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Teriam gostado de o conhecer

8 Fevereiro, 2015

Quando acabava de escrever para o Observador  passei os olhos pelas últimas notícias. Foi então que li “Morreu o cientista político Manuel de Lucena”. Lembrei-me quase imediatamente da última vez que falámos: “Sou um pagador de textos” disse-me após enumerar tudo o que tinha entre mãos e que não teria tempo para terminar mesmo que já escrevesse em computador ou pelo menos à máquina e vivesse mais meio século.

Contactei tardia e brevemente com o Manuel Lucena. Reconheço-o no retrato que dele fazem aqueles que definia como seus amigos e de quem gostava de falar aos conhecidos mais fugazes, como era o meu caso. Era de facto livre pelo seu desprendimento material – “O Manuel é a única pessoa não pressionável que conheço: não quer cargos, não precisa de mais do que tem…” dizia-me alguém a quem eu confessava o meu desespero por um texto que o Manuel ficara de mandar e que ainda nem sequer fora para a dactilógrafa. (Pedir-lhe um artigo implicava estar preparado para receber muito atrasado um texto várias vezes maior que o combinado e também contactar uma determinada dactilógrafa que ele garantia decifrar-lhe a letra). Mas o Manuel Lucena era também livre porque não se deixava agarrar pelo azedume. Era desarmante na sua sinceridade e desconcertante na forma com se expunha, indiferente aos julgamentos sociais.

Mas aquilo que me fez escrever sobre o Manuel Lucena não foi tanto descrevê-lo (outros o conheceram muito melhor) mas sim algo que a sua morte me tornou ainda mais evidente: não há tempo para ouvir. Tudo tem de ser resumido, tudo tem de ter um soundbite, tudo tem de passar por um antagonismo. Não há mediaticamente falando espaço para um discurso como o do Manuel Lucena que vale pela sua inteligência e singularidade. No meio de tanta comunicação perdeu-se a capacidade de conversar. Tenho pena que o Manuel Lucena tenha morrido mas a pena que aqui quero deixar registada é a de que para muitos portugueses ele seja um desconhecido. Acreditem, teriam gostado de o conhecer e tal como aconteceu com quem se cruzou com ele ter-se-iam esquecido do tempo, do parquímetro e do telemóvel que não parava de chamar, enquanto o ouviam num raciocínio que o podia levar de Santa Teresa de Ávila aos grémios ou a África.

4 comentários leave one →
  1. MJRB's avatar
    8 Fevereiro, 2015 15:06

    Manuel de Lucena sempre a reler e relembrar.

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  2. fado alexandrino's avatar
    8 Fevereiro, 2015 16:41

    Mau dia para morrer.
    As TV’s hoje estão centradas no derby, se lhe derem cinco segundo é uma sorte.

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  3. manuel branco's avatar
    manuel branco permalink
    9 Fevereiro, 2015 00:13

    Apenas um nome. durante algum tempo pareceu ser mais. Foi pouco. Terá missa, terá elogios e será esquecido. Como todos nos.

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  4. nuno granja's avatar
    nuno granja permalink
    9 Fevereiro, 2015 09:22

    Mal sabia quem era mas pelos textos da Helena Matos a António Barreto passando por Guilherme de Oliveira Martins, seria alguém com muita qualidades. PSA.

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