Foi exactamente para isto que fizemos o 25 de Abril
Há uma frase que me irrita especialmente. É ela: “não foi para isto que fizemos o 25 de Abril”. É uma espécie de muleta a que recorrem com frequência alguns militares de Abril, como se tivessem uma espécie de direito eterno sobre o destino de Portugal.
Essa frase ainda de novo a propósito do 40º aniversário do golpe de Estado e da chantagem que alguns militares estão a fazer sobre a Assembleia da República. Aparentemente entendem que só eles sabem o que é o espírito do 25 de Abril e só eles deveriam ter a honra de dizer de sua justiça nas comemorações oficiais. Convidados a estarem presentes – depois de dois anos de ostensiva ausência -, anunciam que não querem ser “a jarrinha na mesa” e que só irão se falarem no mesmo palco onde discursarão os representantes do povo português – os partidos políticos, a presidente da Assembleia e o Presidente da República.
No fundo estes militares não entendem nem o que fizeram a 25 de Abril nem o que se espera de quem é militar. A 25 de Abril, julgamos nós, acabou-se com uma ditadura, permitindo que a partir daí o povo escolhesse os seus representantes e, através deles, escolhesse o rumo que entendia querer dar ao país. Assim tem sucedido desde então e, por mais defeitos que encontremos no nosso país, não podemos dizer que alguma vez tenha existido batota eleitoral ou que outros que não os que tiveram mais votos nos tenham governado. Alguns dos militares de Abril não gostam da actual maioria? Estão no seu direito e nem lhes tolhe a palavra. Não podem é reivindicar ocupar o palco que há décadas está reservado para os representantes do povo. Há muitos outros palcos, que os ocupem (como, de resto, têm feito). Agora quando se acham no direito de exigir tomar a palavra esquecem que o dever dos militares, mesmo dos que nos deram a liberdade, é de realizarem a sua missão e, depois, regressarem a casa – ou aos seus quartéis. Foi o que fez, com a humildade e a honra próprias de quem tinha cumprido o seu dever, Salgueiro Maia.
Querem fazer política? Sujeitem-se ao voto dos portugueses. No passado alguns militares o fizerem – Martins Júnior, pelo PS, Mário Tomé, pela UDP, e Sanches Osório, pelo CDS. Curiosamente só Marques Júnior – para além de Ramalho Eanes, este na condição de Presidente eleito – discursou num 25 de Abril, no 35º aniversário, em 2009. Militares que não dão mostras de querer sair de cena e que, sem pudor, passam a vida a ameaçar com outra revolução são militares que não honram nem o 25 de Abril nem as Forças Armadas. Ponto final, parágrafo.
Não fosse esta chantagem – e a promessa de que utilizariam a sessão solene para fazerem política conjuntural – e talvez fosse imaginável convidar um desses militares para dizer umas palavras na sessão solene. Porventura o mais representativo de todos, porque em tempos eleito por todos: Ramalho Eanes. Alguém que, creio, aceitará o convite para estar presente sem colocar qualquer condição.
É por isso tudo que os deputados que não aceitam a chantagem desse grupo de militares não estão a “vetar” nada, ao contrário do que alguns jornais titulam. Estão antes e apenas a defender as instituições democráticas saídas do 25 de Abril.

“Não iremos se não formos convidados para usar da palavra. Queremos usar da palavra de pleno direito com usam os deputados e o Presidente”, diz ao i Vasco Lourenço.
Acima se demonstra a posição em que se colocam, querem estar de pleno direito como deputados e Presidente, uns porque eleitos os outros porque sim, assim se assume o poder perpétuo. Numa próxima fase talvez mesmo recuperar um conselho de revolução com poder de veto.
E depois de Abril?
Vem Maio, citando a sabedoria de alguém com 6 anos.
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Lindo!
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todo o lixo humano pensa ser dono do rectângulo
mesmo com 3 nbancarrotas
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muito bem dito, é isso mesmo
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Excelente artigo! Explica com clareza porque os “militares da Abril” podem ter feito uma coisa maravilhosa, podem merecer a gratidão de todos nós, mas não se podem equiparar a deputados nem ao PR pela simples razão de que não foram eleitos pelo povo. Há pouco, quando ouvia as palavras de Vasco Lourenço, alguém disse a meu lado: “Mas eu nunca votei neste tipo, nem eu nem ninguém!” É dizer resumidamente o mesmo que JMF.
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Tenho tanto de agradecer aos militares o 25 de Abril como 40 anos de ditadura, ou seja zero.
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O 25 de Abril, este ano, calha numa sexta-feira.
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Nem mais, nem menos. É exactamente assim que se resume a importância actual do 25/4.
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A Esquerda vive hoje em dia dificuldades em Portugal e por todo o Mundo, porque a sua ação esgotou-se.
Para certos indivíduos básicos que comentam aqui no Mais Évora, isto não lhes entra na cabeça, mas vai-lhes entrando todos os dias em casa.
Estranham a evolução da vida porque não a compreendem, mas vão acabar por entranhá-la.
Os sinais da falência da Esquerda estão por todo o lado. Campos abandonados, absentismo ao trabalho, serviços do Estado e autarquias locais superlotados de pessoas que pouco fazem, mas que adquiriram vários Direitos e Regalias.
Ora bem, a evolução para este estado de coisas, desenvolveu-se principalmente após a 2ª Guerra Mundial nos países ocidentais e após o 25 de Abril de 1974 em Portugal. Foi um fartar de Direitos esquecendo(os políticos de Esquerda e não só) os deveres.
Deu nisto. Hoje,se repararmos bem, a burguesia que a Esquerda dizia combater há 50 anos, é a própria Esquerda. A Esquerda ganhou tantos Direitos que arruinou a Direita, passando ela a ser aquilo que dizia combater, ao ponto de se tornar complicado definir quem é de Direita e quem é de Esquerda.
A Esquerda portuguesa continua com o mesmo discurso de sempre e é triste ver aqueles jovens do BE, PCP e PS a repetir o que os pais diziam dantes, num Mundo que está em mudança, em evolução, e que eles sendo jovens fazem um papel de velhos conservadores a usar as mesmas palavras de ordem e chavões completamente fora de contesto.
Apesar desta mudança, a Esquerda lá vai conseguindo votos para se aguentar agarrada aos tachos, porque, naturalmente grande parte das pessoas ainda não se apercebeu da mudança que se vai operando, mudança essa que vai trazer um novo paradigma de sociedade em que vai valer a pena outra vez cultivar os campos, aumentar a rentabilidade do trabalho e garantir um futuro melhor para as novas gerações em resultado de mais trabalho e mais responsabilidade de todos os cidadãos.
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entretanto Ramalho Eanes acaba de “responder” a JMF:
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http://sol.sapo.pt/inicio/Politica/Interior.aspx?content_id=103251
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Nasci em 1951, e passei os primeiros 23 anos da minha vida à espera do 25 de Abril. O anterior regime caíu da maneira que costumam cair os regimes em Portugal: de podre e sem violência. De madrugada a tropa saíu para a rua, e às quatro ou cinco da tarde estava tudo resolvido, práticamente sem se ter disparado um tiro. À portuguesa.
Infelizmente não vivi o 25 de Abril aqui em Portugal porque estava em Angola na tropa, de onde só regressei em em meados de 1975.
O MFA que tomou as rédeas do poder, assumiu nessa noite através da JSN composta por sete oficiais superiores dos três ramos das Forças Armadas, prometeu aos portugueses os célebres três Ds: Democratização do país, Desenvolvimento do país, e a Descolonização do Ultramar Português.
Não vou aqui fazer considerações sobre o papel da grande maioria dos oficiais do quadro na guerra do Ultramar, e acho que os portugueses nunca poderão esquecer que os oficiais que fizeram o 25 de Abril puseram em causa o seu futuro e o futuro das suas famílias, e por isso lhes devem estar gratos.
Mas é um facto que o MFA se deixou capturar pelos comunistas que entre o 1º de maio e 13 de Dezembro de 1974, tomaram completamente conta do país: prenderam os principais empresários do país, destruindo através dos sindicatos da Inter a maior parte da empresas que depois foram nacionalizadas em março de 1975 juntamente com os bancos e com os seguros, fizeram a célebre reforma agrária, que destruiu práticamente a agricultura no Alentejo, e fizeram a descolonização que mais interessava à União Soviética. E só aconteceram as eleições para a Constituinte, depois de o MFA amarrar os partidos politicos ao célebre pacto MFA/Partidos em principios de Abril de 1975 que condicionou fortemente a acção dos partidos politicos, e que foi “aperfeiçoado” em Fevereiro de 1976 com o II Pacto, quando a Constituição já estava práticamente pronta.
No meio disto tudo, os militares do MFA formaram um verdadeiro Directório Politico a que chamaram Conselho da Revolução que não foi eleito por ninguém, mas ficou consagrado na Constituição de 1976, e que condicionou toda a vida politica até à revisão constitucional de 1982, provocando enormìssimos prejuízos a Portugal e aos portugueses.
Depois da nacionalização da economia em Março de 1975, e da entrega das colónias à órbita dos comunistas soviéticos, então os “militares moderados” resolveram que já chegava, o “trabalho” estava feito, os americanos viam com maus olhos uma “nova Cuba” no Sul da Europa, e então os chamados moderados do MFA liderados por Melo Antunes, que era conhecido por ser o militar mais politico do MFA, publicaram o célebre Documento dos Nove em Agosto de 1975 e que defendia em traços largos e em contra-ponto com os militares da aliança PCP/MFA a que os comunistas chamavam Povo/MFA, a Democracia Representativa tipo Europa Ocidental, rejeitando as doutrinas totalitárias do Leste Europeu. Entretanto aconteceu a defenestração do Vasco Gonçalves e do V Governo de má memória, e o 25 de Novembro que afastou (mas não muito) os comunistas da área do poder.
Isto já vai longo, e para concluir: penso que devemos estar gratos aos militares por terem feito o 25 de Abril; mas também penso que não podemos ficar calados perante o que se passou a seguir, e os “militares de Abril” também devem ser julgados por isso. Pelos Portugueses, óbviamente.
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Na noite de 24 para 25 de Abril os militares estavam essencialmente preocupados com os problemas deles. O resto começou aí pelo meio da manhã quando o bom povo de lisboa já enchia as ruas, como em 1385 e 1640, por motivos diversos. Essa parte não estava no script, mas aconteceu. O resto é história. O Vasco Lourenço anda a sonhar.
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Tem razão, Duarte. Convém não esquecer que a maioria esmagadora dos militares aderiu ao golpe do 25 de Abril, apenas por razões corporativas, ou seja, para tentarem resolver os problemas que os afligiam. Esquecer isto, é viciar grosseiramente a história.
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Hear, hear.
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O direito de falar na AR como os que foram eleitos, creio que não existe.
Mas que pode ser convidado a falar quem eleito não foi, creio ser possível.
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Espirito ou fantasma?
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Enquanto os “donos do 25 de Abril” não arrumarem as botas, não vamos a lado nenhum!
Vivemos num País em que muitos passam fome, para que meia dúzia deles encham a barriga à custa do 25 de Abril…
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O 25 de Abril foi o fim do império, o regresso ao nosso rectangulo a quem nunca soubemos tirar a hipotenusa, a tentação de nos querermos europeus numa europa que é um mundo mais complexo que aquele que julgavamos possuir, que não compreendemos e julgamos ser a extensão daquele outro mundo que desapareceu e donde provinha muita da riqueza que esperavamos tivesse continuação no novo “rico mundo” que se revelou velho e sabido demais para as nossas capacidades que há muito ficaram adormecidas no embalo das ondas do mar que também não entendemos.
É uma data a lembrar, marco na história, que não deveria ser comemorada mas celebrada.
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Esta posição dos “militares de Abril” tem muito em comum com o grupo que se reuniu na Aula Magna. Constituem uma minoria que, persistentemente, se arroga falar “em nome do povo português”.
Salazar, provavelmente, também achava que o povo português não tinha o discernimento suficiente para saber o que era melhor para si. Ele, e os “patriotas” que o rodeavam, dispensavam consultas ou a opinião da maioria – cerne de qualquer democracia – porque ACREDITAVAM genuinamente que salvaguardavam melhor os interesses dos portugueses que os próprios. Esta ideia é o alicerce d e qualquer ditadura…
http://jornalismoassim.blogspot.pt/2013/11/o-espirito-de-salazar-esteva-na-aula.html
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O “espírito” por trás da revolução dos cravos, sempre foi uma história mal contada, que nos últimos 40 anos sempre tem sido escamoteada, porque dá jeito para não estragar a “narrativa revolucionária”.
Mas a verdade nua e crua, é a de que se tratava de um movimento de oficias do quadro/carreira, que se rebelavam contra as condições equiparadas, que foram dadas ao oficias milicianos, que acabavam de sair das universidades e eram integrados nas Forças Armadas, nomeadamente a de poderem candidatar-se em igualdade de circunstâncias, a novas comissões de serviço na dita guerra ultramarina. E, isso era uma concorrência que eles não queriam tolerar, porque assim se fechavam oportunidades de repetirem comissões no ultramar, que lhes davam benefícios económicos e melhor contagem de tempo para promoções na carreira e demais regalias.
Por isso desenganem-se todos, porque aqueles senhores NÃO QUERIAM O FIM DA GUERRA. Bem pelo contrário, QUERIAM A SUA PERPETUAÇÃO, garantindo que eles, como oficias de carreira/”Xicos”, seriam OS SEUS ETERNOS BENEFICIÁRIOS.
O que mudou?
Como foram ultrapassados pelos acontecimentos – pela genuína euforia popular e pelo aproveitamento oportuníssimo da “máquina do PCP” – e vendo que não poderiam obter apoio nos seus propósitos, num golpe de rins de falta de caracter, “juntaram-se” então ao bruá popular, que festejava a iminente queda do regime, mas por motivos que a populaça nem sonhava.
Porque se soubessem, talvez as perseguições populares que se assistiram aos que eram conotados com a Pide, ter-se-iam virado para aqueles FALSOS HERÓIS.
É esta farsa, que a Democracia em que nos tentamos tornar, insiste em celebrar???
TENHAM VERGONHA!!!
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Verdade! Fui militar de 1962 a 1966 e sei muito bem que esse movimento de capitaes ja existia na altura e com os fins descritos pelo Jose.
Apos o 25/4 nunca apoiei qualquer partido (tive que fugir para o estrangeiro) mas tambem fui sempre contra os capitaes, alguns conhecidos pela sua incapacidade intelectual, falta de caracter, experiencia de vida ou de comando e, acima de tudo, pela procura de defesa dos seus interesses de elite e classe, acima de tudo. Devem ser julgados por isso.
No 26/4 o movimento foi tomado de assalto pelos oficiais oportunistas para se agarrarem ao tacho. Morderam a mao que os alimentara ate entao, ninguem os elegeu e passaram a decidir o nosso destino. Ainda por cima, uns e outros, querem ser adorados. Puta que os pariu!
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Como outros já escreveram, os “militares de Abril” fizeram o 25 de Abril para eles, não para nós. Esta atitude (relativamente às comemorações) comprova isso mesmo, assim como revela uma gritante falta de respeito pelos portugueses e por Portugal.
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O José tem muita razão. Eu também penso que a verdade histórica deve vir ai de cima e que alguns dos chamados “heróis” do 25 de Abril, não passam de uns oportunistas – veja-se o caso do Otelo, colaborador do antigo regímen (era instrutor da Legião portuguesa), que depois se veio a armar num dos donos do nosso país, perseguindo e prendendo até inocentes. Uma vergonha.
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Também se fez o 25 de Abril para termos um Tribunal Constitucional Político formado por pessoas que vêm daqui:
http://expresso.sapo.pt/eleicao-de-juizes-acaba-em-guerra-no-conselho-superior-de-magistratura=f865192#ixzz2yb7LdD78
e daqui:
http://www.ionline.pt/artigos/portugal/juizes-ignoraram-alerta-mp-sobre-multas-milhoes-euros-risco-prescricao-0
Este 25 de Abril fez-se para todos mas, maioritariamente, para alguns poderem usar e abusar, esses que encarnam a entidade abstracta a quem devemos tudo desde a liberdade à obrigação de os gramar até à demência.
Neste lodaçal ainda sobressaem aqueles que ousam descarrilar, veja-se o Visto de Fora de Sérgio Soares de hoje ( http://www.ionline.pt/iopiniao/uma-questao-honra ) e recorde-se com quem ficou a honra de quem fez Abril e de quem não esquece a honre num acto solitário: recorde-se Salgueiro Maia mas igualmente Junqueira dos Reis
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Ora aqui está uma das consequências do 25 de Abril: a liberdade da asneira !
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