Saltar para o conteúdo

uma incógnita absoluta

5 Junho, 2014
by

O regime político português criado pela Constituição de 1976 funda-se sobre alguns princípios estruturantes operacionais fundamentais, entre eles o rotativismo de dois grandes partidos do centro, o PS, ao centro esquerda, e o PSD, no centro direita. Esses dois partidos asseguraram, por quase quarenta anos, sem interrupção, o governo do país, tendo somente sido postos em causa por um momento fugaz, que foi protagonizado pelo Partido Renovador Democrático do General Ramalho Eanes. Mesmo assim, este partido constituiu-se a partir de restos daqueles outros dois, e não conseguiu sobreviver por muito tempo, tendo submergido sob a força do nosso bipartidarismo sistémico.

Deste modo, se alguma vez esta relação binária for desfeita, o regime, tal como o conhecemos há trinta e oito anos, desaparecerá também. Isso pode suceder de dois modos, ambos correspondendo ao desencanto do eleitorado e à inexistência de alternativas. A primeira, aparecendo um partido maioritário marginal, como de certo modo sucedeu em França com a Frente Nacional. A segunda, pela criação de condições objectivas de ingovernabilidade, com os dois partidos do sistema a perderem votos em percentagem elevada, distribuídos pela abstenção e por formações partidárias de porte médio inferior, sem capacidade para protagonizarem alternativas de governo.

De algum modo, foi isto que sucedeu com o fim da monarquia e a implantação da república. A monarquia constitucional instaurada em 1832 acabou também por se engessar num bipartidarismo rotativista, entre Regeneradores e Progressistas (estes últimos, mais tarde, absorvidos e substituídos, pelo Partido Histórico), que só foi quebrado pelo fim violento do regime, uma nova ordem constitucional e novo pessoal político (algum não tão novo assim…).

Neste momento, em Portugal, com a rigidez governativa provocada pela falta de economia e de liquidez, pela intervenção externa da troika e pela intransigência do Tribunal Constitucional em aceitar as únicas “reformas” susceptíveis de reduzir a sério a despesa pública (infelizmente, tal o despautério a que isto chegou, despedir pessoas e diminuir salários, pensões e benefícios), começa a tornar-se claro para o eleitorado que não existem soluções de governo susceptíveis de melhorar a sua vida, seja no curto ou no médio/longo prazo. Reforçando esse desânimo, o eleitorado mais consciente também já percebeu que, para o que lhe interessa, também será indiferente que o governo mude de mãos, porque o essencial da políticas irá manter-se. Também, ao longo destes anos, os portugueses não desenvolveram qualquer utopia salvadora a que possam vir a deitar mão, como, na passagem do século XIX para o século XX, a ideia da república desempenhou, e já não acreditam em salvadores da pátria, como aconteceu com o General Eanes do primeiro PRD. O tempo das ilusões já não é o nosso.

Resta, assim, com o crescente desânimo, o aumento da abstenção, a diluição dos votos e a falta de governo estável e eficaz, a implosão do sistema. Isso começa já a ser muito visível na incapacidade de relacionamento institucional entre a chefia de estado, do governo, do poder legislativo e a constituição.

O que virá a seguir é, por ora, uma incógnita absoluta. Não temos precedente do que se está a passar.

9 comentários leave one →
  1. Euro2cent's avatar
    Euro2cent permalink
    5 Junho, 2014 22:35

    Há uma possibilidade real de PS, PSD e CDS somarem menos de 50% dos votos nas próximas eleições.

    Acho que o eleitorado também já percebeu isso.

    Gostar

    • fado alexandrino's avatar
      6 Junho, 2014 00:47

      Procure agarrar uma cadeira e esperar sentado, caso contrário não vai aguentar a dor de pernas.

      Gostar

    • Duarte de Aviz's avatar
      Duarte de Aviz permalink
      7 Junho, 2014 07:27

      E os outros 50% vão para quem? Diga lá? Ou “prognósticos” só no final do jogo?

      Gostar

  2. YHWH's avatar
    YHWH permalink
    6 Junho, 2014 07:50

    Marinho Pinto em marcha para um inédito PS+MPT (Marinho Pinto Trading, tão ao gosto das blasfemas liberalidades económicas…).

    Gostar

  3. fado alexandrino's avatar
    6 Junho, 2014 08:04

    Peco licença a rui a. e até para memória futura a leitura de uma crónica exemplar sobre o assunto da moda.
    Aqui

    Gostar

  4. Ana Catarina's avatar
    Ana Catarina permalink
    6 Junho, 2014 08:41

    Ia escrever uma baboseira qualquer, mas já não digo nada pois toda a gente sabe que o rendimento mínimo de inserção foi criado (com o dinheiro de quem trabalha) para pagar aqueles que vivem sem hipóteses de ganhar o seu sustento, (inválidos, velhinhos… )
    Ora bem todos estes ficam fora.
    Mas os outros vadios, gatunos, drogados, mendigos organizados, etc. etc. porque é que não são retirados dos cadernos e/ou em alternativa não passam a pagar impostos?
    Seria isto INCONSTITUCIONAL?

    Gostar

  5. rurik xavier's avatar
    rurik xavier permalink
    6 Junho, 2014 11:20

    A segunda, pela criação de condições objectivas de ingovernabilidade, com os dois partidos do sistema a perderem votos em percentagem elevada, distribuídos pela abstenção e por formações partidárias de porte médio inferior, sem capacidade para protagonizarem alternativas de governo.

    ———-

    nem assim eles arredariam pé

    Gostar

  6. BEIRAODOS SETECOSTADOS's avatar
    BEIRAODOS SETECOSTADOS permalink
    6 Junho, 2014 13:26

    Quando isto estiver quase a desfazer-se o Governo de Bruxelas nomeara uns “capatazes” (tecnocratas) para repor o ordem. Nessa altura o Pais ja tera sido quase todo propriedade doutros paises os de estrangeiros.

    Gostar

Trackbacks

  1. O princípio do fim (2) | O Insurgente

Deixe uma resposta para Duarte de Aviz Cancelar resposta