uma noite no recife
No dia da morte de Chavez, aproveito para recordar um episódio que me fez cruzar com ele lá para os idos de 2003, 2004, já não tenho a certeza exacta.
Estava eu a começar a jantar com um casal amigo numa churrascaria da praia da Boa-Viagem, no Recife, quando um ligeiro e breve sururu se fez sentir na sala. Procurei perceber o motivo e percebi que Hugo Cavez tinha entrado para jantar, acompanhado por uma reduzida comitiva de algumas pessoas, que não chegariam a uma dúzia, e um segurança de plantão, discretamente encostado a uma parede. Tinha tido, nesse dia, uma cimeira com Lula, a cimeira acabara e ele e os seus decidiram ir jantar a um bom restaurante, desprovidos do protocolo, sem as tradicionais honras de estado, despretensiosamente. Quem os visse mais pareciam um grupo de pernambucanos esfomeados, animados pela ideia de limparem uns quilos de picanha e alcatra, regados com umas caipirinhas geladas, o que certamente terão feito. Pensei, na altura, que uma cena destas seria impossível na Europa Ocidental, onde o protocolo de estado não deixa um segundo de privacidade a um governante de visita a um país estrangeiro. Isso reforçou a minha já então grande simpatia pelo tom despretensioso com que, na generalidade, os latino-americanos se tratam e convivem, mesmo nas relações mais formais.
Hoje, o homem morreu e deu, involuntariamente, a sua melhor lição de vida, aquela que só um homem poderoso pode dar a quem a quiser entender: o poder, todo o poder, mesmo o endeusado como foi o seu, é sempre precário e efémero. Ou, como se diz nas terras transmontanas, cheios de homens insubstituíveis estão os cemitérios.

Belo post, sereno, humaníssimo .
Como digno este retrato do CM :
http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/internacional/mundo/morreu-hugo-chavez
GostarGostar
“Eu
Sonho com gládios Sabendo que mais tempo do que eu
Durará a exploração em que tomo parte
Mais tempo do que eu a fome que me alimenta”
Heiner Müller, trad. Afonso L. Canibal
GostarGostar
MORTE DE TEATRO
[Heiner Müller – Adolfo Luxúria Canibal / Miguel Pedro]
“Teatro vazio. Em cena um actor
Que morre segundo as regras da sua arte
O punhal na nuca. O ardor retomado
Um último solo, para pedir os aplausos.
E nem uma mão. Num camarim vazio
Como o teatro, um fato esquecido.
A seda sussura o que o actor grita.
A seda tinge-se de vermelho, o fato torna-se pesado
Com o sangue do actor que na morte se derrama.
Sob o esplendor dos lustres, que faz empalidecer a cena
O fato esquecido bebe e esvazia as veias
Do moribundo, que não se assemelha mais do que a ele mesmo
Perdida a alegria e o terror da metamorfose
Seu sangue uma mancha de cor sem retorno”
GostarGostar
Interessante coincidência.
Concordo com Salino: Belíssimo post.
GostarGostar
O Rui A, autor deste post, foi o mesmo que escreveu o anterior?
GostarGostar
Portela -1, vê alguma contradição nos dois textos?
GostarGostar
Rui A,
sempre houve contradição entre discurso ideológico e narrativa humanista.
aproveito para divulgar esta informação, após 14 anos de “ditadura”; podíamos comparar com os últimos 14 anos de bloco central tuga …
GostarGostar
Calendario das greves dos transportes
.
http://hagreve.com/
GostarGostar
Essa ideia de que os sul-americanos são menos formais é falsíssima, parecem mas não são. E por uma razão bem simples, lá, em qualquer país das américas, cada macaco no seu galho, a mobilidade social é simplesmente impossível, por mais lulas e chavez que apareçam. Aliás estes são paus-mandados da clique de privilegiados que domina a universidade, a imprensa, a televisão.
GostarGostar
Esquerda caviar existe mesmo é na américa latrina e está no topo dos privilégios, a esquerda operária serve-a muito contentinha. É por isso que qualquer BSS faz furor no hemisfério sul: diz as barbaridades igualitárias que agradam aos que vivem na redoma do topo salarial, em condomínios fechados e em jipões de esquerda. Sei bem do que falo: é assim no México, na Argentina, no Brasil.
GostarGostar
Esta mania de endeusar ditadores de esquerda é um nojo.
O tipo estava muito mal de saúde. Mesmo assim candidatou-se a umas eleições, sabendo que com este desfecho provável traria nomes prejuízos ao pais e ao tal povo que dizia defender.
Foi de um egoísmo absoluto.
.
Ainda gostava de saber a diferença entre este, o Pinochet e o Kadafi (para lá das simpatias do ex. Ministro Pinho!)
GostarGostar
Gostei de ler o texto de Rui A.
GostarGostar
Paulo,
Posted 6 Março, 2013 at 08:47
Há de facto muita diferença. Não consta, eu pelo menos não conheço, que Chavez tenha assassinado ou mandado assassinar algum opositor, coisa que os Pinochets e Kadhafis desta vida foram peritos. Além disso Chavez foi eleito em eleições democráticas reconhecidas internacionalmente. Pode-se não gostar do estilo (eu não gosto, porque não gosto de militares com poder), mas a América Latina tem a sua história a transbordar de ditadores militares que chegaram ao poder através de golpes de estado e banhos de sangue. Não sei se o Chavez foi bom ou mau para a Venezuela, isso é uma discussão para os cromos da direita-esquerda, mas talvez o povo venezuelano possa responder a isso melhor do que nós que andamos aqui a aturar personagens bem mais execráveis que Hugo Chavez.
GostarGostar
1berto
Ai consta pois, até candidatos em plena campanha eleitoral a serem eliminados à bomba.
.
De resto concordo, a América latina é grande parte assim, e continua.
GostarGostar
Caro Paulo,
Se você não consegue ver diferenças, então ninguém lhe conseguirá ver as diferenças,.. enquanto não retirar os óculos que lhe turvam a realidade.
Mesmo que 1berto lhe explique como deve ser, não compreenderá. É tempo perdido.
GostarGostar
Fincapé
Pois o problema dos óculos também é real, até há quem chame democracia à monarquia absolutista de Cuba!
GostarGostar
“… até há quem chame democracia à monarquia absolutista de Cuba!” Pois há, Paulo.
Mas não sou eu, pois não?
GostarGostar