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Alguns gráficos interessantes da 11ª avaliação do FMI

21 Abril, 2014
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A leitura dos relatórios do FMI sobre as sucessivas avaliações é sempre muito útil, e o mesmo sucede com o que foi hoje revelado. Nesta altura em que estamos a chegar ao fim do período da troika, há alguns balanços interessantes. E algumas ideias feitas que podem e devem ser desfeitas.

Gastos sociais

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Em 2012 Portugal gastava 22% do PIB com o chamado “estado social”. Isso compara com os 20,4% de média da Zona Euro e com os 18% da União Europeia como um todo. Não está mal como resultado depois do “maior retrocesso social de sempre”, ou do famoso “recuo civilizacional”, ou de tantas outras barbaridades que por aí se proclamaram.

Como se escreve no relatório:

Public pension expenditure in Portugal more than doubled relative to national income over the last 20 years, with changes only in part justified by demographic developments.1 In 2012, social benefit spending—of which pensions account for over 80 percent—stood well above European and euro area averages.

Os salários

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Este relatório fornece-nos alguma informação interessante sobre a forma como se distribuem os salários entre os vários sectores da economia portuguesa. 

Tomemos este primeiro gráfico. Alguns só verão nele a diferença salarial existente entre Portugal e países como a França, a Alemanha e a Itália. Eu vejo outra coisa: enquanto nesses países é no sector exportador que se pagam os melhores salários, em Portugal são os trabalhadores do sector não transaccionável os que, comparativamente, são melhor pagos. Isto mostra até que ponto este sector esteve protegido da competição – e até que ponto nele pesam os trabalhadores do sector público. 

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Quando olhamos para a forma como os custos salariais unitários evoluiram nos últimos anos verificamos que, se tomarmos por ponto de comparação 1995, os custos no sector não transacionável aumentaram mais de 60% (é aqui que está o Estado, que está a Banca, que estão as telecomunicações, a energia, etc), enquanto no sector transaccionável não chegaram a crescer 10%. Quando olhamos para o que se passou nestes anos de crise (desde 2009), verificamos que os custos unitários do trabalho cairam quase 15% no sector transaccionável (mesmo assim uma queda inferior à ocorrida na Irlanda e em Espanha) e, no sector não transaccionável, a dominuição desse indicador foi marginal. 

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Comparando agora o que se passou desde 2008 no sector público e no sector privado também se chegam a conclusões interessantes. No sector público se compararmos o momento inicial e o momento final, ficámos praticamente onde estávamos: os custos unitários começaram por subir em 2009 (o famoso ano de eleições), depois cairam para valores próximos dos de 2008 por efeito de um primeiro corte salarial (ainda com Sócrates), a seguir encontramos um fosso provocado pelo corte dos dois subsídios em 2012, regressando depois os custos unitários ao seu valor de 2008 por efeito das desicões do Tribunal Constitucional. Já quando olhamos para o sector privado verificamos que esses custos unitários têm vindo a cair, situando-se hoje cerca de 7% abaixo do valor que tinham no primeiro trimestre de 2009. 

Estes números contrariam a ideia de que têm sido os funcionários públicos os mais sacrificados pelas políticas dos últimos anos. Bem pelo contrário. Como resulta ainda mais evidente do próximo gráfico. 

De onde vem o desemprego

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Quando se discutiu a justiça das medidas de redução salarial na Administração Pública, um dos argumentos que os juízes do Tribunal Constitucional desvalorizaram foi o da relativa segurança no emprego que existe na função pública. Nada como ver o que aconteceu ao emprego desde o final de 2008.

Sem surpresa (ver o que escrevi aqui) o sector mais afectado foi o da construção, onde desapareceram quase metade dos empregos. A dimensão dos números do desemprego, que suspreenderam os economistas, pode ter aqui uma explicação, pois este sector é muito mão-de-obra intensivo. A seguir, na perda de emprego, vem a indústria e depois, com uma perda de emprego na casa dos 15%, aparece-nos a agricultura (eis outro mito que desaparece: afinal parece que não é nos campos que os desempregados das cidades estarão a reencontrar trabalho). O sector dos serviços aguentou-se menos mal, mas mesmo assim fica atrás da Administração Pública, o sector que melhor se comportou no que respeita à conservação do emprego. 

Leis laborais

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A revisão da legislação laboral é muitas vezes apresentada como sendo a grande reforma deste governo. De certa forma é, e este gráfico comprova-o: Portugal é o país onde o índice de protecção do emprego, tal como medido pela OCDE, mais baixou entre 2011 e 2013. Mesmo assim, em termos comparativos, os empregos portugueses continuam a ser dos mais protegidos pela lei: em 2013 apenas cinco países tinham índice de protecção do emprego mais elevados. A tal revisão “selvagem” da lei laboral, o anunciado fim de toda qualquer priotecção dos trabalhadores de que tanto se falou deixou-nos, afinal, com um índice de protecção do emprego mais elevado do que o desses paraísos social-democratas que são a Suécia, a Áustria, a Noruega ou a Dinamarca. 

Há muito mais para ver, ler e meditar neste relatório do FMI. Quem desejar é só consultá-lo aqui

14 comentários leave one →
  1. Joao Silva's avatar
    Joao Silva permalink
    21 Abril, 2014 15:38

    Falta o link para o Download do documento.

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  2. marrazes's avatar
    marrazes permalink
    21 Abril, 2014 15:50

    Pordata deste grafismo, tenho cá para mim que este sujeito, se está fazendo ao lugar do Barrete.

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  3. balde-de-cal's avatar
    balde-de-cal permalink
    21 Abril, 2014 15:50

    o MONSTRO continua a devorar os contribuintes

    o omnipresente MONSTRO está sempre nos
    telejornais anti-contribuinte

    e nos desfiles de rua onde curiosamente nunca aparecem pobres

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  4. JCA's avatar
    JCA permalink
    21 Abril, 2014 16:52

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    Não é um tema pacifico donde incendiavel porque fraco de sustentação mesmo cientifica ou matematicamente. Sugere o dialogo do absurdo, portanto vamos lá para o patamar que convida, o das teorias, interessante numa de ‘escarnio e mal dizer’ mas outro feto virginalmente nascido em termos de realismo, no ‘onde dói’:
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    GASTOS SOCIAIS:
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    Estatisticas ? São o quê ? Se os pás estão gelados e a cabeça a 500 graus, a média estatistica seriam por exº 36%, o corpo não ardia.
    Entra aqui a assimetria. E as assimetrias para desvendar a Realidade ? Varre para baixo do tapete ….. As que há, lança-se a turba justiceira contra a ‘injustiça’ engenheirada.
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    Mas são uma Direito Adquirido. Aqui ou em qualquer Europa para não ir outro Continente qualquer. Contratual, uma parte cumpriu, a outra é obrigada a cumprir. Como descalça a bota na sua perspetiva que creio de boa fé ? Está bem, sabemos no Estalinismo não se cumpriu. Então mas estamos num quadro partidário em que a Esquerda rejeita Estalinismo e a que se diz Direita abomina as Ditaduras pela vacina que levou do Estalinismo etc. Como é ? Já está tudo na tanga e na treta ?
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    Neste ‘approach’ só de ‘ghost writers’ se pode jactar-se ‘recuos civilizacionais’ que o são mas não têm unhas para não sê-lo. Então até o aceitam. E há tantas soluções para resolver, mesmo nas vfersões tugas que por cá se chama Esquerda ou Direita na novilingua em curso.
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    SALÁRIOS (para incendiar),
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    cai tudo por terra por aqui, tal qual um sonho depois de se acordar,
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    a alavanca para qualquer País no Mundo ter ‘energia vital alem de sonhos de inovação etc e tal’ são: ou um poder de compra interno forte (poder de compra, voila) ou um mercado interno de mais de 50 milhoes de habitantes (grão a grão enche a galinha o papo mesmo com favelas etc etc). Só em cenarios deste tipo as Empresas ganham musculo (lucro) para se atirarem e morderem a sério o que se chama ‘exportação’ SUSTENTADA.

    Sem isto são fantasias, e interessantes temas ou case studies para uns milhares de horas a partir pedra em anfiteatros academicos ou outros ‘deslocais deslocalizados’ onde ‘arduamente’ se discute em elite um tema mega mega mega e tal e coisa … e no fim sai de lá tudo, e todos, na mesma. Por vezes, quase sempre, piores pois nessas milhares de horas a falar para o boneco entre comissões, sabios, elites & Cª Lda (por vezes duram anos) à volta continua tudo a cair a empobrecer entre tantos convencidos.
    .
    Até apetece exemplificar por exempo com o caso dos fundamentalistas na area das Finanças. E agora que vão fechar 50% das Repartiçoes de Finanças que dirão os fundamentalistas que ou vão para a prateleira, ou para o Desemprego ou para outra solução qualquer que arranjem para lhes passar a mão pelo pelo e não levantarem ondas ?
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    DE ONDE VEM O DESEMPREGO E AS LEIS LABORAIS:
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    Assumindo como certo, que os Empregadores Privados nunca consideraram as Leis Laborais um obstaculo intransponivel em termos de gestão corrente que conduzissem a qualquer falencia ou a ‘inimigo numero um, dois ou três etc’ pois estão a anos luz da perversidade e destruição que os Impostos e respetivos labirintos de ‘iluminados’ que de facto arrasam e proibem a Economia e as Empresas não ‘estatais dependentes’,
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    o resto está respondido acima.
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    É outra abordagem do tema que nem está fora da novilingua em curso, mas é outra por outros caminhos no supor de muitissimo mais à frente em ‘revolta’ do mais do mesmo .. para ‘provocar’, é chato está sempre a tocar a mesma musica …
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  5. JCA's avatar
    JCA permalink
    21 Abril, 2014 17:03

    .
    às vezes assusta-me surgir que se implantou a Liberdade que não libertou o suicidario emocional muito mais no topo que na base do ‘orgulhosamente sós’, ditatura no codigo mental que uma certa cultura elitista supostamente contraria afinal nunca se libertou. E assim continuamos a não ir a lado nenhum, a nenhures ou algures.

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  6. Castrol's avatar
    Castrol permalink
    21 Abril, 2014 17:24

    Haja alguém que esfregue estes números na cara do Tozé Seguro e de meia dúzia de pseudocomentadores políticos…

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    • Churchill's avatar
      Churchill permalink
      21 Abril, 2014 19:20

      Se é para esfregar pelo menos que seja alguma coisa com um mínimo de rigor.
      Ou a ideia é combater o mau com o pior?

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  7. Monti's avatar
    Monti permalink
    21 Abril, 2014 18:27

    Relatórios, verdades e realidades.
    Os Relatórios podem servir para muita coisa.
    Comprovar por ex, a existência de ADM no Iraque.

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  8. Churchill's avatar
    Churchill permalink
    21 Abril, 2014 19:19

    É sempre um deleite ver as leituras que cada um faz de umas tabelas de médias e uns gráficos a condizer.

    Adoro particularmente a conclusão que o setor não transacionável em Portugal paga mais que o exportador, e depois mistura os salários da banca com a administração pública. Enfim, se o jmf for de férias até ao Hawai e eu der um pulo à Caparica, em média fomos os dois para as Caraíbas.
    Ou seja, na Autoeuropa (exportador) paga-se muito melhor que na administração pública e muito menos que nos bancos. Médias de populações diferentes é uma idiotice, qualquer manual de estatística o diz logo na introdução.

    O gráfico do custo unitário de trabalho deve ser anedota, de mau gosto. Não sei quem faz estas contas, mas deve ter feito matemática através de exame por fax ao domingo, ou similar.
    Para os FP, em 2013 estamos ao nível de 2008? mas quem é o otário que acredita nisto?

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  9. JCA's avatar
    JCA permalink
    22 Abril, 2014 00:27

    .
    Eu no meu ‘fraquite intendimente’ julgava que no final dum Programa com ajustamentos por todos os lados surgiam as conclusões finais e os resultados desse programa salvador de Portugal e dos Portugueses.
    .
    Se o FMI faz como o outro, derrapa para o lado, e no fim do programa que os daqui juram que foi a ‘maldita’ Troika que os obrigou (eles até nem queriam …) apresenta um relatório de analise de evolução dum programa que acabou, alguém sacode a agua do capote, safa-se dos resultados de tanta ciencia …
    .
    É o que sugere qualquer ciecia do que é um Programa. Se a culpa é dos de cá ou dos de lá, desembrulhem-se porque a rapaziada não papa disso. Quere o RIGOR que ambos propagandearam.
    .
    Depois o façam lá uma ‘uniao nacional’ em que as secções até lhe podem chamar partidos, já se sabe ‘unam-se’ para pagar a divida parece que eram uns 80 ou 90% e agora acabado o Programa salvador são parece que uns 120 ou 130% do PIB.
    .
    Afinal nada de anormal, corre bem tanto para os desta ‘situação troikista’ como para a ‘oposição troikista’. O bota abaixo no seu esplendor. Corre bem.
    .

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  10. André's avatar
    André permalink
    22 Abril, 2014 09:41

    Bem, sinto-me triste, os paladinos da falta de proteção laboral, como a Alemanha ou a Holanda, protegem mais os trabalhadores do que nós? Agora só se deve aceitar qualquer reforma laboral que nos (e)leve para o nível dos trabalhadores alemães (também acho que ninguém se importa de trabalhar o que eles trabalham, recebendo os salários que eles ganham, no fundo, um regime AutoEuropa para todo o país, e sim, descarto os péssimos gestores portugueses).
    Outro ponto interessante é verificar que o setor exportador, segundo dados do INE (e não do FMI) é o setor onde os salários em Portugal são em média mais elevados. Talvez seja uma contrariedade, mas acho que toda a gente percebe a explicação (embora isso não dê jeito aos apoiantes do governo).
    E já agora, pergunto se nós podíamos ter condições iguais às da Alemanha no que toca ao desenvolvimento económico. Eu só precisava de duas coisas: não pagar grande parte da dívida (como eles fizeram) e poder colocar restrições às importações (mesmo sendo membro da UE, como eles fizeram, na altura na CECA e CEE). Aposto que Portugal também se tornava rapidamente num país competitivo…

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