Os cavalos libertaram-se. Os nossos filhos ainda não*
Não sei quantos portugueses conheceram a cooperativa chinesa de Tatchai mas a verdade é que lhe foi dedicada uma exposição no que devia ter sido a Feira Nacional do Cavalo, de 1974, na Golegã. Nesse ano, as coudelarias foram proibidas de apresentar qualquer sinal exterior que as distinguisse umas das outras e para ilustrar as maravilhas da igualdade lá estava a exposição sobre a comuna de Tatchai. Mais ou menos pela mesma época em que os equídeos ribatejanos eram iniciados nas vantagens do igualitarismo através dos ensinamentos da comuna de Tatchai, escreviam-se livros e livros sobre a escola igualitária, a escola lúdica e a morte da escola burguesa. Tatchai é precisamente uma das referências utilizadas pelos pedagogos dos anos 70 quando pretendiam ilustrar a forma como a República Popular da China levara mais longe que qualquer outro país a eliminação das diferenças entre as escolas frequentadas pelos filhos dos burgueses e pelos filhos dos operários. Contudo nem em Tatchai infelizmente se conseguira instalar o absoluto igualitarismo pois como explicava, em 1977, numa revista da UNESCO, o agrónomo e grande teorizador da escola não burguesa e da anti-globalização, René Dumont, na região de Tatchai ele bem vira, num estaleiro, como os camponeses eram mais produtivos que os quadros técnicos. Diga-se em abono da verdade que, em 1977, já os cavalos portugueses tinham conseguido libertar-se das teses da comuna de Tatchai e as coudelarias surgiam devidamente identificadas na feira que nesse ano, na Golegã, voltou a ser dedicada ao cavalo. Infelizmente na pedagogia os ensinamentos de Tatchai têm sido constantemente reactualizados: não só o igualitarismo permanece como dogma como o próprio ministério da Educação se concebe à imagem de um grande timoneiro que fez da escola o espaço de aplicação das suas teses de experimentalismo social. Em nome da igualdade acaba-se com o ensino artístico, diminui-se o peso das disciplinas associadas à transmissão de conhecimentos, como as línguas ou a matemática, e aumenta-se a carga das actividades doutrinárias como a área de projecto. Se no final os resultados dos exames e provas não são os anunciados alteram-se as regras. O ensino público obrigatório tornou-se uma gigantesca máquina de propaganda. Os eleitos do sistema conseguem de facto viver na e da propaganda mas são os primeiros a falhar no confronto com a realidade: os professores que gozam de destacamentos que os levam para a burocracia ministerial ou para experiências pedagógicas simpáticas e tranquilas como o Parlamento Europeu dos Jovens, quando regressam às escolas, como aconteceu no Carolina Michaelis, acabam a não resistir. A outra saída possível é pela porta da baixa sobretudo da baixa psiquiátrica: as depressões tornaram-se a forma mais fácil e rápida de os professores evitarem os problemas que, em boa verdade, também não têm poderes para resolver. É preciso que se note que os professores, os funcionários e as instalações das escolas privadas não são, em média, melhores que as das públicas. Os alunos também não e convém repetir este dado pois agora, para justificar o falhanço da ‘pedagogia Tatchai’, procura atirar-se com as culpas do desastre para cima dos filhos do povo, em nome do qual as élites fizeram precisamente muitas das alterações que mais degradaram a escola. Acrescente-se ainda que cada aluno, no ensino obrigatório público, custa aos portugueses em média cinco mil euros por ano. O mesmo que se pagava num bom colégio antes do descalabro do ensino público ter feito crescer as mensalidades e as listas de espera nos privados.Porque são então melhores os resultados do ensino privado? E sobretudo porque razão os casos graves de indisciplina só parecem acontecer nas escolas públicas? Pela simples razão que no privado, onde todos estes problemas também surgem, quem dirige as escolas tem poder para evitar que se repitam. Castigar um aluno numa escola pública é um romance aburdo-administrativo mas ainda é um romance maior castigar um professor. Por exemplo, em 2005, um professor colocado na zona de Gondomar foi acusado pelo Ministério Público de ter abusado sexualmente de algumas alunas, com idades compreendidas entre os 13 e os 16 anos. No ano lectivo 2007/2008 o mesmo professor foi colocado na mesma escola pois o docente ainda não foi julgado logo o seu registo criminal está limpo: “até o tribunal tomar uma decisão a DREN não tem qualquer poder” – explica a directora regional de Educação, propósito deste caso. A justiça é uma coisa a escola é outra. As escolas públicas, tal como as privadas, têm de ter poder para contratar, despedir, castigar e organizar-se. Não faz sentido que dependam dum concurso nacional para terem professores e muito menos que, como acontece neste caso, estejam pendentes duma alteração dum registo criminal.
O Ministério da Educação é uma espécie de museu vivo do tempo em que Tatchai, seja lá isso onde for, funcionava como uma luz inspiradora para os equídeos (e quiçá também para os asinos e muares) e para os teóricos da pedagogia. Portugueses e não só. O resultado foi sempre desastroso.
*PÚBLICO, 1 de Abril

Este artigo tem o seu interesse, mas é apenas a abordagem a um aspecto, quiçá periférico, do problema. A igualdade como leit-motiv, no ensino público, nunca existiu, tal como o fascismo.
Em 1981-83, fui professor. Nessa altura, ainda havia resquícios de autoridade, com poder suficiente para intervenção em casos de indisciplina.
E o Código Penal ainda era o de 1886, com as reformas advindas em 74-75, mas poucas, muito poucas. O de Processo Penal ainda era o de 1929, com algumas reformas dos anos 40 e também as de 74-75.
Portanto, o discurso igualitarista, já tinha passado, em 1981, para o da manutenção dos privilégios constitucionais que a Esquerda conquistou em 1976, mas que não eram apenas esses.
O verdadeiro problema do ensino começou uns anos depois disso, parece-me.
Para mim, diletante destas coisas, começou com a massificação na formação de professores e na adopção de programas facilitadores de aprendizagem.
Quem os fez? Quem os programou? Melhor ainda: quem os pensou em primeiro lugar?
São essas as questões que me ocupam a curiosidade.
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Foi a concorrencia das privadas.. era tudo a mudar para lá para ter melhores notas.
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ah.. e esse professor de Gondomar, por acaso nao dá aulas na escola privada?
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Creio que nao fazem a mínima ideia do que se ensina nas escolas. Devem andar convencidos que é o eduques.
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A questão é precisamente essa: «esse professor de Gondomar, por acaso nao dá aulas na escola privada?»
casos de violações, agressões de alunos a professores e funcionários, péssimos professores e funcionários também existem no ensino privado.
Acontece que no ensino privado os prevaricadores são muito mais facilmente punidos porque se teme que os alunos troquem aquela escola por outra.
A questão não é que existam escolas públicas ou privadas que funcionem em auto-gestão, outras inspiradas no modelo da escola da Ponte, outras onde as criancinhas em nome do multiculturalismo têm aulas de crioulo e aquelas onde fazem ditados e são obrigados a varrer o pátio quando estão de castigo.
O que é importante é que as famílias possam escolher o modelo de escola que querem. Os pais da escola da Ponte estão satisfeitíssimos com aquilo, parabéns! Há quem defenda que no Carolina corre tudo no melhor dos mundos, idem. As famílias têm de poder escolher, o ministério não pode CONTINUAR A impor o modelo único. Por acaso é modelo da balda e da burocracia mas até podia ser outro qualquer.
Em Lisboa, em algumas escolas, as crianças no ensino básico público vão passar a ter aulas de crioulo e mandarim. Perguntou-se às famílias se estavam interessadas? Não. Mas também ninguém lhes tem perguntado se acham bem que a Área de Projecto seja afectada às questões da defesa do consumidor ou da alimentação.
Já desisti de discutir pedagogia. Tanto mais que acabava a descobrir que os mais ilustres defensores do modelo da actual escola tinham os seus filhos em colégios durante o ensino obrigatório.
Que quiser colocar os filhos no Carolina, em Tarouca e nesta escola de Gondomar que coloque. Mas tem de se respeitar que existem umas pessoas que querem outro modelo de gestão de escola.
Por acaso esse modelo está próximo daquilo que se aplica no privado mas também poderá ser experimentado na escola pública. As escolas públicas tem capacidade para determinar o modelo em que vão funcionar.
Com os mesmos 5 mil euros por ano que custa cada aluno ao Estado português podem fazer mil e uma experiências pedagógicas. No fim comparam-se os resultados.
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É a area do projecto é uma moda dos colégios privados americanos, e da universidade do MIT, Harvard.
É uma coisa que nao é para qualquer um.
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Pode ser de Harvard ou da BObadela. No ensino obrigatório as famílias devem poder as escolas e os conteúdos da Área de Projecto fazem parte daquilo que as as pessoas devems er informadas quando inscrevem os filhos numa escola
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E sao, se quiserem. Basta perguntar e insistir se for preciso.
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Por acaso existe um projecto moda em muitos colégios privados does estados unidos que é um clássico. Tomar conta de um ovo durante 8 dias. Adoro esse projecto! lol
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Mas gosto mais dos projectos sociais. Há um em que os alunos sao presos. Passam um tempo na prisao. Really.
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Mas deve haver pais que acham mais importante para os filhos saberem calcular derivadas e equaçoes de 2 ou 3ºgrau, do que se envolverem em projectos e organizaçao e tomarem responsabilidades. Estao no seu direito, de fazerem chacota da area do projecto, mesmo que sejam projectos ambientais,
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Eu só quero que deixem escolher a escola. Entregar os 5 mil euros que o Estado paga por ano por cada aulo na escola que as famílias quiserem. Depois falamos.
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As “areas de projecto” serão interessantes, DEPOIS de se ter estudado como deve ser o que é conhecimento básico: ler bem, escrever bem, contar melhor e raciocinar em termos básicos e de lógica elementar.
As casas começam a fazer-se pelos alicerces. Não pela placa.
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“Eu só quero que deixem escolher a escola. Entregar os 5 mil euros que o Estado paga por ano por cada aulo na escola que as famílias quiserem. Depois falamos.”
E pode escolher a escola à vontade. Escolha uma privada. Paga e o estado paga ainda mais o resto com os subsídios às privadas. Quem anda na escola pública também contribui para as privadas.
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Mas os 5 mil euros poderão tb ser entregues a uma escola pública. E estas não têm de funcionar todas nos mesmos moldes. Aliás muitas escolas públicas têm muito melhores professores que as privadas
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ASINOS OU ASININOS?!?
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Tanta lengalenga parece língua de trapos.
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Ia ser lindo…
Essa cambada de professores a ter que fazer a côrte aos Narcisos de Matosinhos, Valentins de Gondomar, Fatinhas de Felgueiras, Isaltinos de Oeiras…
E os paizinhos todos a escolherem as Escolas das Pontes que são muito jeitosas…
Tenham juizinho…
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Ao anónimo, tenho-lhe a anunciar que no actual estado da escola pública portuguesa, um aluno médio de 12º ano teria dificuldades em entender parte das palavras que sua excelência usou. Digo mais: não lhe saberia dizer o que é uma equação de segundo grau, teria sérias dificuldades em derivar o que quer que fosse e, quase que aposto, perderia parte da cotação de um problema em que tivesse de passar uma variável de horas para minutos (aquela nuancezinha de termos de multiplicar por 60).
Quanto a si não sei, eu acho vergonhoso que as faculdades que se tentam afirmar como as melhores deste país (ex: feunl, fcee-uc – isto na área de economia), tenham de disponibilizar aos alunos de primeiro ano cadeiras de revisão de conceitos supostamente adquiridos nos programas de secundário.
P.S. – Dúvido que um aluno de Harvard que seja muito bom em área de projecto e péssimo em cálculo matemático seja melhor do que um aluno de Harvard nas condições contrárias
P.S.2 – Irrita-me um bocado a “clubite aguda” na politica. Ainda mais quando queremos ser cegos e não ver o estado em que se encontram algumas coisas no nosso país. Mais do que olharmos para a realidade das escolas publicas vs privadas, deviamso preocupar-nos com o estado da educação publica no interior e sul do país, sitios onde nem publico nem privado, nada funciona.
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Helena Matos,
Sobre o Crioulo e Mandarim em algumas escolas de Lisboa, poderia concretizar mais: indicar links, textos, sobre o tema?
Gostava de conhecer esta iniciativa(De quem?).
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Curiosamente, parece que em alguns textos, se faz a apologia da desigualdade.
Curiosamente, sempre houve cooperativas e sempre haverá. Desde os kibutz de israel a alguns dos participantes do intermarche (salvo erro), várias cooperativas são um enorme sucesso.
Não confundir é com a obrigatoriedade de se implementar cooperativas e ser cooperante. São coisas totalmente diferentes.
Há várias cooperativas de grande sucesso no portugal e pelo mundo fora.
Curiosamente, uma sociedade por quotas iguais, ou este blog, são similares a cooperativas.
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