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juan carlos

2 Junho, 2014
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Juan Carlos conseguiu o que é quase impossível em política: uma transição pacífica de uma longa ditadura para um regime democrático pleno. Foi graças a ele e, sobretudo, ao que ele personifica enquanto símbolo, que a Espanha conseguiu ultrapassar divergências e ódios antigos entre os franquistas e as várias oposições ao regime, que poderiam ter dado um péssimo resultado na tentativa de golpe de Miláns del Bosch e Tejero de Molina, no quase fatídico dia 23 de Fevereiro de 1981. Nessa ocasião, o que valeu a Espanha foi a dimensão simbólica do Rei, que conseguiu infundir respeito ao exército indeciso sobre qual partido tomar. Fosse ele um actor político eleito no cargo, provavelmente a força da sua intervenção teria sido muito menor e, quem sabe, mesmo até agravado as cisões da sociedade espanhola.

Hoje, ao anunciar a sua renúncia ao cargo fazendo-se substituir pelo seu filho, Juan Carlos deu mais uma lição de civilidade política democrática, que muito poucas repúblicas contemporâneas conseguem atingir. Nelas, a sucessão do chefe de estado é quase sempre palco de conflitos e litigiosidade exacerbada, que sempre deixam marcas no exercício dos mandatos. Tome-se como exemplo o caso português actual, e a diferença que faria termos em Belém alguém que fosse fatalmente consensual, em vez de um presidente que, bem ou mal, é visto como um mero protagonista político.

18 comentários leave one →
  1. zazie's avatar
    2 Junho, 2014 17:22

    É verdade. As vantagens da monarquia estão todas ali à vista.
    Mas até nisto temos azar. A porcaria dos primos das choças falam mais alto por cá.

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  2. rui a.'s avatar
    rui a. permalink
    2 Junho, 2014 17:32

    Desculpe, Zazie, mas se não temos monarquia constitucional devemo-lo ao Salazar. Não teve grandeza histórica suficiente (e necessária para quem mandou 40 anos num país) para se lembrar que também ele era mortal. Achava que o Marcello Caetano cuidaria do assunto e empurrou-nos assim, involuntariamente, é certo, para a revolução. Um regime autocrático de 40 anos é uma panela de pressão: ou tem válvula de escape que funcione, ou estoira.

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    • Chico's avatar
      Chico permalink
      3 Junho, 2014 00:11

      Já cá faltava a recorrência politicamente correcta : Ganda malandro, o Salazar ! O gajo afinal foi o culpado de tudo !

      Um tipo que só fez merda! E se fez alguma coisa de jeito, isso lembra a alguém? Claro
      que não lembra porque não fez.

      Este tipo de catilinária, vinda de um libaral ultra-obsessivo e habitualmente em estado de distúrbio paranoide, tem a maior das lógicas. Oh, se tem!.

      Ah!, se esta bela e juvenil democracia fosse governada pela maioria praticamente absoluta
      (né?) dos anti-salazaristas deste magnífico país, como ela não seria ainda mais deslumbrante e gloriosa!

      Quanto ao golpe de 23/2/81 a verdadeira história está por contar publicamente. Quantas vergonhas silenciadas! Quantas traições e jogadas duplas ! Quantos vira-casacas hoje
      muito reverenciados e bem na vida ! Por cá ainda saiu um livro a denunciar algumas histórias “secretas” do “pai da pátria” e dono da fundação Mário Soares, que num país normal estaria a prestar contas em tribunal. O livro saíu, mas nunca existiu, como se sabe. Em Espanha julgo que ainda está para sair em letra de forma a verdade sobre o dito golpe.
      E se saísse, o resultado seria idêntico. Silêncio. Silêncio da Justiça, silêncio das televisões, dos jornais, das rádios, dos papagaios e escribas da triste cena política, em tudo semelhando um complot instintivo e automático entre os bem-entendidos guardiões da liberdade e dos pretendidos direitos do cidadão. Mas isto tem alguma importância? De resto já se sabe que a culpa é do Salazar, né?

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      • rui a.'s avatar
        rui a. permalink
        3 Junho, 2014 01:54

        Bem-haja pelos seus comentários. Foram muito esclarecedores

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  3. fado alexandrino's avatar
    2 Junho, 2014 17:40

    Vamos fazer um pequeno exercício e imaginemos que o filho de Juan Carlos era o Sérgio Sousa Pinto.
    Isto é só uma ideia, estou receptivo a outros nomes, até, caso extremo, podem imaginar o actual Príncipe da Beira, senhor Afonso de Santa Maria de Bragança com os seus já valiosos 18 anos?

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    • rui a.'s avatar
      rui a. permalink
      2 Junho, 2014 17:46

      Numa monarquia constitucional, em que o rei é um símbolo e não exerce quaisquer poderes, era igual ao litro. E a idade também nunca foi limitação. As Constituições monárquicas preveem o instituto da regência.

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      • fado alexandrino's avatar
        2 Junho, 2014 18:32

        Obrigado.
        Do que leio Juan Carlos exerceu, bem e amplamente, muitos poderes.
        Podia ter sido ao contrário, na realidade era inimputável, só responde perante Deus.

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      • rui a.'s avatar
        rui a. permalink
        2 Junho, 2014 20:02

        Não é assim nas monarquias constitucionais, onde o rei não exerce poder político algum. Se ler bem o meu post, verá que escrevi que o sucesso do seu protagonismo foi mais devido à sua “função simbólica”, do que propriamente à sua pessoa. De resto, nos sistemas de monarquia constitucional não há como os reis cometerem actos politicamente relevantes (bons ou maus), graças ao princípio constitucional inglês de que “the king can do no wrong”, isto é, de que o rei nunca se engana. Ora, muito à inglesa, para que ele nunca se engane mesmo retiraram-lhe todos os poderes, sendo ele essencialmente um símbolo do país, da nação e da comunidade, um símbolo corporizado numa pessoa que abdica integralmente da sua vida pessoal (e política, note) para o exercício daquele papel. Quer queira quer não, isto acaba por criar uma cultura de respeitabilidade dos agentes políticos, que os inibe de alguns disparates. Não de todos certamente, mas de muitos. Ao invés do que muitas vezes pensamos, a importância dos símbolos é enorme. Quando eles se corporizam em alguém, então é esmagadora.

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      • fado alexandrino's avatar
        2 Junho, 2014 21:59

        Obrigado.
        Pode não mandar quase nada, pode até não mandar nada, para mim é sempre uma pessoa que não foi escolhida pelo voto, e que, pior ainda, não pode ser removido pela força do mesmo.
        Antigamente cortavam-lhes a cabeça.
        Esse simpático uso caiu em desuso e por isso continuo (e parece que muitos espanhóis) a preferir eleições democráticas.
        E, não é irrelevante, são caros.

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  4. Francisco Feijó Delgado's avatar
    2 Junho, 2014 18:00

    Um exemplo duma “abdicação” republicana de maior importância e significado foi a saída do poder de Washington.

    O seu “discurso de despedida” deveria ser lido por todos, sejam republicanos ou monárquicos: http://en.wikisource.org/wiki/Washington%27s_Farewell_Address

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    • rui a.'s avatar
      rui a. permalink
      2 Junho, 2014 19:53

      Sem dúvida: um homem de excepção, numa república de excepção.

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  5. neotontono's avatar
    neotontono permalink
    2 Junho, 2014 18:54

    Bom. Eu contrariamente ao Rui A. nestes surprendentes acontecementos tudo leva a fazerme perguntas e interrogantes sobre quais os motivos que levam a um rei abdicar.
    Ou tal o caso de anteotem que se fiz de um tal Benedito.
    E ainda que o rei nao esteia (fisicamente) morto pois…que viva Felipe Vl

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  6. joao lopes's avatar
    joao lopes permalink
    2 Junho, 2014 19:00

    o juan carlos andava em safaris luxuosos em africa enquanto em espanha o desemprego andava nos 26%.chega?

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  7. joao's avatar
    joao permalink
    2 Junho, 2014 19:21

    Cavaco foi protagonista quando foi preciso. Graças a ele, goste-se do estilo ou não, tivemos estabilidade governativa nos anos do ajustamento acordado com a troika. Teria sido um desastre se tivéssemos ido para eleições o ano passado e o PS tivesse subido ao governo, como se pode ver hoje em dia. Além disso é muito melhor escolher os protagonistas e dispensá-los em eleições .

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  8. JS's avatar
    2 Junho, 2014 19:22

    Em ambos os casos existe o factor sorte.

    Um homem íntegro como Rei é inultrapassável pois não tem que agradar a ninguém para “realizar” o cargo. Um Rei tolinho, rodeado de sanguessugas, é um perigo.

    Um PR de origem partidária, a Constituição permite-o, acaba por fazer isto e aquilo “por que lhe apetece”, porque quer bizar, ou porque quer deixar aquilo que julga ser uma “real” imagem ….
    Boa sorte.

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  9. Severo's avatar
    Severo permalink
    2 Junho, 2014 19:31

    Não se esqueçam que foi o General Franco o autor da transição para a democracia em Espanha, ao entregar o poder a Juan Carlos. Este recebeu-o de mão beijada.

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  10. Carocha's avatar
    Carocha permalink
    2 Junho, 2014 23:05

    Franco quis fazer a transição para a monarquia casando a sua neta Carmen Martinez Bordiu com o falecido Duque de Cadiz primo direito de Juan Carlos.O Duque de Cádis supostamente seria o herdeiro ao trono.Mas enfim.!!O resto já todos sabemos,a história relembra.nos.!

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  11. luis m.'s avatar
    luis m. permalink
    3 Junho, 2014 23:55

    Quero relembrar aos seguidores deste blog, que o rei Juan Carlos foi REFERENDADO nos anos 70! começou por ser imposto por Franco, é verdade, como seu sucessor, mas foi, já no periodo de transição, referendado pelo povo! tem portanto toda a legitimidade! pelo contrário, não resisto também a lembrar a todos, a nossa república NUNCA foi referendada! é resultado de uma revolução em 1910, revolução essa feita num regime DEMOCRÁTICO como era o regime monárquico em Portugal! De facto, à luz da época, a monarquia em Portugal era um regime democrático, pois admitia a existência de partidos políticos, inclusivé do partido republicano.
    Quero ainda referir que o nosso actual presidente da República, foi votado por APENAS 25% da população, já que metade não votou e da restante metade apenas 50% votou nele! ou seja, temos um presidente, supostamente de TODOS os portugueses, que apenas foi escolhido por 1/4 da população!
    Para finalizar: gostava de ver QUALQUER republicano português a discursar em Espanha, tentando provar aos espanhois, tendo como base o exemplo português, do quanto lucrariam em ter uma república 🙂

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