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Pensões e desigualdade

2 Junho, 2015

Um argumento muito frequente, defendido por norma por pessoas de esquerda, a propósito da Segurança Social: “Não se pode cortar pensões a pagamento porque os reformados até estão a sustentar filhos e netos desempregados”.

Involuntariamente este argumento revela alguns problemas da sociedade portuguesa e da sua economia. Embora todos digam que querem combater a desigualdade, ela é subtilmente perpetuada politicamente por protecção de uma classe média alta abrigada no Estado. A maioria da população não tem avôs que lhes paguem uma mesada pelo simples facto de que a maioria dos avôs tem pensões baixas ou mesmo muito baixas. Salvo raras excepções, quem trabalhou no sector privado não teve a reformas generosas, e esses são a maioria esmagadora dos reformados.

As pensões a pagamento que seriam alvo de corte seriam pensões altas, bastante mais altas que o salário médio de quem trabalha.Ou seja, trabalhadores que ganham 800 euros por mês contribuem para pagar pensões que nunca terão de 1500 ou 2000 euros.

As pensões a cortar seriam também pensões que se formaram graças à preponderância política dos sindicatos da função pública, que ao longo dos anos defenderam a minoria rica da população. No entanto, o Tribunal Constitucional entende que estas pensões não podem ser cortadas, o que força a população trabalhadora a alimentar um conjunto de Donos Disto Tudo que nada fizeram para merecer as pensões que têm.

Portanto, a ideia de que não se pode cortar pensões a pagamento perpetua uma desigualdade com origem no poder de um pequeno grupo sobre o resto da população. A emigração jovem não é alheia ao sistema de segurança social que temos. O peso das pensões na economia é demasiado elevado, inibindo o trabalho e o investimento. Para um jovem com ambições a melhor saída é emigrar para um país onde existam mais oportunidades e menos direito adquiridos.

22 comentários leave one →
  1. Procópio's avatar
    Procópio permalink
    2 Junho, 2015 15:18

    A conclusão é evidente.
    Até eu, candidato a PR e só por isso, já dá para desconfiar das minhas faculdades, concordo com o João Miranda.
    Perguntarão, então como é que postas em causa as minhas faculdades posso ter a lata de me apresentar a candidato a PR? Boa pergunta.
    Será que, na actual situação, haverá alguém que se candidate, com a cabeça no lugar?
    Ter vindo ao mundo um bocado destituído vai impedir a minha popularidade?
    De modo algum.
    Eu digo e repito,
    Tendo ao meu dispôr os apoios certos,
    A maquilhagem adequada,
    Uma tendência para o “ai que nem posso!”
    Explicitando clara e rigorosamente, o rigor acima de tudo, a minha devoção pelo “nosso povo”.
    Eu posso chegar lá.
    Não me perdoariam se não conseguisse pôr toda a gente de acordo, até a zazie.
    O que importa é a vontade coletiva, estar ao serviço dos outros.
    Aconteça o que acontecer eu estarei à altura das circunstâncias e essa coisa toda.
    Com veem já estou bem embalado.
    As pensões e a desigualdade logo se verá.
    Por mim as pensões devem ser abastadas e a desigualdade combatida a todo o preço.
    Prontos! Em caso de dúvidas encomenda-se um economista do iscte, um boaventura inspirado e já está. Reparem na minha dextreza.
    Só pretendo estar na presidência 5 aninhos, até perfazer os 40, para depois poder surfar.
    Quem vier atrás de mim que feche a porta, escolha o DJ que quiser, plante as flores que entender no jardim e aqueça a água da piscina.

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  2. Olho Vivo's avatar
    Olho Vivo permalink
    2 Junho, 2015 15:24

    E o contrato que os funcionários públicos fizeram com o Estado não conta? É para rasgar? Eu sei que este governo não é gente séria, mas então devolvam-lhes o dinheiro que pagaram a mais, para a reforma.
    Não tarda nada estou a vê-lo a defender os cortes nos juros dos Títulos de Tesouro onde pessoas bem intencionadas investiram as suas poupanças, a troco de juros certos, porque confiaram no Estado. Ah, pois, já me esquecia… este governo não é formado por pessoas de bem.

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    • micas's avatar
      micas permalink
      2 Junho, 2015 16:26

      Deviam fazer as contas às carreiras contributivas dos actuais pensionistas e ajustar as pensões. As novas gerações não podem estar a pagar tanto e depois no final receberem de pensão menos de 50% do ordenado

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    • murphy's avatar
      murphy permalink
      2 Junho, 2015 16:34

      “devolvam-lhes o dinheiro que pagaram a mais, para a reforma.”, que exemplificar?

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      • Nuno's avatar
        Nuno permalink
        2 Junho, 2015 17:00

        Há pessoas que não se enxergam.

        Acreditam mesmo que é possível com 35 anos a descontar 15% do ordenado, pagar durante 15 ou 20 anos 80%+ do último ordenado mais a ADSE para eles e para os conjuges, porque foi esse o “contrato” que fizeram.

        Mas acho muito bem a proposta. Soma-se tudo o que descontaram, actualiza-se à inflação, dá-se-lhes tudo duma vez e diz-se agora vá para a fila da SS pedir RSI+CSI. Acabava-se rapidamente com esta ladaínha idiota do “eu descontei a vida toda para a pensão”.

        Não, não descontou. Se ganha mais do que a média de 40 anos de descontos, não descontou o suficiente. Se se reformou antes dos 65, não descontou o suficiente. Se recebe pensão de sobrevivência, não descontou o suficiente. Se recebe mais de 1500€ de pensão, o país onde 95% da população activa ganha menos que isso, não tem dinheiro para ‘solidariamente’ lhe pagar a pensão.

        Mentiram-lhe durante décadas. Como lhe mentiram, como foi enganado, o país todo está a fazer um esforço hercúleo por lhe cortar o mínimo possível. Porque ninguém quer ir tirar dinheiro ao velhinho que fomos ensinados a ajudar a atravesar a rua. Mas há limites para a boa vontade. Porque todo o bicho careta que ganha o ordenado mínimo a vender hamburgueres no McDonalds leva 450€ para casa depois de contribuir 180€ para a sua pensão e 180€ não chegam.

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    • Luís Marques's avatar
      Luís Marques permalink
      2 Junho, 2015 17:00

      Os funcionários públicos pagaram a mais? Homessa, donde tirou essa ideia? Todos os anos vai dinheiro do OGE para a CGA, é evidente que o que os funcionários públicos descontam não é suficiente para pagar as reformas dos que já não trabalham, vai-se buscar dinheiro ao resto da economia.
      Tem a certeza que é sério? Pessoa de bem?

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    • Fernando S's avatar
      Fernando S permalink
      2 Junho, 2015 17:18

      “E o contrato que os funcionários públicos fizeram com o Estado não conta?”

      Não houve nem hah nenhum contrato que estipule à partida o valor ou sequer o método de calculo da reforma a receber.
      O unico compromisso, com todos aqueles que são abrangidos pelo sistema de pensões, isto é, toda a gente, os que descontam e os que não descontam, é o de que cada um tem uma reforma e que o valor desta serah na altura calculado em função dos critérios que forem sendo politicamente decididos pelos governos em funções.
      Durante muitos anos os critérios foram sendo cada vez mais abrangentes e generosos, com valores pagos em geral bastante superiores aos descontos acumulados pelos beneficiarios.
      Até que se começou finalmente a perceber que o sistema pesa excessivamente sobre os contribuintes actuais, sobre o orçamento do Estado e sobre a economia em geral.
      Agora é urgente fazer marcha atras, redimensionar os valores, restabelecer algum equilibrio, salvaguardar a sustentabilidade futura do sistema de modo a que os futuros pensionistas também possam receber uma pensão e que esta não seja significativamente inferior às actuais.
      O compromisso vale para toda a gente !!

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    • Zé dos Bois's avatar
      Zé dos Bois permalink
      2 Junho, 2015 20:56

      E os contratos que as PPPs fizeram com o estado? São para rasgar ou são para manter por mais iníquos que sejam?

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    • Eleutério Viegas's avatar
      Eleutério Viegas permalink
      2 Junho, 2015 21:39

      Os fps que se vão f… Penduras!

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  3. Baptista da Silva's avatar
    Baptista da Silva permalink
    2 Junho, 2015 16:45

    Os Juizes do TC julgam em causa própria, eles lá iriam cortar na própria pensão deles????

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  4. Ruca's avatar
    Ruca permalink
    2 Junho, 2015 18:15

    Concordo em quase tudo com o JoãoMiranda. Acredito, inclusive, que existam desigualdades entre os próprios reformados. Quem se reforma actualmente não recebe o mesmo do que quem se reformou à 10 anos. Custa-me ver que muitas vezes as pensões atribuídas em nada correspondem às carreiras contributivas.

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  5. MJRB's avatar
    2 Junho, 2015 18:28

    Ora aí está, Miguel Cadilhe, a colocar a questão: “porque há-de o Estado cortar pensões e…por exemplo não noutras funções e serviços públicos ?” — in SAPO.

    Tal como eu tenho notado, aonde está a Reforma do Estado –isso sim, necessária!!– pedida pelo governo ao irrevogável Portas ?

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    • mg's avatar
      2 Junho, 2015 19:54

      Obg por me esclarecer que a segurança social não faz parte do estado …

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  6. MJRB's avatar
    2 Junho, 2015 18:38

    MLAlbuquerque deu grande, calibrado e fatal tiro na candidatura da coligação P”SD”-C”DS” ao dizer que muito possivelmente o próximo governo teria de de cortar nas pensões…
    (O P”S” agradeceu).

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  7. fado alexandrino's avatar
    2 Junho, 2015 18:39

    Continua o folhetim pensões.
    Em relação à minha que na verdade é generosa, descontei balúrdios.
    Dirão, mas já esgotaste o que armazenaste.
    Concordo.
    Portanto a solução que apresento é deixarem de subsidiar a Fundação Mário Soares, mais a Fundação da Esposa, mais as regalias que dão a todos os ex-presidentes como se ter sido presidente fosse um cargo para toda a vida, mais os subsídios de quinhentos mil euros a cineastas para fazerem filmes.
    E com isso já posso viver até aos quinhentos anos.
    Deixem de chatear os reformados ricos.
    Vão chatear o Camões.

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    • Almeida's avatar
      Almeida permalink
      2 Junho, 2015 21:07

      Lamento, mas você não é um “reformado rico”. Os que o são, não assumem, nem precisam da Seg. Social para nada.

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      • fado alexandrino's avatar
        2 Junho, 2015 21:30

        Obrigado.
        Para o senhor JoaoMiranda et al sou.
        Certamente que ele não pensa apenas no senhor Doutor Jorge Sampaio ou no senhor “Doutor” Manuel Alegre.

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  8. Tiro ao Alvo's avatar
    Tiro ao Alvo permalink
    2 Junho, 2015 18:51

    O seu argumento colhe essencialmente para os reformados da função pública, sobretudo para os que se reformaram com uma pensão indexada ao último ordenado – à volta dos 80% e alguns 100%. Para os reformados do sector privado a sua argumentação não colhe. E não colhe por que, efectivamente, houve um contrato com o Estado.
    Repare que esses, os privados, pagaram, em conjunto com a entidade patronal, mais de 30% dos seus proveitos profissionais, sem qualquer limite superior. E assim sendo, e assim foi, o Estado embolsou chorudas contribuições e agora não quer pagar as pensões correspondentes a esses descontos? O que fizeram a esses dinheiros? Concordará que isso é um roubo.
    Outro galo cantaria, se o Estado tivesse estabelecido um limite para os descontos, deixando ao contribuinte com salários mais elevados, a decisão de fazerem, ou não, um seguro ou um depósito poupança-reforma, com os dinheiros que pouparia se esse limite esse estabelecido. Que era o que o Estado devia ter feito, mas não fez.

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  9. Almeida's avatar
    Almeida permalink
    2 Junho, 2015 21:05

    Tanto disparate, João Miranda. Em que país é que você vive? Que interesse há nesse ódio aos trabalhadores da função pública? Por que motivo não avança uma única ideia para reformar a Seg. Social? Ao fim e ao cabo, você limita-se a dar força à imbecilidade reinante de limitar a reforma a cortes e mais cortes.
    Eu que sou da geração que, pelo andar da carruagem, não vai ter nadinha e da Função Pública só conheço os serviços que uso, digo-lhe que, enquanto nos limitarmos às tretas dos cortes, alimentamos um monstro que se vai virar contra a maioria dos portugueses (privados ou públicos). Já agora, se sair da frente do computador talvez perceba que não é “rica” a esmagadora maioria dos avós que têm filhos e netos a cargo (se fossem, não precisavam de o assumir como se fez neste país durante séculos); talvez perceba que há reformas do privado superiores (muito!) às reformas do sector público (aí, o problema é a massa global e não o montante individual) e que aqueles que andam tão “preocupados” na política do corte, foram os mesmos que usaram os fundos da Seg. Social como se de um saco azul se tratasse. E alguém sabe onde pára o dinheiro do fundo dos bancários?

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  10. Me's avatar
    2 Junho, 2015 23:53

    o\a jovem tb pode ficar por aqui e viver a nossa pala tranquilamente. ainda ontem vi numa reportagem jovens coitadinhos , todos de maço de tabaco na mao , a repetir a historia de vida , mais virgula menos virgula , dos pais . e sempre de maço de tabaco na mao ,4 ou 5 euros ,ne ?

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  11. licas's avatar
    licas permalink
    3 Junho, 2015 06:10

    É só fazer as contas, e eu já fiz.
    Sob condição de 40 anos a descontar e esse dinheiro ser emprestado a 4-5 % de juros ao ano, o processo é lindamente sustentável, sem quaisquer “cortes” . De outra forma: IMPOSSÌVEL . . .
    Seus grandecíssimos nabos: o problema real é o desemprego . . .
    (esquecem-se que há uma figura chamada juros compostos ?)
    Parece que os nossos governantes nunca pensaram nisto, INCRÌVEL!

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