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Em defesa da GALP (IV)

17 Novembro, 2008
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A DECO mostra-se preocupadíssima por, no passado dia 27 de Outubro, estar supostamente vigente em Portugal um preço sem impostos da gasolina 4 cêntimos acima de Espanha e 3 cêntimos acima da média europeia. Isto culminaria 2 semanas em que, segundo a DECO, se apresentaram as maiores diferenças de sempre face a Espanha e à Europa.

Eu imagino que para a DECO, a delimitação temporal do conceito “maiores diferenças de sempre”, não deverá ultrapassar, no máximo, o trimestre. Com base na DGEG, a mesma fonte da DECO, mas utilizando valores médios mensais e não de um determinado dia, procurei aferir as diferenças, desde Janeiro de 1999, entre os preços sem impostos em Portugal, por um lado, e em Espanha e na média europeia por outro, para a gasolina e para o gasóleo. Os resultados vêm expressos nos gráficos abaixo. Se linha do diferencial acima do eixo horizontal (valores positivos), preços mais caros em Portugal, se abaixo do eixo (valores negativos), preços mais baratos.

 difg95  difgasol

Algumas considerações (im)pertinentes:

  1. Tal como já demonstrei anteriormente, vigoraram em Portugal preços antes de impostos disparatados para a gasolina durante o 2º governo Guterres, o que no gráfico assinalo como a “bolha guterrista”.
  2. Durante a dita “bolha”, que se estende de Novembro de 1999 a Janeiro de 2002, os diferenciais na gasolina chegaram a ultapassar os 20 cents por litro, com médias naquele período de quase 13 cents (Espanha) e 11 cents (UE-15). Nessa altura, a GALP beneficiou de margens verdadeiramente anómalas, praticando preços bem acima dos seus concorrentes europeus, embora o preço de venda ao público mantivesse uma grande estabilidade à custa de reduções acentuadas no ISP (vd. gráficos publicados aqui e aqui). Não me recordo de ouvir a DECO insurgir-se pelos lucros de monopolista de que então a GALP efectivamente beneficiou, nem pela transferência de recursos que a baixa do ISP representou para os consumidores de combustíveis em detrimento dos não consumidores.
  3. No gasóleo, a “bolha” esteve escondida: os preços antes de impostos em Portugal nunca apresentaram grandes discrepâncias face aos outros países, mas a GALP beneficiou, de 1999 até finais de 2002, de devoluções de IVA. Neste período de 4 anos, a taxa média de imposição de IVA no gasóleo não ultrapassou os 12%. A taxa normal vigente foi de 17% até Junho de 2002, data em que Manuela Ferreira Leite a subiu para 19%;
  4. Em média e ao longo de quase 10 anos (o período que analisei), o diferencial de preços em Portugal face a Espanha e à média UE-15 é quase nulo: 0,4 e 0,6 cents na gasolina (excluindo o período da “bolha”), 0,2 e 0,08 cents no gasóleo. Como se comprova, os portugueses têm sido vítimas de clara e violentíssima extorsão por parte do oligopólio reinante…
  5. A DECO escandaliza-se com um preço pontual de 3 cents acima da média europeia, mas deveria explicar porque razão o preço em Portugal, país ineficiente e de baixa produtividade, teria de ser igual ou inferior. Sobre as cotações de refinados do mercado de Roterdão, que servem de base ao estabelecimento dos preços sem impostos, haverá que adicionar cerca de 10 euros por barril só para transporte. Isto significa mais de 6 cents por litro, que não são minimamente cobertos pelos míseros diferenciais médios acima referidos.
  6. A este título, diga-se que as condições de transporte em Portugal são bem mais gravosas do que na generalidade dos outros países, a maioria dos quais servidos por extensas redes de oleodutos (a começar pela vizinha Espanha). Portugal recebe todo o crude e combustível importado por navio e, na distribuição interna, existe apenas um oleoduto entre a refinaria de Sines e os depósitos de Aveiras. Toda a restante distribuição pelo país é feita por camião, com os inerentes impactos ambientais. Só da refinaria de Leça, saem diariamente mais de 700 camiões para abastecer (parcialmente) a região Norte.
  7. Apesar destas desvantagens competitivas, conclui-se que a GALP tem absorvido os sobrecustos de transporte (supostamente à custa de ganhos de eficiência noutras actividades), não os repercutindo totalmente no preço, como seria compreensível que o fizesse.
14 comentários leave one →
  1. Desconhecida's avatar
    Anónimo permalink
    17 Novembro, 2008 18:44

    brilhante análise

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  2. Sofia Ventura's avatar
    17 Novembro, 2008 19:10

    Off Topic:

    Sócrates entregou Magalhães só para a fotografia
    Por Margarida Davim
    José Sócrates esteve na Escola do Freixo, em Ponte de Lima, a entregar computadores aos alunos do 1.º ciclo. Mas, depois de o primeiro-ministro ir embora, as crianças tiveram de devolver os Magalhães

    Aqui:http://sol.sapo.pt/PaginaInicial/Sociedade/Interior.aspx?content_id=117181

    Coitadas das criancinhas!

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  3. Desconhecida's avatar
    17 Novembro, 2008 19:18

    Sou empresário de Transportesz e compro GASÓLEO em Espanha por menos 0,27 centimos do que em Portugal e a Deco preocupada com 3 ou 4 cent na gasolina. SÓ PODEM ESTAR A BRINCAR.

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  4. Desconhecida's avatar
    Anónimo permalink
    17 Novembro, 2008 20:21

    Essa noticia é mentira e já foi desmentida, Sofia Ventura. É mesmo tipica noticia de mal dizer. Os computadores ficara na escola porque os professores assim o decidiram e agora dizem que foi para a fotografia..lol É pura maldade.

    Espectacular é as imagens de reporteres a serem agredidos à porta do tribunal com a policia ali ao pé e não deterem os agressores! Será que ao menos os identificaram?

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  5. Pi-Erre's avatar
    Pi-Erre permalink
    17 Novembro, 2008 21:25

    Os gráficos não demonstram absolutamente nada. A referência-padrão para aferir se os preços estão altos ou baixos é o saldo da minha conta bancária.
    O resto é conversa fiada…

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  6. Desconhecida's avatar
    17 Novembro, 2008 21:31

    Eu era associado da DECO, depois pensei em economizar, começei logo pela DECO , literatura de cordel e jornalada (desportivos e afins) quando á crise ataca-se o que é indespensavel – e voces por onde começam? ou não tem crise?

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  7. Desconhecida's avatar
    rxc permalink
    17 Novembro, 2008 22:40

    “No entanto, fonte do conselho executivo assegurou ao SOL que os Magalhães que Sócrates distribuiu, durante uma visita oficial, não serão entregues antes de a escola «preencher toda a papelada e os pais que não estiverem abrangidos pelo 1.º escalão da acção social escolar vão ter de fazer o pagamento do computador» . E acrescentou desconhecer quanto tempo poderá demorar esse processo.

    Margarida Moreira assegurou, porém, ao SOL que «dentro dos próximos dias a escola vai entregar os computadores aos alunos, para que os possam levar para casa, porque isso é obrigatório» .

    A directora-regional do Norte considera, de resto, que o facto de as crianças puderem levar os portáteis para casa é uma parte essencial do projecto do Magalhães, «até porque este computador permite que as famílias convivam com as novas tecnologias» . ”

    in Sol

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  8. Pedro C.'s avatar
    17 Novembro, 2008 23:51

    LR, há dias, neste mesmo tema, lancei-lhe o repto de analizar o caso do GPL, um combustível da maior importância para milhões de utilizadores domésticos e para alguns milhares de automobilistas que aderiram a este combustível menos poluente. Na altura referi que a cotação para este mês (Saudi ARANCO contract price) foi de 490 dólares Ton/métrica (1845 litros), quer para o butano como para o propano, quando em Julho a cotação do butano estava em 950 dólares e o propano a 905. Esta enorma queda não teve reflexo no preço do gás doméstico, que continua no preço mais alto de sempre, e no Autogás teve uma pequena baixa com muito pouco significado. Como na altura prometeu que se debruçaria sobre este assunto, continuamos a aguardar. Sendo aquela cotação de 0,20€/litro gostaria de perceber como se vende nas bombas a 0,671/litro.

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  9. LR's avatar
    18 Novembro, 2008 00:01

    Caro Pedro C.,

    Não está esquecido. Amanhã será difícil, mas na 3ª feira escreverei algo sobre os gases.

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  10. Desconhecida's avatar
    LPedroMachado permalink
    18 Novembro, 2008 00:27

    Muito bem. A nossa imprensa devia pôr os olhos nisto e pôr a mão na consciência. Um blogador a fazer o trabalho que compete aos jornalistas. Ao menos que vejam isto e o citem. Mas é melhor esperar sentado.

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  11. Desconhecida's avatar
    Ruben permalink
    18 Novembro, 2008 07:36

    .
    Um pouco fora do contexto:
    .
    TEXTO INTEGRAL DA DECLARAÇÃO DE WASHINGTON-G20:
    .
    http://www.spiegel.de/international/world/0,1518,590885,00.html
    .
    “Use fiscal measures to stimulate domestic demand to rapid effect, as appropriate, while maintaining a policy framework conducive to fiscal sustainability”
    .

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  12. cão-tribuinte's avatar
    cão-tribuinte permalink
    18 Novembro, 2008 09:36

    tirar o escalpe
    aos administradores da galp

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  13. Desconhecida's avatar
    Carlos permalink
    18 Novembro, 2008 23:21

    Revelador: este post, como os anteriores, é o que menos atenção suscitou na audiência (tomando como indicador a quantidade de comentários) dos últimos 13. Interessante, já que não há muito tempo pareceria a qualquer um que a ruina ou salvação do País dependeria da nacionalização da Galp. Não havia quem não tivesse opinião sobre “esses gatunos”. Agora que alguém, com racionalidade e objectividade, decidiu por mão à obra e verificar os números (uma maçada, os números) já ninguém liga nenhuma. Pérolas a porcos, digo eu.

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  14. Desconhecida's avatar
    LPedroMachado permalink
    18 Novembro, 2008 23:48

    13

    Bem visto, Carlos. Tem toda a razão. Mas, sabe, contra factos não há argumentos!

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