Estado de emergência – in memoriam
Passam hoje seis anos desde que Portugal entrou no primeiro estado de emergência a pretexto da Covid 19. Tempo mais do que suficiente para exigir memória, verdade e, acima de tudo, juízo moral.
Aquilo a que chamaram “medidas covid” foi um colapso civilizacional em câmara lenta, uma experiência de poder, um teste de obediência.
Disseram-nos que era por duas semanas; era para achatar a curva; que era pela ciência.
E, no fim, tivemos confinamentos sem precedentes, escolas encerradas, idosos isolados, crianças mascaradas, negócios destruídos, culto da denúncia, censura social e uma grotesca divisão entre cidadãos obedientes e outros vistos como suspeitos e perigosos.
A grande mentira que nos contaram foi a de que toda a sociedade enfrentava o mesmo risco e, por isso, devia suportar a mesma amputação de liberdade. Não era verdade e nunca o foi. Desde cedo se sabia que o risco era fortemente desigual, concentrado sobretudo nos mais velhos e mais frágeis. Mas preferiu-se a propaganda da uniformidade ao dever da discriminação racional. Preferiu-se a histeria moral à prudência clínica. Preferiu-se o teatro político à proporcionalidade.
A grande ilusão foi outra: a de que o Estado, se tiver poder suficiente, pode abolir o risco da condição humana. E essa é a fantasia mais perigosa de todas. Porque quando uma sociedade entrega ao Estado a missão impossível de nos livrar de todo o perigo, acaba inevitavelmente por lhe entregar também o poder de vigiar, proibir, fechar, segregar e humilhar.
Foi isso que aconteceu.
Quem discordava era “negacionista”, “chalupa”, “inimigo do bem comum”. Quem recusava a liturgia sanitária era tratado como um herege. Houve um moralismo sádico, uma bufaria repugnante, um prazer obsceno em excluir, calar e punir.
A ciência virou dogma e a saúde pública traduziu-se na perseguição dos desalinhados.
Hoje o fracasso das intervenções compulsórias, o dano social dos confinamentos e o carácter autoritário dos mandatos e passaportes sanitários vão sendo percebidos e tornam-se cada vez mais evidentes. No entanto, em Portugal, quase ninguém pediu desculpa nem reconheceu a escala do abuso. Receio que se tenha normalizado consciente ou inconscientemente a suspensão liberdades em nome de um qualquer pânico colectivo.
O verdadeiro vírus daqueles anos foi o vírus do medo instrumentalizado pelo poder e da rapidez com que aceitámos viver manietados.
E essa epidemia só se derrota com coragem, memória e amor à liberdade.
A minha crónica-vídeo de hoje, aqui:

