Os ricos, os pobres, os irresponsáveis e os anopluros*
Perguntar-se-á o leitor: “Quem são os anopluros?” Perguntar-se-á o leitor e perguntaram-se várias famílias que receberam um comunicado da escola dizendo que as crianças tinham anopluros e que a escola esperava que os ditos anopluros fossem extintos. Ao lado uma ilustração dava conta do animalejo que assim era designado e cujo nome comum, piolhos, vinha escondido no meio duns parêntesis. O que levaria uma escola a chamar anopluros aos piolhos? Não só não era suposto que os piolhos existissem naquele radioso Portugal – estes anopluros nasceram naquele tempo bendito em que só os incréus alertavam para a crise! -, como ainda se temia que algumas pessoas ficassem ofendidas, caso fossem confrontadas directamente com o facto de os seus filhos terem piolhos. Assim, com o termo anopluros, o problema parecia mediado, como agora se diz. Ou pelo menos apresentável, em eduquês.
Claro que depois dos anopluros vieram a sarna, os percevejos e a tinha. Pelo meio e convivendo alegremente com tudo isto andavam as pulgas. No fim desta peregrinação por problemas que se consideravam extintos desde aquelas longínquas épocas em que os linces se passeavam na serra da Malcata, os piolhos já se chamavam piolhos, até porque entretanto os parasitas se tinham tornado uma banalidade. Mas perante os novos problemas que vulgarmente se designariam como indisciplina e desrespeito das famílias pela escola, o que se mantinha idêntica era a predisposição para usar uma linguagem tão mais codificada quanto menos se pretendia enfrentar a realidade. A violência entre alunos, sobre professores e funcionários passou a ser designada como disfunção ou outra coisa qualquer que transformasse as agressões em actos sem autores nem vítimas. Quiçá uma performance. O resultado ficou à vista quando gravações no YouTube mostraram a quem quis ver o que oficialmente não existia. Tal como os piolhos passaram a ser apenas piolhos e não anopluros quando apareceram parasitas piores, também as agressões deixaram de ser situações de disfunção com vários actores, quando se viram professores a levar chapadas de alunos e se percebeu que, em Beja, uma escola estava sem conselho directivo porque nem professores nem funcionários conseguiam garantir a sua segurança quanto mais a dos alunos perante uns grupos que volta e meia entravam por ali dentro devidamente munidos de paus e vontade de partir.
Mas desiluda-se quem pense que a praga dos anopluros alguma vez será extinta. E quando escrevo praga dos anopluros não estou a falar dos animaizinhos ou piolhos propriamente ditos, mas sim desta incapacidade de descrever o que realmente acontece, o que necessariamente implica adiar as soluções. Um exemplo típico desta abordagem tipo anopluro foi o alarido gerado esta semana em torno da revelação de que “Crise leva crianças com fome ao hospital”. Independentemente de existirem casos de fome em Portugal gerados por esta crise, nesta notícia a crise era apenas o anopluro da questão. Tudo devidamente espremido resumia-se a uma assistente social perorando sobre famílias que “valorizam muito o aspecto, mas deixam cair as coisas importantes e fundamentais”, como a alimentação. Cantinas escolares a funcionar todo o dia foi logo uma das soluções propostas para resolver o problema, sendo que se presume que essa desresponsabilização absoluta das famílias pelas refeições das suas crianças consistirá naquilo que a dita assistente social define como abordagem “estratégica no sentido de capacitar a família e nunca de a confrontar com estas fragilidades”. Enfim, tal como as crianças não têm piolhos mas sim anopluros, as famílias que gastam o dinheiro em roupa de marca e não fazem sopa também não devem ser confrontadas “com estas fragilidades”. A isto chama-se assistencialização, caridadezinha, apatetamento. Mas o pior é que a desresponsabilização das famílias e a sua tutelização pelos serviços sociais acaba geralmente com o verniz a estalar um dia. Mais precisamente naquele fatídico dia em que as assistentes sociais são substituídas pelos jornalistas, sociólogos e polícias que dão conta das “fragilidades” dessas populações.
*PÚBLICO

Valia mais terem usado a designação científica, “Pediculus humanus capitis”.
Assim já toda a gente percebia.
GostarGostar
Os anopluros educados
nas cabecinhas das crianças,
deixam-nos ressacados
das mais puras desesperanças!
A realidade higienizada
com a brancura terminológica,
é claramente caracterizada
de verborreia escatológica!
Com o caso apresentável,
educadamente mediado,
a realidade lamentável
deixa o mexilhão estropiado!
GostarGostar
Essa comparação não tem ponta porque se pegue e por isso quem escreve anopluros é a Helena Matos
GostarGostar
Compara o anopluros com o uso da palavra crise
ora é impossível comparar uma coisa com a outra. No caso do anopluros é usado para não causar alarme, pois piolhos tinha um contexto social muito forte …. e levava á exclusão social, ao corte de cabelo radical das familias…
No caso da crise é para causar alarme e desresponsabiliza a familia…
Ou seja precisamente o contrário
Assim anopluros tem a Helena Matos
GostarGostar
“Trademark” desta gentalha – e a ignorância de novo-rico leva-os a ridículos deste jaez.
E à estúpida convicção de que o malabarismo verbal acaba por esconder a dura realidade.
Resumindo : ignorantes e mentirosos (os melhores exemplos são o alegado “bacharel” e a alegada “ministra da educação”).
GostarGostar
A Helena esqueceu-se de outro animalejo: os chatos! Será que, como estes ascenderam ao poder, usam esses termos para fazer esquecer os outros? É que, com as escolas transformadas em “sopa dos pobres”. os anoplurus (que é tudo a mesma piolhagem) podem entrar em fase de epidemia que, chamada pelo nome próprio e corrente seria alarmante. Miséria, sim, mas o alarme, esse é que os chatos não toleram.
GostarGostar
E os alegados professores que afinal são trabalhadores do sindicato e nem sabem nada de nada para ensinar?
GostarGostar
pc
GostarGostar
piolhos … tem má imprensa
GostarGostar
Com o tal comunicado aprendi eu, que não sabia o que eram anopluros.
Como gosto de aprender, fez-me jeito.
Já os anoplurosos, não gostam.
GostarGostar
Os anopluros são uns gajos que têm um anus pluralista.
GostarGostar
elas e eles também têm
phtyrius inguinalis pubis
GostarGostar
No meu tempo de faculdade de Medicina a infestação por piolhos tinha o nome de “pediculose”… e o “bichinho” o nome de “Pediculus humanus”.
GostarGostar
Excelente texto!
GostarGostar
Esta dos “anopluros” por “piolhos” faz-me lembrar a parolada de substituir “contínuo(a)” por “auxiliar de acção ecucativa”, por exemplo. As “sras. continas” passaram a ter, portanto, “uma carreira”… Mas há mais: as “mulheres a dias” passaram a ser “empregadas domésticas”, os “empregados de escritório” passaram a “técnicos administrativos”, etc. Todos com a famosa “carreira”. Será que os piolhos passaram a ter “uma carreira” por lhes chamarem “anopluros”
GostarGostar