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A ler

13 Julho, 2014

Inês Teotónio Pereira: «A versão clássica dos maus da fita está em crise: já não existem maus, nem nas fitas nem em lado nenhum. Se alguém pega numa arma e assassina dezenas de pessoas numa universidade ou se um grupo de terroristas aniquila dezenas de civis, a tendência é justificar os crimes com o contexto. Porque a culpa, em primeira instância, nunca é dos autores. A culpa é quase sempre da sociedade, da globalização, dos capitalistas, do contexto familiar, dos filmes violentos, da pobreza, da liberalização da venda de armas, da religião, etc. O que prevalece nesta teoria é que as pessoas, de um modo geral, são estúpidas, coitadas, e a moral que têm ou não têm depende exclusivamente do contexto. Os maus são vítimas e, na verdade, somos todos bons selvagens, incluindo os terroristas, os assassinos, etc. Os maus são os contextos, e não os criminosos.
Esta febre de fazer tábua rasa do bem e do mal, dos maus e dos bons, à boa maneira dos filmes de cowboys e do super-homem, chegou aos contos infantis. E não, não se inventaram novos contos infantis, adulteraram-se os clássicos. Pegou-se no trabalho genial dos irmãos Grimm, de Andersen e de muitos outros que se esfalfaram a trabalhar e mudaram-se as histórias para as adaptar aos conceitos modernos e, por isso, correctos.

(…) No novo filme da Disney da Bela Adormecida, a questão central é perceber porque é que a bruxa é má. E descobre-se que, afinal, a bruxa não é má: mau era o rei que lhe cortou as asas e ela, coitada, não teve alternativa senão lançar um cruel feitiço sobre a princesa para salvar o reino (enfim, é complicado…). Nesta história não há realmente maus, há contexto. E a moral da história é que tudo depende do contexto.
Também o clássico João e Maria que se conta hoje às crianças é outra história completamente diferente daquela que foi escrita. Afinal, os meninos perderam-se na floresta e não foi a madrasta e o pai que os abandonaram reiteradamente porque não tinham dinheiro para os sustentar. Nada disso. Afinal, foi por acaso que os meninos foram parar a casa da bruxa – perderam-se – e a bruxa também não caiu para dentro do forno empurrada pela heroína Maria, mas apenas ficou sem a vassoura. Aqui nem sequer há moral da história, há apenas aventura.

O que hoje se tenta passar às crianças é que o mal não existe, que os maus são bons e que qualquer coisa que mostre ou revele crueldade incita à violência. Com isto matam-se heróis e trituram- -se modelos de justiça, moral e coragem. Até que as crianças crescem e, quando todos esperávamos que, com esta nova cultura infantil, todas elas se tornassem miniaturas da madre Teresa de Calcutá e que as guerras desaparecessem da fase da terra, eis que elas se tornaram uma geração que se está nas tintas para tudo isso. Aprenderam que há uma justificação plausível para tudo e principalmente para a maldade, por isso não há lados. A eterna luta do bem contra o mal e do final feliz é qualquer coisa que não lhes assiste. Os heróis, esses, são os futebolistas e a Miley Cyrus. E o mais caricato de tudo isto é que os jogos de consola mais vendidos são os mais violentos, em que o protagonista principal é mesmo mau. Um mau eficaz, com estilo e impiedoso. Mas não faz mal, dizem, porque é tudo fantasia. O que faz mal é cantar aos nossos filhos o “Atirei o pau ao gato”, não vão eles, quando crescerem, adoptar como desporto nacional atirar paus aos gatos.»

14 comentários leave one →
  1. Vasco Gama's avatar
    Vasco Gama permalink
    13 Julho, 2014 12:29

    Boa recomendação.

    Contudo não é de hoje que as ideologias relativistas se propagam. Hoje elas estão bem instaladas na sociedade (e necessariamente em todos os produtos culturais), havendo quem defenda que a dignidade humana é uma mistificação (propagada pelos religiosos) ou que a moral, sendo uma ilusão e um subproduto cultural, não deve ter outra condicionante que não seja o livre consentimento (dos adultos envolvidos), e qualquer norma (sobre direitos ou deveres) não deve ter outro critério que não o desejo da maioria.

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  2. filipe duque's avatar
    filipe duque permalink
    13 Julho, 2014 13:38

    O relativismo moral imperante, cujas consequências do simplesmente idiota ao letalmente nefasto não se contestam, é uma reacção aos maniqueísmos, falsidades e visões parciais e tendenciosas da realidade que imperaram durante milénios (sendo que muitos persistem), e cujas consequências vão do simplesmente idiota ao letalmente nefasto. Sendo certo que esta afirmação é, ela própria, relativista, o que me parece é que a forma como vêmos a realidade evolui permanentemente em função desta e das nossas necessidades e posição nela. Um pouco como após décadas de ditadura de direita em Portugal era inevitável virar à esquerda e após décadas de desfasamento à esquerda é inevitável o reafirmar da direita. “Mutatis mutandis” é das poucas realidades absolutas. Quanto a acusar novas gerações seja do que for, é o mesmo que dizer que antigamente é que era bom. E era, mais ou menos da mesma forma que nunca estivemos tão bem. Um dos corolários do texto de ITP é o de que “quem não está comigo está contra mim”, cujas maravilhosas consequências é escusado enumerar, tão nefastas como a noção de que tudo é relativo e nada vale mais que qualquer outra coisa. Em conclusão, todos somos formados e educados em quadros de valores que – azar – mudam e evoluem um pouco a cada dia, e ao que parece cada vez mais depressa. De resto, talvez por ter mais ou menos a mesma idade e outras afinidades, estou de acordo com ITP, de forma geral.

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  3. jo's avatar
    13 Julho, 2014 15:42

    O mundo era muito mais simples quando só havia bons e os maus. Os bons eram os nossos e tudo o que faziam era automaticamente justificado, os maus eram os outros e tudo o que se lhes fazia era automaticamente justificado.
    A melhor maneira de combater seja o que for, incluindo a maldade, é conhecer-lhe as causas.
    Se lhe serve de consolo Anderson, Grimm e os outros fizeram adaptações de contos populares, parece que se estavam a borrifar para a pureza dos clássicos.

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  4. Já almoçaste!'s avatar
    Já almoçaste! permalink
    13 Julho, 2014 16:56

    Inês Teotónio Pereira é a melhor colunista com trissomia 21.

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    • Sem Norte's avatar
      Sem Norte permalink
      13 Julho, 2014 18:59

      É familiar do “há mais vida para além do deficit”?

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    • PT's avatar
      13 Julho, 2014 23:39

      “Inês Teotónio Pereira é a melhor colunista com trissomia 21.”
      E esse foi o comentário mais imbecil jamais saído duma manjedoura.

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      • Já almoçaste!'s avatar
        Já almoçaste! permalink
        13 Julho, 2014 23:55

        I rest my case.

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  5. Florêncio Nightingale's avatar
    Florêncio Nightingale permalink
    13 Julho, 2014 17:41

    O que dizer da adulteração de clássicos em nome do «politicamente correto»?

    Que FDP são estes que se atrevem a mexer no “Hucklberry Finn”, por exemplo?

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  6. Abre-latas's avatar
    Abre-latas permalink
    14 Julho, 2014 01:36

    Aqui está um caso de mais vale cair em graça do que ser engraçado.
    ITP ou não percebeu o filme da Disney(!) ou tenta moldar o filme à sua tese, que até é válida mas não se aplica ao filme.
    O argumento do filme (brilhante por sinal), mostra uma história alternativa, num estilo parecido com a série “Era uma vez”, a história por traz do mito.
    Torna as personagens que conhecemos desde as nossas infâncias menos mitológicas, com dilemas, fraquezas e qualidades humanas, logo mais interessantes.

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  7. Buiça's avatar
    Buiça permalink
    14 Julho, 2014 04:22

    Apoiado.
    A culpa, a existir, no máximo é “de Bruxelas”!
    E maus só mesmo “os mercados”.

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  8. joao lopes's avatar
    joao lopes permalink
    14 Julho, 2014 13:14

    mais um artigo “encomendado”.ja se sabe que o “observador” com os accionistas que têm ,serve a “causa direitista”.jornalismo isento nao existe.

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    • Sem Norte's avatar
      Sem Norte permalink
      14 Julho, 2014 14:38

      só o do avante, camarada.

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      • joao lopes's avatar
        joao lopes permalink
        14 Julho, 2014 14:43

        isento,so o jornal “expresso”,que o diga a familia espirito santo

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  9. josegcmonteiro's avatar
    14 Julho, 2014 15:44

    O melhor teatro é o observado atrás do palco!

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