Revisão constitucional de Passos Coelho

A revisão constitucional de Passos Coelho é uma mera adequação do texto constitucional à realidade.
Os co-pagamentos na saúde já existem. Chamam-se seguros de saúde. O sistema nacional de saúde já não é universal. Pelos mais diversos motivos, uma fracção significativa da população vê-se forçada a recorrer a prestadores privados de saúde pagando do seu próprio bolso, directamente ou através de seguros.

A rede de ensino básico e secundário já não responde às necessidades de toda a população, pelo que não faz sentido que a constituição diga que deve responder. Uma fracção significativa da população vê-se forçada a recorrer a escolas privadas. As públicas não respondem às necessidades nos casos em que as necessidades vão para alem da mera frequências de um estabelecimento de ensino. Se o objectivo for, por exemplo aprnder alguma coisa, é difícil encontrar uma escola pública que preste esse serviço. Em breve as universidades também deixarão de fazer aquilo que a constituição espera delas. Ou se financiam de outra forma ou deixam de ser instituições de ensino superior e passam a ser uma espécie de ensino secundário um bocadito mais avançado.

Os despedimento sem justa causa já se fazem há anos. É para isso que servem os contratos a prazo, os recibos verdes, os despedimentos colectivos, o trabalho informal, a externalização de serviços e as falências. Mas o melhor substituto para o despedimento sem justa causa é a não contratação. A não contratação permite ao empresário despedir antes mesmo de contratar.

8 Comentários

  1. Posted 15 Setembro, 2010 at 09:43 | Permalink

    Não me interessa muito discutir a questão de fundo, mas apenas a forma porque é disso que agora se trata.

    A mensagem que o PSD transmite, com esta proposta política, pode ser muito válida e realista e mesmo a tal “adequação da realidade à Constituição”.

    Não obstante, tudo isso para a ser de importância nula se essa mensagem for deturpada com sucesso demagógico. Explico:
    O PS pela voz do hirsuto Assis já declarou que o PSD quer acabar com o Estado Social. Isso é falso? Importa nada que o seja porque a mensagem que conta e que valerá votos é a ideia geral que tal transmite. Uma ideia politicamente assassina, mas eficaz.

    Pudera que haja habilidade política para desmontar estes atentados políticos correntes. Mas duvido.

  2. Posted 15 Setembro, 2010 at 10:03 | Permalink

    Sendo totalmente contra a ideia de legitimar o assassínio do SNS por parte do PSD sou também contra a mentira que o PS nos impinge… Mata-o mas dizendo que está a protegê-lo…

    Qual mãe que chora pela morte do filho que acabou de sufocar com a almofada…

    http://saudeeportugal.blogspot.com

  3. António Carlos
    Posted 15 Setembro, 2010 at 10:38 | Permalink

    A questão que se coloca é a seguinte (e não é original): Se a actual Constituição já permite esta realidade, e partindo do pressuposto que esta realidade se desenrola de forma legal, então porquê mudá-la, onde está o entrave? Penso que não deve ser esta a principal linha de defesa das mudanças na Constituição (com as quais genericamente concordo).

  4. JoaoMiranda
    Posted 15 Setembro, 2010 at 10:54 | Permalink

    António Carlos,

    A constituição permite formas enviezadas de despedir, por exemplo. Mas não permite leis que tornem o mercado de trabalho simples, flexível, previsível e transparente. Precisamente porque se vive na ficção de que não é possível despedir, o que leva os agentes económicos a contornar a lei prejudicando toda a gente. Perante as dificuldades em despedir, os agentes económicos preferem não contratar ou contratar sob formas contratuais desadequadas às funções. E isso não é bom para ninguém.

  5. Fernando Costa
    Posted 15 Setembro, 2010 at 10:57 | Permalink

    Só mais uma achega sobre a saúde:
    A comparticipação diferenciada nas despesas da saúde também já existe há muito:
    Os utentes mais carenciados não pagam taxas moderadoras. Também não pagam medicamentos genéricos se tiverem um rendimento inferior a 500€ mensais.
    Claro que isto vai contra os princípios dos Drs Arnaut, Alegre & Cia, mas são objecto de uma amnésia selectiva uma vez que são iniciativa do PS.
    FC

  6. gui
    Posted 15 Setembro, 2010 at 11:45 | Permalink

    Para o PSD seria muito bom se Passos Coelho estivesse calado.
    Bem poderia seguir o exemplo eficaz do histórico líder do seu partido e dizer apenas coisas como “o presidente dum partido na oposição não se pronuncia”, “não concordo mas promulgo, digo, voto a favor”, “só falarei quando achar oprtuno” e assim por diante.
    Assim não. Quanto mais fala mais se enterra.

  7. lucklucky
    Posted 15 Setembro, 2010 at 11:48 | Permalink

    “…deixam de ser instituições de ensino superior e passam a ser uma espécie de ensino secundário um bocadito mais avançado…”

    Já o são, conheço pelo menos uma desde o fim do Séc.XX nessas condições.

  8. José Sá
    Posted 15 Setembro, 2010 at 22:00 | Permalink

    “Mas não permite leis que tornem o mercado de trabalho simples, flexível, previsível e transparente. ”

    Gostava de saber dois ou três motivos de despedimento que a actual constituição impede e que com a nova redacção de “razão atendivel” já permite?


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