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A ler

31 Outubro, 2014

Este texto de Luís Carvalho Rodrigues no Observador: No século XIX, o darwinismo deu à mania uma respeitabilidade nova. Em 1883 Francis Galton, primo de Charles Darwin, cunhou o termo “eugenia”, ou “bem nascido”, para designar “o estudo dos agentes que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações, física ou mentalmente”. Galton entendia que “as forças cegas da selecção natural (…) devem ser substituídas por uma selecção consciente” e que os problemas sociais resultavam da proliferação de gente com características inatas “viciosas” e “degeneradas”. Em 1908, um dos fundadores da Eugenics Society, em Londres, foi Leonard Darwin, filho de Charles Darwin.
Estas ideias serviram, nas primeiras décadas do século XX, para justificar o internamento compulsivo, a esterilização e o extermínio dos deficientes mentais, dos vagabundos e das raças inferiores. E não foram só os nazis a fazê-lo, embora não gostemos de o admitir: todos participámos. Basta deitar os olhos às revistas médicas da época, em qualquer país europeu, para ficarmos elucidados sobre o tema.
A eugenia do século XIX era um ideal das elites. Às pessoas comuns nunca interessou, nem interessa, se a “raça” é saudável ou “degenera”. Não interessam os filhos dos outros, só os próprios. A perda de influência das elites no espaço público ditou uma transformação importante: antes “populacionais”, as ideias eugénicas tornaram-se individuais. E egoístas (se temos cada vez menos filhos e se os temos cada vez mais tarde, não podemos dar-nos ao “luxo” de cometer “erros”).
É por isso que investimos tantos recursos no rastreio pré-natal de doenças raras.
Por outro lado, se há poucas partidas, é importante maximizar as chegadas. Tal como a velha eugenia das elites não visava apenas eliminar os doentes, mas fortalecer e melhorar a “raça” (“contribuir positivamente para a melhoria das características do conjunto populacional”, nas palavras de Galton), também a nova eugenia egoísta usa o diagnóstico genético pré-implantação (que consiste em caracterizar geneticamente os embriões obtidos por fertilização in vitro antes de os implantar no útero), não apenas para identificar e eliminar os embriões defeituosos, mas também para seleccionar embriões “perfeitos”. Os americanos, que nestas coisas andam sempre à frente, já têm clínicas que oferecem aos futuros pais a possibilidade de escolher a cor dos olhos ou do cabelo dos filhos. Até arranjaram um nome para isso: “designer babies”.

18 comentários leave one →
  1. zazie's avatar
  2. zazie's avatar
    31 Outubro, 2014 11:47

    Muito antes, já o Reiser pressentia a coisa:

    http://www.cocanha.com/un-petit-peu-de-reiser-2/

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  3. xico's avatar
    31 Outubro, 2014 11:49

    Continuo a achar que o velho direito de pernada como método eugénico era muito mais divertido.

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  4. Alberto Virella's avatar
    31 Outubro, 2014 12:37

    Não é uma questão de indignação, mas de história da nossa cultura ocidental.
    Não se pode esquecer que já os gregos partilhavam esta teoria e se desfaziam dos recém nascidos defeituosos atirando-os da famosa rocha tarpeia.
    Os esquemas de selecção que hoje rejeitamos, e bem, foram moeda corrente ao longo dos tempos.

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  5. ZDF's avatar
    ZDF permalink
    31 Outubro, 2014 12:42

    Qual o problema de aperfeiçoar a raça e exterminar deformações genéticas?
    Acaso alguém é favorável à espinha bífida? à paramiloidose? à esclerose tuberosa? Se temos recursos para evitar estas doenças horríveis, convém que se faça a separação.

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  6. ZDF's avatar
    ZDF permalink
    31 Outubro, 2014 12:53

    o problema não tem nada que ver com eugenia… o problema é muitíssimo diferente.

    «se temos cada vez menos filhos e se os temos cada vez mais tarde, não podemos dar-nos ao “luxo” de cometer “erros”.»

    Discuta-se porque razão as famílias só conseguem ter filhos em idades que já não correspondem aos melhores anos?

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    • anónimo's avatar
      anónimo permalink
      31 Outubro, 2014 13:23

      se calhar porque o socialismo – economia dirigida, desvio da riqueza privada para o circuito público através dos impostos, Estado como o principal empregador e principal cliente da economia – acabou por ter exito, extinguindo os proletários – aqueles cuja riqueza era apenas a filharada.
      Proletários em sentido etimológico é uma coisa que está a acabar.
      Êxito total do preambulo da Constituição, mportanto.

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    • Vasco Gama's avatar
      Vasco Gama permalink
      31 Outubro, 2014 13:35

      Está um pouco confuso.

      Um filho não é um erro é uma ser humano (as pessoas é que podem fazer erros ou ter ideias erradas, mas é suposto serem livres e responsáveis)). Um filho é gerado por um pai e por uma mãe (independentemente do grau de inimputabilidade que cada um queira assumir para si mesmo).

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      • Luís Marques's avatar
        Luís Marques permalink
        31 Outubro, 2014 15:21

        Mais confuso está o Vasco da Gama, então os filhos com duas mães ou com dois pais? Vou fazer queixa à ILGA.

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  7. vortex's avatar
    vortex permalink
    31 Outubro, 2014 15:33

    por cá o interesse reside nos cães,
    futuro do estado social

    gosto muito de cachorros … quentes

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  8. Gol(pada)'s avatar
    31 Outubro, 2014 16:07

    recebido por mail:
    “DEMOCRACIA”.

    Rita Ferro – A náusea

    A náusea

    Por Rita Ferro

    Conhecem aquele tipo de beatas ou ratas de sacristia, essas matronas que se apoderam das igrejas católicas, mudam as dálias do altar, barricam o acesso aos padres e lhes engomam os paramentos em êxtases ambíguos, destratando os humildes e adiantando-se nas naves para serem as primeiras a comungar, de olhos em alvo e estendendo, papudas, as mãos à hóstia? Essas, precisamente! E sabem por que motivo me enervam mais do que qualquer pecador cristão? É simples: porque não pecam na casa delas, mas na de Jesus.

    Ora bem. É seguindo a mesma lógica que certos socialistas me revoltam mais do que qualquer burguesia exploradora, pelas mentiras, falcatruas e conspiratas que fazem, servindo-se dos clichês humanistas para depois se borrifarem nos pobres, aburguesando-se num crescendo assustador e apoderando-se, um a um, de todos os confortos dos ricos ou do que entendem por «alta sociedade»: o carrito de luxo, a casita com piscina, a contita na Suiça – tudo ambições humanas, mas anãs.

    Ao contrário, a Direita, sendo egoísta, comodista, diletante, individualista – tudo o que quiserem, reconheço – ao menos não mistifica as suas prioridades!

    Em suma: não há partidos, há pessoas, e a ambição é comum às duas margens, já o sabemos. Mas a de alguns socialistas é tão execravelmente hipócrita que acaba por enojar quem, como eu, neta de salazaristas, foi tão pronto a entender a bênção da democracia que chegou a dar-lhes, penitente e escrupuloso, o benefício da dúvida.

    O exemplo começou com o mais emblemático dos paladinos da liberdade e da justiça: El Rei Dom Mário Soares e os seus sucessivos citroëns de luxo, personalizados como um monograma, os tailleurs Chanel da Maria Barroso, talhados no Ayer, e as suas casinhas na cidade, serra e praia, para se aquecerem ou refrescarem consoante as estações do ano – e, finalmente, até uma Fundação para se distraírem na reforma; décadas depois, a coisa refinou: temos o Sócrates a vestir-se por estilistas da Rodeo Drive de Los Angeles, a ministrada anti-fascista a rolar em séries 5, e os quadros estratégicos das empresas públicas a ganharem salários que nem os banqueiros ganham – mete nojo!

    (Atenção: escreve-vos a sobrinha de um Director Geral do Turismo *, casado e com cinco filhos, de rendimento modestíssimo, que, em Abril de 74, foi enjaulado em Caxias como um vulgar delinquente por alegado crime de peculato, por gastar – segundo a grelha da (in)Justiça Revolucionária – «demasiada água do Luso»! Miseráveis: não lhe arranjaram mais nada! E agora digam-me: visitar um tio na prisão por servir garrafas de água, nas funções representativas que ocupava, e ter de encará-lo atrás das grades prostrado pela desonra, para agora ver esta maltosa arrivista em lugares-chave, alguns deles profundamente desconhecedores de maneiras ou protocolo, a jantarem no Eleven e a regarem-se a Chivas?)

    Palavra de honra: antes os políticos comunistas e bloquistas – autistas no seu radicalismo anacrónico e obviamente perigosos num cenário de poder – mas, apesar de tudo, com outra face, outra decência, outra coerência doutrinária!

    E digo-vos mais: nem deveria ser gente como eu, apenas crítica ou sangrando sobre os escombros de uma pátria pilhada e demolida, a revoltar-se, mas os próprios socialistas, honestos e convictos da consistência da sua ideologia, a demarcarem-se, exigindo o afastamento de quem tão gravemente os embaraça, compromete e, por associação, os arrasta para este lodo de troça e de descrédito!

    E só digo mais isto: coitados dos militares de Abril, analfabetos, que alinharam: foram usados! Cravos, sim, mas foi para lhes pregarem as mãos!

    * Engº Álvaro José Ferreira Roquette, meu tio adorado que partiu sem rancores

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    • Cáustico's avatar
      Cáustico permalink
      31 Outubro, 2014 22:59

      “Maltosa arrivista”, maneiras, protocolo, Eleven, Chivas e um título gamado ao Sartre.
      Brutal.
      Ó sodona Rita: ponha Halibut…

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  9. tripeiro's avatar
    tripeiro permalink
    31 Outubro, 2014 17:01

    O rastreio pré-natal de doenças raras ou genéticas é mau???

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  10. Procópio's avatar
    Procópio permalink
    31 Outubro, 2014 17:26

    Rita Ferro sempre na mouche.
    Estes lampiões trazem a vela murcha mas a língua solta mergulhada na aldabrice.
    Apaixonados pelo povo, loucos pelo dinheiro.
    Quanto ao eugenismo, já estive contra. Hoje depois de ver tanto estafermo a dar cabo da vida da gente, pergunto se não teria sido bom neutraliza-los ao nascer. Sou contra os designer babies, façam-nos o favor de eliminar os preversos. Tenham as sequências genéticas o rigor suficiente para permitir a deteção dos safardanas, porque não?

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    • Cáustico's avatar
      Cáustico permalink
      31 Outubro, 2014 23:13

      Ah! Os safardanas, como os odeio. Era giro ter um método para os matar ainda no ventre materno. Ou, melhor, quando ainda estivessem nos túbaros do avô.
      Relaxe, Procópio, o gene da safardanice já está identificado. Tem o formato de uma foice cruzada com um martelo. Ao longe parece um punho (ou uma rosa?).
      Mas é um gene dominante, o que é uma chatice. Assim como a sua eloquência argumentativa, ao nível dessa “Booker Prize” dos cupcakes.

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  11. dona's avatar
    dona permalink
    1 Novembro, 2014 13:38

    Entretanto, mães e pais há que carregam para a vida crianças vegetais à nascença e tornadas adultas, pesadas, ao passo dos anos, numa vida de esgar inteiro, a somar a velhos e velhas, quais emplastros, ao poder dos anos. E governos belicistas, incrementadores de nazifascistas, não movem uma palha, não investem na eutanásia, compassivos …

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  12. josé FERREIRA DA SILVA's avatar
    josé FERREIRA DA SILVA permalink
    3 Novembro, 2014 09:16

    A grande “limpeza socio_genetica” veio com a partir de 1950 com a massificação da pilula .
    As crianças não desejadas eram das classes baixas e onde se encontravam mais criminosos . A pilula limpou isso . As classes com mais posses na Europa central continuaram a ter 3 e 4 filhos por casal .

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