviam identificar-se plenamente com ele), nem da oposição convencional (partidos de esquerda e sindicatos), nem sequer de forças sociais tradicionalmente neutras perante o governo (Igreja Católica), o que só pode significar que esse documento e a parte do governo que o sustentam se mantêm por imposição externa dos nossos credores, por um lado, e por falta de coragem política de quem (quase todos os protagonistas) não concorda com ele.
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Esta linear exposição de alguns factos evidentes suscitou, de imediato, como era de esperar, a animosidade de todos os leitores do Blasfémias que se dignaram a comentá-lo (um considerável esforço que carece de justificação), tendo um deles aproveitado mesmo para manifestar interesse sobre a minha saúde mental, cuidado que muito lkhe agradeço, perguntando-me se sou «bipolar», por em tempos ter manifestado a minha discordância sobre a dissolução da Assembleia da República que levou à queda do governo de Santana Lopes e agora escrever isto. Repare-se que, em momento algum, sugeri no post que o actual governo devesse ser destituído de funções, menos ainda por causa do orçamento de 2013, cujos méritos ou deméritos também me escusei a comentar. O João Miranda, por sua vez, imediatamente me esclareceu que o governo só não é substituído por quem o crítica, porque não vai haver crédito nos próximos anos e sem dinheiro fácil esta «malta» não governa.
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Ora, apesar de eu poder ser bipolar e os críticos do governo gastadores compulsivos, isso em nada altera a substância do que escrevi: que este governo e este orçamento só ainda existem por imposição externa, e que, na primeira ocasião, cairá, sem dó nem piedade, para a alegria dos seus críticos. O que virá depois – melhor ou pior do que isto (provavelmente bem pior) – não entra, por enquanto, em consideração, já que a adivinhação de factos, por outras palavras, a astrologia, não é um exercício a que me costume dedicar.
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Na verdade, um dos problemas da interpretação dos factos é que, independentemente do que sobre eles possamos pensar, eles continuam aí, de pé e com boa saúde. E esse é, no limite, o problema de todos os planos políticos que partem dos governos, e este orçamento, como outro qualquer, sendo um orçamento de reestruturação da dívida pública e, necessariamente, do estado português, e não um mero orçamento rotineiro de execução, é-o muito mais do que qualquer outro: destinam-se a pessoas, as pessoas agem e dos actos das pessoas resultam factos que os governos dificilmente conseguem prever. Numa sociedade plural que (ainda) não vive em ditadura (a sugestão da Dra. Ferreira Leite, mesmo que perceptível, não é ainda consensual…), a aplicação dos planos governamentais às pessoas traz sempre consequências (factos) imprevistas. Logo, a sua probabilidade de fracasso é elevada, sendo que qualquer governante que não conte com isso e se zangue com a realidade dificilmente terá vida longa num regime democrático.

este ou qualquer outro governo será sempre da troica.
ou pagas ou ficas em jejum.
também me foram ao bolso.
ninguém fala de quem criou a dívida.
o ps prepara-se para a 4ª falência dos contribuintes, porque 1.5 milhões de votantes chupam os contribuintes
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Uma das características da ideologia neo liberal é a de que o povo é estúpido e nao aceita uma crença que está cheia de virtudes. Este post é o exemplo acabado. Seria engraçado se por detrás despe pensamento nao estivesse um impulso totalitário e protofascita.
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ás vezes também gosto de confundir factos com desejos…
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Desespero neo-liberal.Este governo não faz 2013.
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Rui
De facto estou zangado com a realidade, gostava mesmo que fosse possível viver com orçamentos em que a despesa com investimento (numa perspetiva ampla, que inclua educação e saúde) não fosse considerada à cabeça mas no momento em que se paga.
Também gostava que a prometida responsabilização fosse realidade, e que quem tem responsabilidades de gerir a coisa publica e o faça com sucesso não seja colocado no mesmo saco dos que foram inconsequentes, e não tenha de ser solidário na penalização. E estou a pensar nas funções do Estado mas também em todas as “privadas” que vivem de apoios, ajudas e isenções, ou seja quase todas. Tenho para mim que entre uma EPAL publica que dá lucro e um BPN privado que dá prejuízo prefiro a primeira.
Gostava ainda de perceber qual a razão dos americanos continuarem a imprimir moeda e a funcionar, e os europeus não.
Também gostaria de perceber porque razão há um comunidade europeia, se depois permite comprar produtos de chineses, brasileiros e outros que não cumprem o mínimo em termos sociais, em clara concorrência desleal, apenas para que os grandes exportadores (leia-se a Alemanha, França, UK, Itália e Espanha) possam vender as suas coisas nesses países. Por cada BMW que a Merkel vende para a China nós temos de importar milhares de camisolas que destruíram muitas empresas nacionais.
Já sobre o assunto do dia gostaria de saber porque é que o TC assumiu uma inconstitucionalidade no ano passado e não se corrigiu a ilegalidade, logo nessa altura. Sempre gostava de ver se um caso de pedofilia chegar ao TC se vai sair uma decisão em que diz que foi praticado um crime mas a pena seja alterada para a promessa de não voltar a cometer o mesmo crime no futuro.
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Desculpe lá rui, mas o seu post é de um paternalismo a roçar o ridículo.
Isso de considerar uma caraterística dos portugueses a resistência aos factos, não passa da sua opinião e carece de demonstração.
Ou será que o seu post, como “português”, é uma resistência aos factos?
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Portela, já fizeste a barba?
R.
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Noto sempre, nestes comentários, a facilidade como se vêem as coisas distorcidas, talvez por hábito ou por qualquer tipo de frustração que não se expele de outra maneira.
Como alguém escreveu há tempos, devem andar alguns políticos a preparar-se para arranjar euros com algum tipo de maquinaria especial, topo de gama e ultra-moderna, para pagar as dívidas de que toda a gente se apercebeu ao longo de anos, mas fez-de-conta, mesmo com tantos “avisados avisos” de quem andava a prever onde tudo ia acabar.
Felizmente, há outro Portugal, há outros portugueses. E exemplo disso viu-se no programa “Portugal Português” de 23 de Dezembro, salvo erro. Excelente programa… a uma hora que poucos terão visto, claro. Optimismo, aspectos positivos, gente jovem, ideias, iniciativas, projectos, sorrisos, um Portugal Português em que confio e em que acredito.
Não posso dizer o mesmo de quem assistiu, impávido e sereno, ao descalabro de um país com culpados perfeitamente identificados e que calou, deixou andar, não se manifestou, empurrou tudo para o futuro. Depois disparam a raiva à laia de vendilhões do templo!
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Factos? Três bancarrotas em 30 anos de social/socialismo. Resistência aos factos? A luta por mais do mesmo, levada a cabo pelos moços de recado do estudante de filosofia e demais esquerdalha. Querem mais?
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30 anos de capitalismo puro. com todos os partidos da direita a governar.
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Se há coisa que se nota nos comentários, além das tentativas de lançar ataques pessoais por não gostarem de uma opinião, é o facto de que realmente os críticos destas ideias não sabem realmente do que estão a falar. Um exemplo deste défice de conhecimento é esta tentativa de atacar este governo por supostamente ser neoliberal, uma acusação que contrasta com a realidade, e o disparate recorrente de tentar atribuir culpas a uma vaga noção de capitalismo. De volta na realidade, um governo que se multiplica na concessão de subsídios e criação de impostos novos sobre o grande capital para repartir pelos pequenos produtores obviamente que nunca pode ser acusado de ser neoliberal. De igual forma, quem acha que problemas da dívida soberana são causados pelo capitalismo está, intencionalmente ou por ignorância, a esquecer-se que Cuba está actualmente falida e a passar essencialmente pelos mesmos problemas que os países falidos da zona Euro.
Não podem queixar-se que alguém fale em ignorância quando é exactamente esse o problema.
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Corretíssimo!
Bipolar é esta sociedade e os seus ilustres “senadores”, que ao longo destes anos têm “cuidado dos ideais de Abril” perpetuando o coorporativismo “salazarista”!
De um Afonso V passamos rapidamente para um João II. Deste último caímos num Manuel I.
Sebastianismos à parte (insanidade permanente que se recusa a “Ser” pedindo que os ajudem a “ser”), o Povo Português na Sua génese é Grande! A “gente de bem” é que foi sempre medíocre!
Caro rui.a, deixo aqui, em Seu Tributo, a expressão máxima da minha bipolaridade!
Cumprimentos,
António Luís Maia Correia
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Diz o Duarte que são 30 anos de Capitalismo puro.
Acho que podem encerrar os comentários em relação a este post.
R.
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Concordo. Tal e qual.
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A “zanga” das pensões… “Obviamente, ninguém pretende uma “guerra de gerações”, mas o conflito de interesses é evidente e esta situação só se resolverá com bom senso. No caso de o TC se pronunciar pela existência de inconstitucionalidade na medida que prevê os cortes das pensões mais elevadas, na prática, essa decisão implica um prejuízo dos direitos do cidadão B para que seja possível assegurar os do cidadão A.
http://jornalismoassim.blogspot.pt/2013/01/da-constitucionalidade.html“
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O Governo nos últimos dias do ano transacto só deu trunfos aos detractores da suas políticas. E agora, depois da ‘arrochada’ do PR, confirma aquilo que um dirigente do PS veio sublinhar logo após a mensagem de ano Novo. Um Governo isolado social e politicamente. Ele é o PR, a(s) Oposições, os parceiros sociais, a Igreja, etc. Faltam ‘iluminados’ para demosntrar como é possível – em democracia – governar contra tudo e todos.
Hoje mesmo – a propósito de redução das indeminizações por despedimento – apareceu a UGT a anunciar que o Governo tinha rasgado o acordo de concertação social. Qual o resultado de proclamar que tem a confiança dos mercados quando na realidade desbaratou a dos cidadãos?
E, indiferente, continua o batuque do ‘nem mais tempo, nem mais dinheiro’. De facto este governo não é pura e simplesmente neo-liberal. Pratica um neoliberalismo de pacotilha. Por este caminho não vamos longe…
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O PSD e o PS saqueou Portugal durante 25 anos , agora anda tudo a procura de culpados ?!
Os portugueses andam como eles querem , mansos , obdientes e o melhor aparece nas eleiçoes a abstençao ganha outra vez……….. Portugal no seu melhor……
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Adoro o capitalismo puro do Duarte e do Partido Comunista Chinês.Já o esquerdismo puro duartino foi aquele que a gente sabe e que acabou na pátria onde até o sol brilhava mais com cada um (dos russos) com menos de vinte euros no bolso.
Viva o direitismo duartino embora embuído de dívida mas de “conquistas civilizacionais” socializantes.
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De facto estamos num grande dilema.Tenho imensas dúvidas que possamos ter finanças saudáveis com a Constituição a vigorar durante o saneamento do regabofe despesista dos últimos governos.
Se formos à história constatamos que na monarquia constitucioonal o rei , quando havia problemas com a falta de dinheiro, dissolvia o parlamento, o governo governava por decreto e depois quando as coisas melhorassem, voltava o parlamento para ratificar os decretos. Na 1ª república depois do golpe de 28 de Maio de 26, a ditadura dissolveu o parlamento, suspendeu a constituição, chamou Salazar para por ordem na casa e depois em 33 plebescitou-se a nova constituião que durou até 24 de Abril de 74.
É sabido que esta constituição não permite cortes na despesa do Estado. Mas se for nos privados aí não há problema.Neste particular dou razão a Vitor Gaspar, que se fosse eu ( mas reconheço que não tenho competencia), dizia ao Dr. Cavaco: faz favor, resolva o problema.Ia-me embora.
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Zangados com a realidade? E com as previsões?
Não não é que, para 2013 em termos de PIB, só o país do Zorba diminui mais rapidamente que nós?
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E quem é que mais rapidamente sobe? É Macau! Mas pouco depois vem Angola, logo a seguir vem Timor-Leste e por fim Moçambique.
Goa, Damão e Diu não consta da lista. Não têm, nem fuel nem bio.
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Era uma vez um Gaspar, que fazia parte da corte, e que vestia um fato feito de um tecido invisível chamado génio, que lhe conferia o dom de acertar nas medidas que tomasse e tinha a característica de só poder ser visto por pessoas inteligentes. Apesar do homem estar nu para as pessoas mais avisadas nem o povo nem a corte queriam fazer o papel de pouco inteligentes e por isso fingiam que o homem ia vestido.
Porém com o decorrer do tempo verificou-se que todas as medidas que o homem tomava davam resultados diferentes do previsto.
Assim o número de pessoas que viam o Sr. vestido foi rareando até que restaram apenas três crentes. Um membro da corte que muda tantas vezes de fato e de pele que quando vê um membro da corte nu assume que ele esteja em transito entre duas mudanças de roupa e portanto, para a sua larga visão, tecnicamente vestido. Um ex funcionário com carreira internacional que lhe convém manter o mito do tecido génio, pois julga que também veste o mesmo tecido. E por último o chefe que vê convictamente o homem vestido mas não por tecido totalmente invisível mas sim a brilhar com purpurinas.
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