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Post fofinho

5 Dezembro, 2013

makeshift-housing-in-phillipines-1Portugal era um país de pessoas rudes, broncas, incultas, até desagradáveis. Não se lavavam e as longas unhas, usadas para descascar limões, permitiam antever a degradação do fétido esgoto a que chamavam lar. A educação era uma desgraça, ninguém sabia ler e, consequentemente, não havia qualquer médico ou endireita que resolvesse maleitas. A única cura para o pé-de-atleta consistia na esfrega de meia bravo de esmolfe na área atingida e duas dúzias de ovos entregues ao senhor cura. As pessoas duravam 20 (talvez 22) anos antes de serem consumidas pelo escorbuto, nos raros casos em que sobreviviam à sífilis da infância. Não havia nada, era a degradação total do jugo opressor e inópia atrípede da falta de sapatos. Os professores davam aulas em galinheiros e as duas crianças que completavam a escolaridade obrigatória só sabiam nomes de rios e duas vogais. A mulher, oprimida, mal paria cavava o árido solo de onde desabrochavam meras arbúteas, maná para o aquecimento das famílias de dúzias após a tripla destilação. Todos eram alcóolicos e nem um restaurante havia no Bairro Alto. Era assim em 2004.

1631 1632 Nicolas Poussin Apollon et les Muses Detail Les cherubins-1Eis que chega o engenheiro Sócrates e a penumbra alumiou-se em candor ofuscante de fulgor rutilante. As unhas cortaram-se, as palhotas viraram moradias e criaram-se vias de comunicação nunca vistas no mundo ocidental. A economia floresceu e agigantou-se a riqueza, outrora privilégio de barões latifundiários. Professores manifestaram-se na maior manif de sempre, exigindo avaliação, a ansiada separação de trigo do joio para o bem comum de alunos e dignificação da classe operária. Criaram-se sindicatos e 150.000 empregos de uma assentada, geradores de plena realização dos trabalhadores; estes, justamente remunerados, passaram a receber pela felicidade gerada em oposição aos critérios mercantilistas e obscurantistas da folha de Excel com erros. Abriram-se faculdades de medicina e os investigadores portugueses descobriam a cura para a esclerose múltipla enquanto engenheiros e jornalistas inventavam a internet. A mulher passou a ser considerada pessoa humana e foi-lhe atribuído direito de participação na justa redistribuição de riqueza, pleno direito de voto e de insurreição insuspeita contra angolanos capitalistas. As pessoas recitavam poesia na rua, sob a sombra de azinheiras na Primavera de Maio; em cada esquina um amigo. Sem poluição todos viviam felizes – sublinhando em “vivam” – com pingue reforma aos 33, como Cristo sem os crucifixos opressores; e, deslocando-se nos carros eléctricos, a preço simbólico, com CPUs produzidos no centro tecnológico de Paredes, a sociedade era perfeita. Por cada cêntimo entregue à Infineon geraram-se milhões de multiplicadores gerando triliões de riqueza e uma espiral expansiva de emprego. As crianças tocavam a lira enquanto os pais escreviam nos blogues sobre filosofia e humanismo histórico, dissecando sobre a fortuna e a inveja dos idiotas chapados da era das trevas. Imigrantes chegavam ao oásis partilhando conhecimento de civilizações ultrapassadas entre o deslumbre das oportunidades que o progresso permitia. Debatíamos mas concordávamos, éramos unos; de Fafe a Olhão, de Vila do Bispo a Alfândega da Fé, éramos intocáveis. Éramos portugueses, éramos europeus, éramos modernos, éramos. Educados, corteses, justos, humildes… Éramos democratas.

Em 2011 tudo acabou quando o povo se enganou a votar e escolheu um bando de traidores neoliberais cuja única vocação é a destruição de 6 anos de prosperidade. Com as políticas de austeridade conseguiram, em menos de 3 anos, destruir 2788 anos de história do país.

Em 2014 viveremos muito pior que no primeiro parágrafo, isto se o governo não for travado a tempo no seu plano de nos contagiar com lepra.

28 comentários leave one →
  1. zeca marreca de braga's avatar
    zeca marreca de braga permalink
    5 Dezembro, 2013 07:53

    “Portugal era um país de pessoas rudes, broncas, incultas, até desagradáveis.”

    “A educação era uma desgraça, ninguém sabia ler e, consequentemente, não havia qualquer médico ou endireita que resolvesse maleitas.”

    Era assim em 1973.

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    • Realista's avatar
      Realista permalink
      5 Dezembro, 2013 13:15

      Claro que sim.

      Analfabetismo em Portugal
      1900 – 73%
      1911 – 69%
      1920 – 65%
      1930 – 60%
      1940 – 52%
      1950 – 42%
      1960 – 33%
      1970 – 26%
      1981 – 21%
      1991 – 11%
      2001 – 9%

      Fontes: António Candeias et al., Alfabetização e Escola em Portugal nos Séculos XIX e XX. Os Censos e as Estatísticas, Fund. C. Gulbenkian, 2007.

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      • fado alexandrino's avatar
        5 Dezembro, 2013 22:21

        Como é que conseguem sempre selecionar esse 9% para aqueles concursos de perguntas e respostas da RTP?

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    • Pinto's avatar
      Pinto permalink
      5 Dezembro, 2013 14:19

      Claro que se tivesse conhecimento, capacidade de raciocínio e não engolisse esses lugares-comuns, essas frases-feitas, essa propagandinha pechisbeque, perceberia que nos pós 25 de Abril não se fez mais nem menos que nos 40 anos antecedentes (a bem dizer fez-se menos)

      Analfabetismo em Portugal:

      1900: 73%
      1911: 69% (-4%)
      1920: 65% (-4%)
      1930: 60% (-5%)
      1940: 52% (-8%)
      1950: 42% (-10%)
      1960: 33% (-9%)
      1970: 26% (-7%)
      1981: 21% (-5%)
      1991: 11% (-10%)
      2001: 9% (-2%)

      A ignorância é terreno fértil para a propaganda ideológica.

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      • Surprese's avatar
        Surprese permalink
        5 Dezembro, 2013 18:18

        Depois do 25 de abril os analfabetos deixaram de emigrar.

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      • ora's avatar
        ora permalink
        5 Dezembro, 2013 19:52

        mas nem por isso deixaram de morrer 25% dos analfabetos da minha família morreram em 1975 e 78 os outros 75% matou-os o SNS entre 1981 e 89

        só restam alfabetizados pelo estado novo e pela 1ª república

        ah e por este estado mais que novo

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      • zeca marreca de braga's avatar
        zeca marreca de braga permalink
        5 Dezembro, 2013 23:00

        “e tivesse conhecimento, capacidade de raciocínio e não engolisse esses lugares-comuns, essas frases-feitas, essa propagandinha pechisbeque, perceberia que nos pós 25 de Abril não se fez mais nem menos que nos 40 anos antecedentes (a bem dizer fez-se menos)”

        Só pode estar a brincar…

        “A ignorância é terreno fértil para a propaganda ideológica.”
        QED

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      • Mario Braga's avatar
        5 Dezembro, 2013 23:09

        olha que não olha que não

        a educação continua a mesma

        de resto é um probrema mondialle

        Cadillac Desert, by Marc Reisner, is a 1986 book published by Viking (ISBN 0-14-017824-4) about land development and water policy in the western United States. Subtitled The American West and its Disappearing Water, it gives the history of the Bureau of Reclamation and U.S. Army Corps of Engineers, and their struggle to remake the American West. The book’s main conclusion is that development-driven policies, formed when settling the West was the country’s main concern, are having serious long-term negative effects on the environment and water quantity. The book was revised and updated in 1993.

        A four-part television documentary based on the revised book was produced by KTEH-TV, the PBS affiliate in San Jose, California, in 1996. The parts are entitled Mulholland’s Dream, An American Nile, The Mercy of Nature, and The Last Oasis.

        Topics discussed[edit]

        John Wesley Powell
        Powell Geographic Expedition of 1869
        Rain follows the plow
        William Mulholland
        Owens Valley
        California Water Wars
        NAWAPA
        Hoover Dam
        Grand Coulee Dam
        Los Angeles Department of Water and Power
        Central Arizona Project
        Floyd Dominy
        Teton Dam
        St. Francis Dam

        em 40 anos de democracia daqui a 5 meses…continuamos a ter analfabetos com menos de 46 anos

        e analfabetos funcionaes com menos de 33

        e obviamente racismo e neocolonialismo

        basta ver o discurso do joão soares….

        ou mesmo ouvi-lo se bem que isso segundo socrates seja tortura democrática

        peor que os discursos do caetano

        e mesmo do que os do cabeça de abóbora

        travanca? é já aqui ao lado….

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      • Pinto's avatar
        Pinto permalink
        6 Dezembro, 2013 09:06

        Surprese em 5 Dezembro, 2013 às 18:18
        Depois do 25 de abril os analfabetos deixaram de emigrar

        Não sei se reparou trata-se de uma percentagem. Tenha o país mais ou menos população a percentagem é a mesma

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    • Joaquim C. Tapadinhas's avatar
      Joaquim C. Tapadinhas permalink
      5 Dezembro, 2013 20:59

      Antes do 25 de Abril Portugal era um país das cavernas. Calculem que D. Afonso Henriques, mesmo sendo rei, era analfabeto, e utilizava archotes para a iluminação, em lugar de acender a luz eléctrica. Também utilizava toros de lenha para aquecer o casarão, porque era avaro, e nunca comprou um aquecedor eléctrico ou um aparelho de ar condicionado.
      A ciência, que contribui para o progresso social, não tem assim tanto a ver com o sistema governativo e desenvolve-se quando há estruturas de apoio, sejam em repúblicas ou monarquias. Não houve um corte na economia portuguesa entre o 24 e o 25 de Abril. É preciso ser intelectualmente honesto na apreciação do progresso social e não criar separações obtusas entre os diversos momentos da história. Naturalmente que muitas existem, mas têm de ser analisadas com a lucidez necessária para não embotar os raciocínios.

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    • zeca marreca de braga's avatar
      zeca marreca de braga permalink
      5 Dezembro, 2013 22:53

      Em 1974 Portugal era o país com maior taxa de analfabetos, sub-escolarizados e simples idiotas da Europa. Hoje também, mas está um pouco melhor. Se calhar é genético!

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      • Pinto's avatar
        Pinto permalink
        6 Dezembro, 2013 09:10

        Se fizer o mesmo raciocínio comparativo entre o Estado Novo e a 1 República vai chegar à mesma conclusão, ou seja, que esta última era pior

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  2. fado alexandrino's avatar
    5 Dezembro, 2013 08:19

    Não foi só ao senhor delegado de propaganda médica Sócrates que se deveu todo esse progresso. Quem é que pode esquecer Louça e Carvalho da Silva e Alegre e Jerónimo de Sousa e Heloísa e tantos outros que a serem justamente citados aqui não cabiam.
    E o Maior deles todos o Pai da Pátria Mário “Guerreiro” Soares.
    Nunca os esqueceremos.

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  3. joão viegas's avatar
    joão viegas permalink
    5 Dezembro, 2013 08:38

    Este também esta com piada. Bem visto.

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  4. André's avatar
    André permalink
    5 Dezembro, 2013 09:42

    Só se enganou numas pequenas coisinhas. Em 2004 o país era mau (não como o quer pintar, mas era mau, o primeiro-ministro até já tinha fugido deixando o cargo a um emplastro, o Santana Lopes). Em 2005 e anos subsequentes, o país continuava mau, mas o primeiro-ministro tinha uma grande lata e até estava a reduzir o défice, ou seja, para os adeptos das contas públicas, os problemas até estavam a ser resolvidos (claro que nessa altura os adeptos das contas públicas estavam no PS). Havia, em constante aumento, um problema de corrupção dentro do Estado português, obras adjudicadas a amigos sem se saber muito bem como e porquê, grandes investimentos que resultavam em nada (como o TGV), ou eram concretizados, resultando em nada mais tarde (como o aeroporto de Beja). Enfim, o país estava mal, mas como havia dinheiro ninguém (incluindo o próprio PSD) se preocupava com isso. De facto, Manuela Ferreira Leite (ela foi líder de que partido?) até queria que o Estado fizesse mais investimentos e colocasse mais dinheiro na economia (ademais, como o primeiro-ministro em 2004 estava a fazer, aumentando o défice).
    Depois veio a crise. Não foi em 2011, foi em 2008. Rebentou na América, mas Portugal e a Grécia é que tinham problemas. Parece que os gregos ocultaram as contas. Parece que uns quantos bancos tinham lá muito dinheiro perdido. Parece que aquilo deu bronca. Em Portugal também houve uns bancos sem dinheiro, lembro-me agora de um, o BPN (que até era controlado por uns tipos do PSD, veja-se a coincidência). O Estado meteu lá dinheiro para salvar o banco e o Estado faliu.
    Em 2011 o Estado pediu um empréstimo e o primeiro-ministro que tinha uma grande lata pediu ajuda ao primeiro-ministro que tinha fugido, entre outras pessoas. Desde então temos sido governados (mais ou menos) por um bando de utópicos. Utópicos de direita, mas utópicos. O país conseguiu piorar. Parece que agora se nota que afinal nunca evoluímos, que PS e PSD são a mesmíssima coisa e que enquanto os portugueses forem burros ao ponto de votar para os tirar dos problemas em quem provocou esses problemas, o país há de continuar a estar mal. Esperemos é que nunca fique tão mal como aquilo que o Vitor, muito ironicamente, escreveu.

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    • Euro2cent's avatar
      Euro2cent permalink
      5 Dezembro, 2013 22:44

      > primeiro-ministro até já tinha fugido deixando o cargo a um emplastro, o Santana Lopes

      Que se pôs a tentar fazer funcionar o mercado de arrendamento, e foi prontamente despejado pelo presidente Sampaio, porque com os lucros da banca na venda de imobiliário ninguém brinca.

      Ou brincava, até a coisa dar o inevitável berro quando há 3.14 habitações por cabeça.

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  5. 1berto's avatar
    1berto permalink
    5 Dezembro, 2013 10:22

    Finalmente você consegue ter alguma piada. Mas não vale a pena tanto esforço para justificar o esbulho dos seus comparsas. A gente já sabe que tem de ser assim porque os anteriores é que lixaram esta merda. E os anteriores dos anteriores. E por aí fora até ao big-bang. Amanhã o futuro reserva-nos um paraíso utópico de abelhinhas amestradas em fila para o banco alimentar mas com as contas muito certinhas e direitinhas. O castigo pela devassa é muito democrático, espalha-se pela maioria, evita as minorias, especialmente de élite muito liberal, conservadora, empreendedora e tal, que o tempo não está para preguiçosos. Vítor, já bateu o punho hoje?

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  6. josegcmonteiro's avatar
    5 Dezembro, 2013 10:35

    Somos uns atrasos de vida, mas nem tanto!
    Aprendi a ler, numa pequena aldeia serrana, com uma Regente Escolar, apenas tinha a 4ª classe! Foi uma boa e eficiente professora.
    Somos incultos mas finos!…

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  7. A.Silva's avatar
    A.Silva permalink
    5 Dezembro, 2013 10:42

    Era um país tão miserável que mais grave que tudo, produziu uma série de idiotas como o tipo que escreveu este post.

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  8. gastão's avatar
  9. Fernanda's avatar
    Fernanda permalink
    5 Dezembro, 2013 13:31

    Em 2014 vamos ao mercado.

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  10. J. Madeira's avatar
    J. Madeira permalink
    5 Dezembro, 2013 14:15

    Um “post” à medida do a. gonçalves o sociólogo que borra
    a penúltima página do DN aos domingos!
    Porque será que o autor não se inclui na “pintura” que faz?

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  11. Trinta e três's avatar
    Trinta e três permalink
    5 Dezembro, 2013 15:30

    Tal como a situação foi apresentada, parece que o vitorcunha quer polemizar com o… vitorcunha.

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  12. José Martins's avatar
    5 Dezembro, 2013 16:28

    Post idiota, miserável mesmo!

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  13. Fincapé's avatar
    Fincapé permalink
    5 Dezembro, 2013 19:47

    “A única cura para o pé-de-atleta consistia na esfrega de meia bravo de esmolfe na área atingida e duas dúzias de ovos entregues ao senhor cura.”
    Estamos a ver, Vítor, que a ida a Vila de Perdizes uma vez por ano tem a sua utilidade.

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    • ora's avatar
      ora permalink
      5 Dezembro, 2013 20:06

      vilar de perdizes….vilar num é vila ó vilão estes gambas devias ver a obra de
      MESTRE SIMÃO GOMES o SAPATEIRO SANTO

      Simão Gomes foi outra maravilha na falsa prophecia, que também se tornou notável em Portugal no século xvj.
      Dizem os seus biographos ser a sua intelligencia menos fecunda e menos brilhante
      que a do Bandarra; mas que em compensação era dotado de mais
      sublime virtude em tudo que dizia respeito a coisas da santa madre egreja.

      Alguns menos crentes nas predicas jesuiticas chamavam-lhe
      idiota…do grego idiotes o que não toma parte na cousa pública e passa a mão pelas partes privadas do ensino

      Nasceu este famoso prodigio no logar do Marmeleiro, próximo de Thomar, oriundo de uma familia pobre e sem prosápia,que o creou á mercê de Deus. Quando ainda menino, o diabo embirrou com elle, apparecendo-lhe na figura de um homem negro
      com tregeitos de o arremetter; mas recorrendo elle logo á Cunha da
      Mãe de Deus, veiu uma cruz antepôr-se ao demónio, que ainda
      assim lhe fez muitas caretas e esgares até se sumir de todo.
      Simão apprendeu o officio de sapateiro com seu pae até aos treze annos,
      em que foi para Setúbal terra do deserto a sul de Lisboa cheia de areia nas praias ao serviço do duque de Aveiro, e alli começou a manifestar as suas tendências propheticas. Repugnando á sua modéstia beatifica os regalos palacianos voltou a exercer o officio de sapateiro, e dois annos depois foi em peregrinação correr terras de Hespanha, vindo mais tarde assentar a sua tripeça na cidade de Évora; sempre muito devoto dos exercicios espirituaes, mortificando o corpo com jejuns continuos e cilicios para estimulo
      da alma.

      Apesar de tanto querer ao divino mestre Simão parece não ter sido indifferente aos prazeres contrários á castidade, e as fraquezas do coração e da carne levaram-n’o a contrahir o sagrado matrimonio na mesma cidade de Évora, terra de padres e santos, com cunhas em todos os lados e cabrões em todos os cantos, resumindo uma terra normal de Portucale

      Diz o jesuita Manuel da Veiga, que tanto o quiz encapotar na santidade, que elle não vira antes a mulher (?), mas que esta lhe sahira de faca e calhau «… muy forte de condição ordenando Nosso Senhor assim esta parelha tão encontrada, pêra que elle tivesse sempre consiguo huma pesada cruz que levasse ás costas
      para seu mayor merecimento; e ella tivesse ante seus olhos hum
      espelho de virtudes, exemplo de paciência, com que por huma
      parte se confundisse e por outra o incitasse».

      O tirocínio marital foi por certo uma das maiores provas de santidade do pobre sapateiro. A fama da sua vida exemplar e attribulada não tardou a propalar-se, e o cardeal-infante, que era um grande mariconço e logo justo apreciador de virtuosos, convidou-o a mudar a sua residência para Lisboa. Simão Gomes acceitou o convite aconselhado pelo
      jesuita seu confessor, e veiu estabelecer-se na rua Larga de S.
      Roque, defronte do postigo da Trindade, nas visinhanças do collegio privado da companhia de Jesus.

      Na nova locanda continuou caritativamente a remendar o calçado da raia meuda, apesar do aristocrático pergaminho onde estava inscripto o honroso titulo, com que havia sido agraciado pelo cardeal D. Henrique, de enfermeiro de seus creados.

      O homem era mal geitoso na cura dos achaques, e os servos de sua alteza preferiam ás suas mesinhas aproveitar-lhe o valimento para as mercês que requeriam. Por este motivo mestre Gomes considerou-se despeitado, e pediu escusa dos encargos médicos; mas o infante compensou-o largamente, nomeando-o seu escudeiro com
      moradia e sapateiro de sua pessoa!

      Hoje ninguém admiraria tão nobres titulos em um membro
      da classe tão prestimosa; mas na epocha em que os pergaminhos
      nobiliários eram indicativos do mais subido valor individual, causou assombro a jerarchia de mestre Simão, que, sendo de condição humilde, despresou este e outros elevados cargos, que lhes foram oíferecidos no governo do estado, e continuou exercendo o
      modesto oflicio que havia tido seu pae.

      Tanta abnegação exaltava-o, augmentando-lhe a fama de santidade e o valimento na corte. Personagens do mais alto cothurno o visitavam na sua miserável officina: el-rei D. Sebastião, o cardeal D. Henrique, o infante D. Luiz, Martim Gonçalves da Ga-
      mara, marquez de Villa-Real, D. Luiz Goutinho, dr. Diogo de
      Paiva, os duques D. Álvaro e D. João, etc, etc.

      Por ordem de el-rei D. Sebastião tomou parte no conselho de
      estado, que se reuniu em Almeirim, onde desenvolveu tão atilados
      alvitres com visos propheticos, que foram logo postos em pratica
      com grandes vantagens; e por sua influencia concedeu o mesmo soberano ao logar de Punhete o titulo de villa, com todos os privilégios inherentes a tal foro. Tem sido de negra ingratidão que os habitantes da hoje Villa Nova de Constança ainda se não lembrassem de levantar um pequeno monumento sacro ou profano a quem
      tanto devem.

      Com fama de santidade morreu, de pedra na bexiga, aos 6o
      annos de edade, o pobre Simão Gomes, a 18 de outubro de iSyó,
      quando se festeja S. Lucas Evangelista. . . Dizem que na occasião
      do seu passamento se vira sahir peia porta, janella e telhado um
      admirável resplendor. . . O seu corpo foi sepultado na egreja de
      S. Roque, junto á grade do cruzeiro, adeante do altar da Virgem.

      O padre Manuel da Veiga, da Companhia de Jesus, natural
      de Villa Viçosa, escreveu o Tratado da vida, virtudes e douínna
      admirável de Simão Gomes, porlugue^, vulgarmente chamado o
      sapateiro santo. O livro teve tanta extracção que se fizeram quatro
      edições, correspondentes aos annos de 1625, 1678, 1723 e 1759.

      O mesmo padre Veiga, que fez a sua apologia, diz ser mestre
      Simão analphabeto. . . embora, pelos discursos que fazia nas ma-
      térias divinas, os mais doutos theologos o consideravam lettrado
      natural, por Deus lhe haver concedido a sciencia infusa.}

      Da sciencia infusa do sapateiro remendão, que servia para
      especular com estúpidos fanáticos, houve muitos que o conheceram
      e que não ficaram convencidos. Os jesuítas, por conveniência pró-
      pria, apresentavam-n’o como um tropheu da omnipotência divina,
      como um argumento efficaz da sua infinita bondade, e um famoso
      pregoeiro da sua gloria. . . e não se contentando com a certeza do

      * Tratado da vida e costumes….das perdizes

      pobre de espirito, ao largar este mundo de peccadores, ir gosar a
      bemaventurança celeste, tentaram canonisal-o sem as respectivas
      bulias e com quebra do direito espiritual. As praxes canónicas não
      toleram nem devem tolerar taes abusos … A César o que é de Cé-
      sar e a Deus o que é de Deus. Os titulos divinos de santo e de
      beato com que a egreja galardoa os que pelas suas muitas virtudes
      e resas se sacrificam na propagação da fé até a perder a vida no
      martyrio, para se conferirem no sacro collegio, teem de passar por
      complicados processos.

      A inquisição deixou viver pacificamente o bom Simão Gomes,
      e respeitou a sua memoria beatifica; mas a real Mesa Censória,
      depois do seu venerável corpo estar reduzido a cinzas, talvez por
      embirração com os jesuítas, em lo de junho de 17Ò8, condem –
      nou o livro Ty^ atado da vida, virtude e doutrina do admirável Si-
      mão Gomes, portugue^, vulgarmente chamado sapateiro santo,
      como também a Carta apologética do P.^ António Vieira ao je-
      suita Jacome Iqua^asigo; a Restauração de Portugal prodigiosa ;
      o Jardim ameno, onde estavam todas as prophecias dos sebastia-
      nistas, inclusive as trovas do Bandarra; e o Eco das vo^es saudo-
      sas. Todas estas obras foram consideradas falsas, temerárias, sedi-
      ciosas, e infames; ordenando o dito edital que ninguém conser-
      vasse esses escriptos, debaixo das mesmas penas estabelecidas
      contra os perturbadores do publico socego, e contra os que at-
      tentassem contra a jurisdicção e respeito dos tribunaes supremos
      d’este reino.»

      O edital mandava por ultimo queimar pela mão do executor
      de alta justiça todos estes escriptos; o que se cumpriu quatro dias
      depois na Praça do Commercio, pondo-se assim uma barreira a
      novas edições e tornando os exemplares que escaparam mais raros
      e apreciados.

      FIM

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  14. @!@'s avatar
    @!@ permalink
    5 Dezembro, 2013 20:22

    Até 2004 era tudo privado????

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