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O factor organização

16 Abril, 2008

A propósito deste post de Eduardo Pitta gostaria de contar a minha experiência, esta semana, numa consulta externa do Hospital de Dona EStefânia. Ou melhor dizendo sobre aquilo que aconteceu antes de chegar à consulta. Sobre esta só tenho elogios a fazer (isto, claro, se exceptuarmos aquela mania  igualmente presente nos médicos e enfermeiros do sector privado de tratarem também eles por Mãe as mães das crianças consultadas: “a mãe senta-se aqui”, “o que tem a mãe  a dizer?”)

Mas o que não tem explicação é o sucedido  nas três horas de espera antes da consulta cuja hora e dia  estavam  marcado há meses: dezenas de crianças e respectivas famílias esperavam pela respectiva consulta que nunca acontecia na hora prevista. Num guichet, três senhoras atendiam na medida do possível as perguntas de toda aquela gente. Às vezes as senhoras levantavam-se e desapareciam durante largo tempo. Uma mascava pastilha elástica enquanto atendia um homem que nunca tirou da boca um chupa-chupa enquanto falava. Alguns utentes gritavam, uma mulher obstinava-se em garantir que uma das funcionárias do guichet era “uma mulher mal amada” porque não tinha como resolver o seu problema: o seu nº de senha passara e agora só lhe restava tirar outra. Outros utentes na esperança de se fazerem ouvir melhor curvavam-se para falar por aquela fresta de ar livre entre o balcão e o espesso vidro que separa o atendimento do público.  Quem ia ali pela primeira vez percebia após erros vários a relação entre as filas, as senhas e as três senhoras do guichet. No meio deste caos que o choro das crianças tornava crescentemente  angustiante, três voluntárias obstinavam-se em oferecer pacotinhos de leite com chocolate mimosa.

Provavelmente nenhum dos presentes precisava que lhe oferecessem pacotinhos de leite. Mas teria agradecido que os serviços se organizassem civilizadamente, de modo a evitar aqueles ajuntamentos – note-se que não é um serviço de urgência – e que a chamada para as consultas ou sejas aquelas vozes que mal se percebem e que chamam as crianças para as consultas fossem audíveis na casa de banho ou na simpática ludoteca onde infelizmente as crianças não podem ir porque as famílias nunca sabem quando será a sua vez. Isto para não falar do simpático jardim que naquelas três horas de espera até podia funcionar como passeio mas para isso haveria que modificar o sistema de chamamento. Enfim é difícil entender como um bom serviço médico pode ter este enxovalho como ante-câmara

10 comentários leave one →
  1. CAA's avatar
    16 Abril, 2008 19:51

    Já passei exactamente pelo mesmo no S. João. Mais uns sofás rasgados e em perigo de desabarem mesmo com gente de peso mediano, o que não é o meu caso, a indiferença fidalga das funcionárias fazia-me ter ideais quase homicidas. Uma baralhação de tal modo concebida que parece impossível não ser de propósito. Estava calor na sala -lá fora nem por isso – e suava-se. Havia crucifixos na sala mas nada de leite.

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  2. António's avatar
    16 Abril, 2008 20:48

    A pastilha da funcionária e o chupa-chupa do pai!
    O que leva adultos, supostamente a resolverem problemas e a ganharem a vida, o que os leva, pensava, a portarem-se como garotos gulosos?
    Esteve bem Helena. No post!
    No hospital D. Estefânia… Calculo
    Cumpts
    antónio

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  3. Fado Alexandrino's avatar
    16 Abril, 2008 21:32

    A minha Mãe é utente do Hospital de Pulido Valente.
    Tem 81 anos e é insuficiente crónica respiratória.
    Vai ao hospital para consultas de rotina de quinze em quinze dias.
    Para internamento de rotina vais de seis em seis meses.
    Recebe regularmente em casa a visita de uma técnica e uma enfermeira para apoio e verificação das máquinas de auxílio à ventilação.
    É visitada em casa pela médica de família.
    Somos (eu acompanho-a sempre) atendidos com a melhor simpatia e eficiência.
    As horas marcadas são cumpridas com razoável pontualidade.
    Não coloco aqui nomes, porque na realidade, todos desde ao porteiro à médica são de uma delicadeza extraordinária.
    Nem era necessário acrescentar mas digo-o, não temos nenhum nome pomposo nem temos nenhuma cunha.
    Pelo que me apercebo lá é assim com todos.
    Esta é uma justa homenagem aquelas mulheres e homens.

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  4. Desconhecida's avatar
    16 Abril, 2008 21:57

    Prática recomendável será reler os textos antes de os publicar. Evitar-se-iam, certamente, erros ortográficos e outras imprecisões, que menorizam a qualidade intrínseca dos textos.

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  5. Pedro Morgado's avatar
    16 Abril, 2008 22:17

    Tão importante como o factor tempo é a gestão das expectativas. Se a consulta tem uma hora marcada, ela deve acontecer o mais perto possível dessa hora. Caso contrário, mais valia não marcar hora.

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  6. SpidyGonzalez's avatar
    SpidyGonzalez permalink
    17 Abril, 2008 00:55

    Não percebo a parte de chamar “mania” a tratar a mãe pela sua
    qualidade (e que qualidade!)… È bom para a mãe, responsabiliza-a, e é bom para a criança que sente ter ali a sua proteção.
    Mas eu sou médico, portanto sou suspeito…

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  7. catarina's avatar
    17 Abril, 2008 01:54

    Contraste:

    fui a uma consulta no Hospital Geral Santo António – hospital público e central do Porto. Desde que entreia até que saí – consulta e papeladas – passou menos de uma hora. Estava muita gente e o edifício não era novo. Mas fui sempre bem tratada e soube que vou esperar menos de um mês pela pequena cirurgia que foi decidida na consulta (e que ficou logo marcada sem precisar de mais papelada).

    Não corre sempre bem. Mas também não corre sempre mal.
    Sou uma convicta e exigente utente do SNS.

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  8. Desconhecida's avatar
    Helena Matos permalink
    17 Abril, 2008 08:42

    Note-se que eu escrevi que a consulta correu bem.

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  9. Luís Lavoura's avatar
    Luís Lavoura permalink
    17 Abril, 2008 09:35

    A Helena, infelizmente, tem toda a razão nesta sua queixa, que partilho.

    No entanto, se o fator organização não existe em Portugal, isso é em boa parte culpa dos utentes, isto é, dos portugueses em geral. As consultas não têm hora marcada fixa porque, se tivessem, é certo e sabido que montes de pessoas chegariam atrasadas e, portanto, haveria montes de tempo perdido por parte dos médicos. É sem dúvida em boa parte por esse motivo que os serviços marcam uma data de consultas para uma mesma hora, e depois esperam que as pessoas fiquem à espera umas das outras.

    Aliás, cenários semelhantes ocorrem em qualquer consultório médico privado, pelas mesmas razões. Pessoas faltam à consulta, os médicos atrasam-se – também eles! – pessoas ficam horas à espera, frequentemente em más condições (em salas de espera frígidas, com janelas que deixam entrar o barulho e o frio da rua, etc).

    O mal de Porugal, Helena, é só um: os portugueses. E os portugueses são sempre a mesma merda, quer seja no setor estatal quer no privado.

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  10. JP's avatar
    17 Abril, 2008 17:21

    Helena, e que tal uma posta sobre a discriminação dos utentes do SNS nas clínicas privadas e que é capa do público de hoje?

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