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point of no return

4 Janeiro, 2013
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Num país em que o estado se habituou a gastar, sem rigor nem responsabilidade, o dinheiro dos contribuintes e de quem se dispunha a emprestar-lho, gerou-se a convicção de que a austeridade é uma política e não uma necessidade. É certo que a austeridade até agora posta em prática pelo governo tem sido mais a dos contribuintes, com aumentos sucessivos de impostos, e não tanto a do estado e da sua despesa, que só desde a penúltima avaliação da troika e dos recados que ela cá deixou se começou verdadeiramente a tentar fazer. É evidente que sacar dinheiro a contribuintes indefesos é mais fácil do que promover reformas profundas do nosso modo de vida, seja pela dificuldade em enfrentar lóbis, seja pelas limitações legais e constitucionais existentes a essas reformas, seja ainda pelas consequências sociais que cada uma delas necessariamente implica no curto e no médio prazo, e que são consequência do desmoronamento inevitável do estado social português. Mas, a verdade é que os cidadãos e, sobretudo, os eleitores dos partidos do governo se sentiram defraudados por continuarem a ser vítimas de políticas que, no essencial, não se distinguiram substancialmente das do governo de José Sócrates, sem que se sentisse que o governo estivesse a mexer na substância das coisas. O governo perdeu tempo, demonstrou desorientação com medidas que não conseguiu explicar ao país, nem a muitos dos seus ministros, reduziu substancialmente a sua base social de apoio, e irritou o eleitorado, porque não evidenciou a intenção reformista que poderia legitimar a dureza das suas medidas.

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Nestas circunstâncias, quando se percebe que o primeiro-ministro e o ministro das finanças estão cada vez mais sob a observação crítica, primeiro, do próprio PSD, segundo, do presidente da República e, terceiro, do CDS, e que estes não lhes perdoarão um muito provável fracasso na execução orçamental do próximo semestre, a deterioração do ambiente social e político, que culminará com uma previsível derrota eleitoral nas eleições autárquicas do final do ano, legitimará a dissolução da Assembleia da República por iniciativa presidencial, isto se Paulo Portas e o CDS não tiverem arranjado entretanto um bom pretexto para romperem a coligação, ou se o Tribunal Constitucional não declarar inconstitucionais algumas das normas orçamentais submetidas à sua fiscalização.

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Pedro Passos Coelho e Vitor Gaspar, cada vez mais indissociáveis e com um destino político comum, estão, assim, num verdadeiro point of no return. Ao contrário do que aqui escreveu a Helena, não creio que tenham já espaço para jogadas de antecipação e de táctica política com os seus adversários. O CDS tem deixado o rabo de fora das decisões mais críticas do governo, o que lhe tem valido manter-se positivamente nas sondagens, José Sócrates já por aí anda a organizar almoços que certamente não serão de confraternização pelos seus eventuais sucessos escolares em Paris, e Cavaco que, para além de ser um convicto keynesiano e, por isso, um crente nas virtudes da despesa pública, deve ter os ouvidos cheios com o que lhe vão dizendo os seus conselheiros ligados ao baronato histórico do PSD. Todos ficarão imunes a quaisquer jogadas políticas de Passos. Se este se demitir, não terá sequer a desculpa do chumbo de um qualquer PEC IV, que Sócrates se deve estar a preparar para relembrar ao país. Sairá derrotado do cenário político, deixando espaço para um possível governo de iniciativa presidencial, provavelmente com um qualquer «predestinado» para o substituir, um Monti à portuguesa, papel a que Rui Rio cada vez mais se parece disposto a prestar, ou provocando eleições antecipadas, das quais não será difícil encontrar uma maioria parlamentar no «arco da governabilidade», com o apoio do presidente e a substituição de alguns dos actuais protagonistas.

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Assim, a Pedro Passos Coelho e a Vitor Gaspar não resta senão seguir em frente, não falhar estrondosamente na execução do orçamento, conseguir reverter, ainda que ligeiramente (mais do que isso será impossível…), alguns indicadores económicos no decorrer dos próximos meses, evitar o chumbo das normas orçamentais submetidas ao Tribunal Constitucional, e obter um resultado airoso nas autárquicas, se possível não as perdendo por muitos votos e conquistando algumas praças ao PS, como Lisboa, sem sair derrotado de outras que são de há muito suas, como o Porto e Vila Nova de Gaia. O caminho é, como se vê, muito estreito e de enorme perigosidade. A probabilidade de insucesso é enorme, porque em muitos aspectos não depende do governo. O falhanço e a substituição deste governo, a acontecerem, será nefasto para todos nós e as suas consequências serão graves, porque prolongarão e agravarão as condições da recuperação do país. Mas, pior ou melhor, por cá continuaremos, porque, como dizia o outro a quem devemos muito do que estamos a passar, «é a vida». E a nossa não promete ser fácil nos próximos anos.

17 comentários leave one →
  1. Zebedeu Flautista's avatar
    Zebedeu Flautista permalink
    4 Janeiro, 2013 04:08

    Mas qual é o stress? Não estamos no domínio do TINA?
    .
    E o que é isso da “nossa” vida? Não se está a entrar no caminho para a servidão recorrendo a colectivismos piegas?

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  2. lucklucky's avatar
    lucklucky permalink
    4 Janeiro, 2013 04:34

    “O falhanço e a substituição deste governo, a acontecerem, será nefasto para todos nós…”
    .
    Para todos nós não, só aqueles que têm uma esperança de vida reduzida.
    .
    Entre bater na parede a 250km/h da Esquerda e a 200km/h da Direita Soci@lista não há diferença significativa.
    Que é onde este governo socializante nos leva pois a maior parte do Défice que consegue eliminar só em mais Estado ou seja Impostos.
    E ainda não contente com mais Estado por via de Impostos – mais dinheiro na mãos dos políticos sociais menos nas mãos das pessoas temos ainda mais regras, mais leis- Destruíndo toda a inciativa, vontade dos que ainda queriam criar. Assim ficam só os que já estão. A cair de podre.
    Um Governo Hollande.

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  3. JDGF's avatar
    JDGF permalink
    4 Janeiro, 2013 08:06

    Segundo reza o post ficamos sem perceber porque razão o Governo não se demite – ou é demitido – já!
    Exercícios divertidos sobre o regresso de Sócrates, manobras Rui Rio, culpabilização de Guterres, etc., são manobras de diversão. Será difícil aceitá-los como ‘soluções’.
    Ou, então, aguardamos que surja um novo post defendendo que ‘quanto pior melhor’ e que, de facto, dia a dia, se escancaram as portas a um regime autoritário.

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  4. piscoiso's avatar
    piscoiso permalink
    4 Janeiro, 2013 09:43

    Quando rui a. escreve sobre a substituição do Governo “será nefasto para todos nós” e “a nossa (vida) não promete ser fácil nos próximos anos” está a referir-se concretamente a quem?
    Certamente aos que auferiram vantagens com ele.
    Quantos são, quantos são?

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  5. António J. Costa's avatar
    António J. Costa permalink
    4 Janeiro, 2013 09:55

    Este governo falhou ligo no inicio.
    Quando era preciso começar pelo Estado, começou por desbaratar o pouco que havia de iniciativa privada, acabando por completo qualquer réstia de esperança e confiança que ainda subsistia.
    Como Maquiavel disse o mal faz-se só de uma vez. Aqui nao só nao se fez de uma vez, como se começou por errar no alvo.
    Agora é tarde. Aqueles que estavam destroçados e desbaratados pela chegada sa Trioka, pela queda do anterior governo e pela perda das eleições, foram ganhando alento e esperança, em cada tiro no pé deste governo.
    Juntamente a esses já cá faltavam a direita dos “instalados” do costume (veja-se a gritaria em torno do ataque aos pensionistas dourados) e os traidores que estando “dentro” querem aproveitar para sair, pensando que vão ficar por cima, em qualquer próximo poder. Este País jamais aerá viável para quem esteja fora dos círculos do poder e queira levar uma vida digna sem ter que se vender a alguém.

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  6. josegcmonteiro's avatar
    4 Janeiro, 2013 10:11

    Com Relvas, o governo perdeu a pouca vergonha que tinha.
    A demissão de Passos Coelho é urgente.
    E não quero morrer inquinado pelo orçamento!

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  7. PiErre's avatar
    PiErre permalink
    4 Janeiro, 2013 10:31

    rui a . Mais um que está enfeudado ao Chefe e ao Partido. Mais um apparatchik. Fosca-se!

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  8. fado alexandrino's avatar
    4 Janeiro, 2013 10:35

    Fechem a RTP e anexos, retirem os súbsidios às fundações do clã Soares, ponham-no a pagar renda pelas casas em frente à Assembleia e já têm aí quinhentos milhões de euros.
    Se só eu arranjo este dinheiro haja outros a dar ideias para poupar.

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  9. J.J Pereira's avatar
    J.J Pereira permalink
    4 Janeiro, 2013 11:31

    Luxos inúteis num “país” que já deixou de o ser : pr, o bar de alterne a que chamam ” assembleia da república ”
    ( vide uma das frequentadoras do estabelecimento em exibição artísticade pincel na mão.. ou seria brocha ?), “governo”, ” ínfimos” disto e daquilo, (a)fundações, etc. etc.
    Os credores nomeiam um pro – cônsul ( da estranja, òbviamente ) para pastorear o protectorado, e nós, os indígenas, passamos a viver felizes , atentos ,veneradores e muito, mas mesmo muito, obrigados.
    Como dizia o outro, ” haja alguém que nos governe”.

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  10. O SÁTIRO's avatar
    4 Janeiro, 2013 11:41

    GRANDE VITÓRIA DA CIVILIZAÇÃO CONTRA A BARBÁRIE:
    http://www.dn.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=2975794&seccao=Europa
    Lembram-se da corja que inventou logo uma manif contra a invasão do afeganistão dos talibãs pelo w.bush????
    sim, os talibãs é q eram bons…gajos porreiros
    os USA sim eram os malfeitores
    pois:
    PCP
    BE
    CGTP
    PSs (alguns)..MSoares
    mais os apêndices stalinistas e trotskistas
    sim…eles DEFENDERAM A BARBÁRIE TALIBÃ
    e arrogam-se a etiqueta de “progressistas”……

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  11. Aladdin Sane's avatar
    Aladdin Sane permalink
    4 Janeiro, 2013 12:52

    Não se pode clonar o Paulo Macedo?

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  12. vivendipt's avatar
    vivendipt permalink
    4 Janeiro, 2013 12:54

    Bom artigo!

    Veremos a evolução dos acontecimentos. Os camelos cá do burgo que não irritem muito a Alemanha pois é ano de eleições por lá…

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  13. Rogério's avatar
    4 Janeiro, 2013 13:20

    O título deste post é o estado em que o rabo socialista do Portela e do Piscoito estão…
    R.

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  14. lucklucky's avatar
    lucklucky permalink
    4 Janeiro, 2013 14:05

    O autor do Post também parece ser soci@lista.
    .
    Em que é que este Governo difere de Hollande do PSF ? Hollande diz – vamos a ver se é verdade- que 75% da eliminação do défice é impostos e 25% cortes.
    Ou seja 75% do Défice é convertido em mais Estado.
    .
    PSD+CDS fazem 80%+20%… 80% do Défice é convertido em mais Estado…

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  15. JP Ribeiro's avatar
    JP Ribeiro permalink
    4 Janeiro, 2013 14:27

    Concordo com o lucklucky, porque já mete nojo esta sabujice para com o socialismo e as politicas socialistas que estes mal-chamados “neoliberais” nos impõem. O Estado continua a ser o Alfa e o Ómega de toda a sociedade portuguesa. Venha um pouco de Liberalismo, mas não o liberalismo de cátedra do Alvaro, do Gaspar e do Passos, ANTES de se terem embrenhado no poder, ANTES de serem comprados pelo sistema. venha o liberalismo real: MENOS ESTADO, MELHOR ESTADO.
    Com a situação actual só se está a dar razão ao desavergonhado do Sócrates e seus acólitos que diziam não haver alternativa para o sistema de roubalheira organizada que promoveram. Que estupidez colectiva é esta que nos deu em que se considera normal pagar metade do que se ganha para se sustentar um aparelho de chulos? 23% de todos os gastos com as nossas compras para o bolso do Estado, é isto normal? Quase 50% dos ordenados para o bolso do Estado, é isto normal? Jovens de 30 anos há sete anos a receberem RSI, é isto normal? SNS pago pelos impostos e MAIS taxas moderadoras, é isto normal? Centenas de milhares de professores e centenas de milhares de analfabetos funcionais, é isto normal? Que merda é esta que nos atacou? É uma doença e chama-se socialismo.

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  16. anti-comuna's avatar
    anti-comuna permalink
    5 Janeiro, 2013 12:50

    “rui a . Mais um que está enfeudado ao Chefe e ao Partido. Mais um apparatchik. Fosca-se!”
    .
    .
    Só faltou acusarem o autor do artigo de ser um mero propagandista à moda dos famosos Abrantes. eheheheheh
    .
    .
    Ironoa do destino. Ai daquele que defenda o governo ou algumas coisas que eles façam ou deixem de fazer. ahahahahahah
    .
    .
    O tempo é o melhor mestre. Dá-nos cada ensaboadela. lol

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  17. Expatriado's avatar
    Expatriado permalink
    5 Janeiro, 2013 13:10

    A HERANÇA DE JOSÉ SÓCRATES:
    se somar tudo dá 140.997 milhões de euros
    .
    Vamos pensar que soma apenas 1.409€, é chato, quem é que ficou a arder?
    Vamos pensar que soma apenas 140.997€, é muito grave e os tribunais vão no seu encalce!
    Vamos pensar que são mesmo 140.997.000.000€, é a pior calamidade de sempre e nenhum organismo actuou, nenhum político atacou, e o autor continua a sua vida de ilustre estudante de filosofia em Paris, vem cá de vez em quando, evita expor-se, e dentro de 2 anos fará vida quase normal com os 350 milhões de euros em offshores (até agora apurado)
    Pagamos ? Ou não pagamos ?
    Claro que pagamos, para evitar maior sofrimento ao Povo Português.
    MAS EXIGIMOS QUE SEJAM CONFISCADOS E NACIONALIZADOS TODOS OS BENS RESULTANTES DE TODAS AS OPERAÇÕES IRREGULARES E QUE SEJAM ANULADOS TODOS OS COMPROMISSOS QUE DAS MESMAS RESULTARAM E QUE SEJA CRIADO O “MINISTÉRIO DA RECUPERAÇÃO DE ILÍCITOS”, SOB A TUTELA DE UMA TROICA TECNOCRATA NACIONAL!
    .
    .
    – Dívida Pública aumentou 90.000 milhões de euros entre 2005 e 2010.

    – Nacionalizou o BPN, com o contribuinte a pagar, aumentando o seu buraco em 4.300 milhões em 2 anos, e fornecendo ainda mais 4.000 milhões em avales da CGD que irão provavelmente aumentar a conta final para perto de 8.000 milhões, depois de ter garantido que não nos ia custar um euro.

    – Derrapagem de 695 milhões nas PPPs só em 2011.

    – Aumentou custo do Campus da Justiça de 52 para 235 milhões.

    – A CGD emprestou 300 milhões a um amigo do partido para comprar ações de um banco privado rival, que agora valem pouco mais que zero.

    – Injectou 450 milhões no BPP para pagar salários dos administradores.

    – Desbaratou 587 milhões do OE de 2011 em atrasos e erros de projeto nas SCUTs Norte.

    – Desapareceram 200 milhões de euros entre a proposta e o contrato da Autoestrada do Douro Interior.

    – Anulou e deixou prescrever 5.800 milhões em impostos.

    – Perdeu 7.200 milhões de fundos europeus pela incapacidade do governo de programar o seu uso.

    – Enterrou 360 milhões em empresas que prometeu extinguir.

    – Contratou 60.000 milhões em PPPs até 2040.

    – Usou Reformas para financiar a dívida de SCUTs e PPPs.

    – Deu de mão beijada 14.000 milhões aos concessionários das SCUTs na última renegociação.

    – Deixou agravar o passivo da Estradas de Portugal em 400 milhõesem 2009.

    – Deu 270 milhões às Fundações em apenas dois anos.

    – Pagou à EDP, em rendas excessivas, 3.900 milhões tirados à força da vossa fatura da eletricidade.

    – Deixou os sindicatos afundar as EPs em 30.000 milhões de passivo para os camaradas sindicalizados com salários chorudos e mordomias, pagos pelo contribuinte.

    – Aprovou um TGV que já nos custou 300 milhões só em papelada, e vai custar outro tanto em indemnizações

    – Mais todos os milhões enterrados no Aeroporto fantasma de Beja, totalmente inoperacional, inaugurado à pressa antes das eleições para fechar logo de seguida.
    .
    …Mas a memória colectiva é a de um país “envelhecido”, de gente nova, que não retém os factos do passado mais recente …!
    … e é pena! …
    …porque assim, todos os que construíram a realidade acima transcrita, ficarão para sempre impunes e a usufruir dos proventos que por ventura lhes couberam…

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