o nosso problema
Portugal é um país absolutamente desregrado, isto é, sem uma ordem comunitária fundada em princípios claros e consensualmente aceites e respeitados pela maioria das pessoas.
O país não observa as regras mais elementares da convivência social. Os velhos são desrespeitados todos os dias e em todas as instituições públicas ou privadas, as crianças são tratadas como se fossem adultos e os indivíduos são meros contribuintes do estado. Não existem valores que mereçam a adesão consensual da comunidade, ela mesma uma ideia muito vaga para a generalidade dos portugueses. As cidades perderam o seu brilho e o seu orgulho local. Já ninguém fala de regiões, esquecidos que foram os laços indeléveis que uniam as pessoas e as suas terras a identidades comuns. Nenhuma figura pública, política, cultural ou empresarial é objeto de admiração. Pelo contrário, todas são objecto de escárnio e maledicência. Não existem instituições que não tenham sido maculadas, nestes últimos vinte anos, por escândalos verdadeiros ou inventados, aos quais a comunicação social dá um tratamento miserável, mas que, com a cada vez maior ausência de discernimento que só valores sólidos podem manter, excita a populaça e faz vender. O sucesso é sinónimo de falcatrua. Todos desconfiam de todos, e os vínculos naturais de cooperação desapareceram, arrastando com eles as instituições sociais naturais, como a família e o casamento.
O 25 de Abril derrubou, sem sequer se aperceber disso, uma ordem política e social fundada em princípios velhos e caducos, que já há muito tempo não serviam para um país integrado na Europa e com as responsabilidades que então tinha em África. Mas, em sua substituição, nada criou, a não ser confiar à política tudo o que deve ser de natureza social, privada e natural. O resultado só podia ser aquilo em que hoje vivemos. Este é o nosso problema.

Acrescente, por favor, a criminalização sistemática de actos e atitudes que nunca deveriam ser crime, mas apenas objecto de censura moral, social, religiosa, ética ou deontológica – as quais, entenda-se, foram eliminadas pelo politicamente correcto.
Os valores são a preto e branco. Pode-se fazer tudo o que nao seja crime.
Nunca numa democracia ocidentalizada tantos cidadãos cumprem pena efectiva perante um código penal com tantos crimes e perante um Ministério Público manifestamente inflaccionado nas competencias e no estatuto corporativo.
Em conferencias de Pais, o Mº Pº já interfere quando os advogados do pai e da mãe discutem o montante da pensão de alimentos.
O País que somos também é devido ao Ministério Público que temos e à estatização sistematica de situações de vida naturalmente vocacionadas para a liberdade e para interacções individuais ou familiares.
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“…escandalos verdadeiros ou inventados,aos quais a comunicaçao social dá um tratamento miseravel…” concordo consigo, e por isso sou a favor nao da censura do pasquim CM,mas sim do desprezo puro e simples desse tipo de negocio “jornalistico”…
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Não existem instituições que não tenham sido maculadas, nestes últimos vinte anos,
Peço desculpa, olho para o Sport Lisboa e Benfica e vejo um carreira limpa, limpíssima.
Valha-nos ao menos que alguma coisa se aproveita do caos.
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Inteiramente de acordo.
A falta de princípios, a relativização moral que entre outras causas provocaram a desestruturação social, foram acomodados pelo Estado, que deveria ser exemplar no seu comportamento, ao tratar e só, do que lhe compete. Sendo que alguns destes sintomas de decadência não são exclusivos nossos, têm entre nós e pelas razões referidas por rui a., uma projecção agravada.
Raramente vejo alguém pôr “o dedo na ferida”. Qualquer projecto de reestruturação do Estado a sério, tem de levar em consideração esta realidade que é fundacional. Este
excelente post poderia muito bem ser o respectivo preâmbulo.
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“O 25 de Abril derrubou, sem sequer se aperceber disso, uma ordem política e social fundada em princípios velhos e caducos, que já há muito tempo não serviam […]”
Já cá faltava a profissão de fé progressista, metida a martelo e a destoar do introito.
Deve ser obrigatória, assim uma espécie de Avé-Maria que os jacobinos rezam uns aos outros.
Há quem já esteja farto e dê troco curto e grosso: http://portadaloja.blogspot.pt/2014/05/um-queque-do-marco.html
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Está enganado. Tanto aquilo não servia, que ninguém a defendeu. A começar pelos titulares do regime. Quer melhor evidência? e não é profissão de fé, muito menos jacobinismo. É apenas reconhecer a realidade das coisas.
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OK, então um dia destes itemize aí os princípios que estavam velhos e caducos.
Bónus se explicitar os princípios que os deviam substituir. A triplicar se até fizer sentido 😉
Largar os “mos maiorum” pelo canto das sereias qualquer palerma faz, como nós ilustrámos colectivamente. Só é evidência da fraqueza humana, não faltam exemplos pela história fora.
Se acha que a revolução francesa fez bem à humanidade, é um jacobino.
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Sobre alguma coisa do que penso sobre a revolução francesa, sugiro: revolucaoemfranca.blogspot.com. Não imagino por onde me viu a dizer bem da RF, ou das RFs, porque não houve uma, mas pelo menos quatro, e a jacobina não foi a primeira, como penso que bem sabe. Quanto ao mais, um dia destes, com tempo.
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Questões de linguagem. Foi pós-RF que se instalou a fobia ao “velho e caduco”. Antes havia o conceito da idade de ouro clássica, e que os antigos eram mais sábios que os contemporâneos.
Acho que o Montaigne pastou por aí, e depois foi o descalabro, com qualquer idiota a achar que as suas lucubrações de tabula rasa são a salvação final da humanidade. Andamos nisto há mais de três séculos, e não há maneira de ganharmos juízo.
Quando lhe apetecer, seria um bom exercicio.
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Mas, meu caro, a exaltação da “idade de ouro clássica” foi o motivo utilizado nas várias “renascenças”, entre elas a da própria RF (veja as pinturas do David e as referências discursivas, à época, dos revolucionários mais exaltados, desde logo do Robespierre e do Saint-Just), não propriamente como exaltação do que estava, mas como contestação das ordens vigentes. Não será, isso sim, uma manifestação de jacobismo?…
Quanto à “itemização” do que estava a mais (e sobretudo a menos) na ordem anterior ao 25A, conto pegar no assunto em breve.
Cumprimentos,
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Infelizmente , é VERDADE
A louca obsessão e a mui estupida vaidade de PPC pelos danosos mercados financeiros !… Mais do mesmo … A divida contraída com PPC já é dupla daquela também loucamente contraída por Sócrates com a passiva e mui interessada cumplicidade de Cavado para obter uma imerecida reeleição o qual é aliás o principal obreiro da nossa atual desgraça . A nossa divida publica que não para de crescer é impagável e estamos eternamente escravizados pelo “poder financeiro” . Impagável , sim , pois para ser paga teríamos necessidade de nos próximos 20 anos ter um crescimento anual de 6% … Utopia. Quo Vadis , Portugal .
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Tem razão, é por isso que os japoneses têm todos os olhos em bico.
Segundo parece a dívida deles é de 200% do PIB.
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ainda temos muito a aprender com o fado japonês
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sempre os mesmos é um país de raiz senis ó assis
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Ya meu! Portugal iniciou o seu processo de integração europeia há 3anos atras quando o deveria ter feito trinta anos antes…
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Há princípios que quero crer não envelhecem, embora e lamentàvelmente hoje em dia se usem pouco. A honra, a dignidade, a seriedade são valores em baixa. Esperemos que por pouco tempo. Não creio que fossem estes os princípios a que rui a. se referia. Uma ordem política e social envelhecida, seria talvez mais consensual.
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