A dúvida da dívida
3 Outubro, 2010
Se a taxa de referência do Banco Central Europeu é de 1%, por que razões andará o estado português a financiar-se a 5,973%? Um financiamento da dívida pública com estas taxas de juro tem como consequências: o aumento do défice, a prazo; a diminuição da concessão de crédito a empresas e particulares, pois os bancos preferem financiar o estado, é mais garantido; e, claro, lucros obscenos para a Banca, pagos mais uma vez com os impostos dos portugueses.
29 comentários
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Paulo Morais – lucros obscenos para os bancos? Não me parece que esteja a ver bem as consequências para os bancos desta situação…
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É Spread, meu caro, é o spread!!!
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JCD – Se peço emprestado a 1% e empresto a 6% sextuplico o juro. É essa a obscenidade bolas!
Paulo Morais – a verdadeira questão é: a “quanto” é que a CGD empresta ao Estado?…
Já agora: o que impede o Estado de criar mais um ou dois bancos públicos que se possam financiar no BCE e emprestar ao Estado com uma taxa pouco superior à do BCE?
Um abraço,
NSS
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pois, pois… já há algum tempo, deixei un comentário num dos vossos postais em que não só levantava essa dúvida, mas até dizia que esses mesmos bancos, coitadinhos, que atingem lucros obscenos e ao que parece o jcd continua a pensar que correm muitos riscos – como se o risco não fosse desejável, para se fazerem bons negócios na sociedade de livre mercado que preconiza ; mas eu ia mais longe dizendo que há uma aberração, quando o BCEuropeu concede aos bancos empréstimos a juros baixíssimos e que por impossibilidade legal não pode emprestar aos estados obrigando-os a pedir esses empréstimos junto da banca que cobra juros 5 vezes mais altos…
negócios da China!…
estou com muita pena da banca, jcd!…
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>JCD – Se peço emprestado a 1% e empresto a 6% sextuplico o juro. É essa a obscenidade bolas!
Se alguma vez for administrador de um banco, por favor avise com antecedência para poder retirar os meus depósitos a tempo!
E’ que nessa equação falta vários termos importantes, desde os custos de operação (pagar os funcionários, equipamentos informáticos, amortizar as instalações,…) até subtrair o crédito mal parado! Por agora, vejamos o crédito mal-parado; os últimos valores divulgados variam muito conforme o tipo de empréstimo – entre 3% no crédito à habitação até mais de 10% no crédito ao consumo. Admitindo um valor médio de 4% dá
Peço emprestado a 1%, empresto a 6%, subtraio 4% de mal parado, com lucro de 1% para cobrir tudo o resto.
Não consigo ver a obscenidade, devo precisar de ir ao oftamologista 😦
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Pois está a precisar de ir ao oftalmologista está. Ninguém falou de outros créditos, falou-se especificamente do crédito ao Estado e que os bancos tem uma margem de 5 pontos percentuais aqui, sem grande risco. Para o que é que é chamado para o caso restante crédito, para o qual eles também terão de se financiar?
Eu não sei se a alternativa é melhor do que isto, mas também não vamos fechar os olhos, sff.
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««Se a taxa de referência do Banco Central Europeu é de 1%, por que razões andará o estado português a financiar-se a 5,973%? »»
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Porque a taxa de 1% é a 1 dia e a taxa de 5,9% é a 5 ou 10 anos.
Ou seja, nenhum banco ganhará os 5% de diferença. As taxas de juro de referência irão inevitavelmente subir nos próximos 10 anos. De 1% poderão passar para 4% ou 5% pelo que o spread real não é de 5% mas sim a média do spread ao longo dos próximos 10 anos. Para alem disso o risco de default do Estado português é elevado.
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Boa parte desse diferencial (entre 1% e 0s quase 6%) deve ser identificado como o risco específico “Sócrates”.
É por isso que a sua demissão é fulcral nesta altura para o país.
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A ser verdade o que João Miranda afirma então o BCE cobra 5,9 % a 5 anos à Alemanha, Luxemburgo, Finlandia, etc. Ou seja cobra a mesma taxa (5,9 a 5 ou 10 anos) a toda a gente.
Não fui confirmar mas à priori, correndo o risco de me enganar, não me parece nada provável.
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««Já agora: o que impede o Estado de criar mais um ou dois bancos públicos que se possam financiar no BCE e emprestar ao Estado com uma taxa pouco superior à do BCE?»»
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O que impede é que:
– o Estado tem que renovar empréstimos na ordem dos 20 a 30 mil milhões por ano
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– um banco tem que ter capital próprio da ordem dos 10% do valor emprestado
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– a taxa de 1% é de curto prazo. O BCE pode aumentar a taxa a qualquer momento.
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– os empréstimos do BCE são limitados em volume e requerem garantias
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««A ser verdade o que João Miranda afirma então o BCE cobra 5,9 % a 5 anos à Alemanha, »»
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O BCE limita-se a ceder liquidez de curto prazo. Empréstimos a longo prazo só nos bancos e outros investidores privados. Estes cobram valores de acordo com a credibilidade do país.
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Os empréstimos a curto prazo têm taxas menores porque têm riscos menores. A típica curva de variação da taxa com o prazo pode ser vista aqui:
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http://www.bloomberg.com/markets/rates-bonds/government-bonds/us/
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João Miranda
Posso pedir-lhe um favor?
Publique aqui os nomes dos economistas keynesianos que assinaram o manifesto em defesa das grandes obras públicas.
Pode ser que pintem a cara de preto.
A Ordem dos Economistas devia caçar-lhes a licença para exercerem a profissão.
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“Porque a taxa de 1% é a 1 dia e a taxa de 5,9% é a 5 ou 10 anos.”
” a taxa de 1% é de curto prazo. O BCE pode aumentar a taxa a qualquer momento.”
“O BCE limita-se a ceder liquidez de curto prazo. Empréstimos a longo prazo só nos bancos e outros investidores privados. Estes cobram valores de acordo com a credibilidade do país.”
Em conclusão mantém-se pertinente a interrogação de Paulo Morais. A taxa não é de 5,9 a cinco anos. É-o para nós por vários motivos, alguns “numéricos” e outros de credibilidade. A esses podem-se chamar,genericamente, “Risco Específico Sócrates”.
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Eu não costumo deixar minha humilde opinião e não sou economista, mas sei que a taxa reflete o risco. E como agora, somos os PIGS……
http://www.israelvalley.com/news/2010/10/03/28808/israelvalley-economie-les-banques-israeliennes-sont-peu-exposees-aux-risques-du-groupe-des-pigs-les-creances-douteuses-de
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As taxas a que Portugal se pode financiar podem ser vistas aqui:
Click to access curva_rendimento_e.pdf
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Note-se que os juros de prazos inferiores a 1 ano são mais baixos, mas não nos servem para nada porque têm que ser renovados a curto prazo e nada garantam que as taxas de curto prazo se mantenham baixas.
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A pergunta mais pertinente é :porque é que as taxas dos cerificados de aforro continuam a ser de 1% e não de 2 ou 3%.
Porque é que o governo insiste em proteger os bancos privados na captação da poupança interna, prejudicando toda a população ?
Porque é que a CGD continua a ter rédea solta e em vez de investir em Portugal, investe em Espanha, Brasil, Angola, etc. Porque é que financia especuladores ?
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RG Crespo: está-se a falar de crédito a um Estado e não a famílias e empresas, não confunda as coisas.
Você inclui até o risco do “mal parado” para justificar a diferença entre taxas de juro, mas eu pergunto-lhe: quantas vezes Portugal deixou de honrar os seus compromissos financeiros internacionais?
João Miranda: obrigado pelos esclarecimentos, mas assim sendo, não valeria a pena fazê-lo (óu utilizar a CGD para financiar o Estado a custo mais baixo?).
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> está-se a falar de crédito a um Estado e não a famílias e empresas, não confunda as coisas.
Quando um banco vai levantar dinheiro ao BCE, não tem de informar qual o seu destino, mas e’ responsavel pela sua amortizacao integral. Em Portugal, o dinheiro e’ entregue a entidades distintas – cada uma com riscos e “spread” distintos. Repito novamente: a equacao e’ muitissimo mais complexa que a enunciada.
> eu pergunto-lhe: quantas vezes Portugal deixou de honrar os seus compromissos financeiros internacionais?
Varias vezes Portugal chegou ao limite, a penultima resultou na chegada do FMI com aplicacao de medidas extremamente duras.
Nos casos em que deixa de haver dinheiro para cumprir como os compromissos, os paises nao fecham as portas. Simplesmente sao obrigados a tomar medidas duras e a rescalonar a divida – veja os casos recentes de Argentina em 2001 e a Islandia em 2009. Em casos extremos a historia regista cedencia de territorios: Genova teve de ceder a ilha de Corsega ‘a Franca um ano antes do nascimento de Napoleao, se nao estou em erro o governador entregou a ilha de Flores e a metade ocidental de Timor em 1846 ‘a Holanda para resolver problemas financeiros.
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Simples. O BCE financia a todos os Bancos à mesma taxa e a 1% mas apenas pelo prazo de 1 semana. Os financiamentos que fala tratam-se de financiamentos de divida publica e a 10 anos ou mais.
Mais a taxa de juro que fala é a yield to maturity desejável face as oscilações de mercado…..
Não é comparável……..
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O JM tem razão. A taxa de 1% que o BCE cobra é relativa a empréstimos de curta duração (tipicamente, entre um dia e uma semana – durante o último ano, excepcionalmente a seis meses e um ano). O Estado também consegue emitir Bilhetes do Tesouro a taxas de juro bastante mais baixas do que as Obrigações a 10 anos, que têm sido colocadas a juros de 6%.
Comparar de forma rigorosa o custo de financiamento da banca com o custo de financiamento do Estado implica comparar as taxas a que cada um coloca obrigações de maturidades iguais. As diferenças serão, aí sim, atribuíveis aos diferenciais de risco (por exemplo, o Estado tem um “seguro” chamado soberania = impostos; por outro lado, a banca não tem um défice orçamental de 7 ou 8%).
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O JM não tem razão no caso actual de Portugal.
Existe um conluio para proteger a banca portuguesa, é essa a razão para os certeficados de aforro estarem a pagar apenas 1%.
Por outro lado a CGD prefere ajudar especuladores nacionais e estrangeiros e fazer investimentos sem rentabilidade em Espanha , Brasil, etc. do que financiar a economia real em Portugal, ou pelo menos comprar divida pública a 6%.
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O primeiro dos porcos anda a dar o toucinho ao açougueiro.
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PMP,
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Os certificados de aforro têm regras diferentes das obrigações a 10 anos:
– o valor de 1% é o valor aproximado da taxa base actual. Essa taxa está indexada à euribor e pode subir no futuro.
– à taxa base acresce um prémio de permanência que pode chegar aos 2.5%
Ver: http://www.igcp.pt/gca/?id=63
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A euribor pode chegar aos 4% ao longo do ciclo económico. Isto implica que a taxa base pode chegar aos 3.65 a que acresce o prémio de permanência.
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Note-se ainda que os certificados não obrigam à manutenção do investimento até à maturidade e que o juro das obrigações a 10 anos varia muito ao longo do tempo (entre 4% e 6.5% nos últimos tempos).
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Pois é, o governo continua a ajudar os bancos privados ao não rever as regras dos certificados de aforro. Pagar 6% só porque talvez num futuro em que a economia europeia esteja fulgurante e a euribor atinja 4 ou 5% é uma grande decisão de gestão , sim senhor .
Portugal tem de se financiar internamente em primeiro lugar.
O governo está a ajudar os bancos de uma forma descarada, tal como ajudou as Motas, Brisas, Melos, etc. com as PPP’s.
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Os bancos estão a prestar-se a este esquema com risco elevado.
Quando as medidas extraordinárias de cedência de liquidez do BCE forem canceladas(fala-se de Jan2011) os bancos e a economia portuguesa vão ficar descalços (sem liquidez) e então vamos ver onde é que o Estado e os bancos vão arranjar financiamento para as montanhas de títulos de dívida publica e crédito à habitação que têm em carteira e cujos prazos podem ir de até 30 anos.
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Nessa altura o FMI empresta a 5% como faz com a Grécia.
Ou a CGD paga 3% pelos depósitos e empresta a 4% ao estado, ou o estado paga 4% pelos certificados de aforro.
Basta congelar o PIDACC, Parque Escolar e as PPP’s para poupar 4 mil milhões de euros por ano. Mas claro que o Sócrates quer é continuar a ajudar aos amigos, com a cumplicidade do Passos Coelho que vai viabilizar o orçamento e manter no poder um primeiro-ministro que mente descaradamente. Os amigos do PPC já têm quase tudo do Sócrates, para quê mudar ?
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Num caso hipotético extremo, os défices podiam ser financiados por pura emissão de moeda a custo zero, cujo preço de ser maior ou menor seria a inflação de preços, nada aconselhável. Em princípio, o actual sistema é benéfico para o sistema bancário, em especial para os grandes bancos, e na verdade convida a cada vez maiores concentrações bancárias.
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