Sindicatos
Descobri à minha custa que a qualidade de sindicalizado (ou de não sindicalizado) tem implicações bem mais vastas e profundas do que tem, por exemplo, pertencer, ou não, a um clube de futebol ou ao Grémio Literário. Vou dar um exemplo prático. Um médico que trabalhe em hospital do Estado e pretenda acumular com uma organização privada está obrigado por lei a informar o hospital e solicitar a devida autorização. Inteiramente razoável: qualquer organização gosta de saber o que o pessoal a quem paga anda a fazer por fora. Mas é aqui que começa o problema. Não há um só pedido de autorização. Há dois: um para médicos sindicalizados e outro para os outros. Ao médico sindicalizado basta declarar (por sua honra) que as funções privadas que pretende exercer não são incompatíveis com as funções hospitalares nem violam as regras gerais de acumulação de funções. Aos médicos não sindicalizados, exige-se-lhes que digam onde trabalham, o horário que praticam e quanto ganham. E a sua palavra não basta: é-lhes exigido que apresentem declaração autenticada da entidade empregadora, a confirmar os factos. Em suma: o pessoal dos sindicatos é gente de bem; os outros, não.
Outro exemplo? Os médicos com contratos individuais de trabalho que são sindicalizados recebem mais pelas horas extraordinárias. São os sindicatos que negoceiam e impõem estas condições. Sem se preocuparem com as desigualdades que daí resultam para o trabalho que se faz e o salário que se recebe. São estas histórias menores que melhor ilustram o espírito ferozmente corporativo dos sindicatos. E que nos ajudam a perceber melhor as razões por que, com tantos problemas a afligirem neste momento os hospitais (devido ao aperto orçamental), se não ouça um só protesto dos mesmos sindicatos que, há dois anos, rasgavam as vestes e carpiam na praça pública a morte anunciada do SNS. Quem trabalha nos hospitais já sabe há algum tempo que o dinheiro para compras escasseia e que o serviço começa a ressentir-se. E todos sabem que isso resulta da reposição acelerada dos cortes salariais. Mas nenhum sindicato admitirá que a reposição criou problemas orçamentais, nem que esses problemas atingem directamente quem nada tem a ver com isso: os fornecedores, tornados mais uma vez financiadores do SNS, e os doentes. Qualquer um deles está capaz de afirmar que “no pasa nada

“Descobri à minha custa que a qualidade de sindicalizado (ou de não sindicalizado) tem implicações bem mais vastas e profundas do que tem, por exemplo, pertencer, ou não, a um clube de futebol ou ao Grémio Literário.”
Bastava ler o código do trabalho para perceber isso – salvo os casos em que há uma portaria de extensão (portarias essas que imagino que não seja apreciadas no Observador nem no blasfémias), os acordos coletivos de trabalho só se aplicam aos trabalhadores filiados nos sindicatos que assinaram esse acordo, logo claro que haverá diferenças entre ser e não ser sindicalizado (ou, já agora, entre ser sindicalizado num sindicato que assinou o acordo e num que não assinou).
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Pertencer a um sindicato é outro nível….
Se eu for adepto do Benfica, e seu não seu sócio ou associado , também não terei certas regalias que estes últimos têm.
É de instituições de que falamos. Ambas respeitáveis e credíveis.
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Gente trafulha há em todos os lados.
Os Aresfeios não se esgotam nos sócios dos clubes
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1975
A União Soviética
Por interposta entidade
Desprezou a dialética
E do murro fez vontade:
Foi à bruta sem pudor
Sua arma, seu pendor.
Atacam propriedade,
Matam, queimam tudo a eito,
Não esperem piedade
Que p´ra tal não têm jeito:
Faccioso assim procede
Nada mesmo o impede.
À espera d´ocasião
Fazem-se desentendidos
Para voltar à acção
Se ficarmos esquecidos
Desses tempos seminais
De tão funestos sinais.
licas fecit
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Corrigenda
Onde se lê:
“São estas histórias menores que melhor ilustram o espírito ferozmente corporativo dos
sindicatos”
Deverá ler-se
São estas histórias menores que melhor ilustram o espírito ferozmente vigarista e oportunista dos sindicatos
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Helena, sempre foi assim o sindicalismo (nos EUA por ex.). E sempre deve ser assim para não tornar a corporação poderosa demais-o que acontece em Portugal, que um partido minoritário e decadente consegue o poder que os capangas da Inter têm.
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