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Especulação

25 Novembro, 2010

A visão conspiracionista dos mercados tem levado os jornais a publicar notícias do género “mercados vão centrar as atenções em Portugal” ou “mercados especulam contra Portugal”. Na verdade é exactamente ao contrário. Portugal é que tem os olhos postos nos mercados e quer que, em 2011, estes emprestem 40 a 50 mil milhões de euros. Os mercados estão pouco interessados em emprestar. Portugal precisa desesperadamente que os mercados lhe emprestem dinheiro. Os mercados preferem não reparar que Portugal existe. Só mesmo os agentes que especulam que Portugal poderá conseguir pagar é que emprestam, desde que o juro seja alto. É tudo. Não há ataque especulativo nenhum. Há apenas desinteresse, por parte da generalidade dos investidores, em emprestar dinheiro a Portugal.

 

49 comentários leave one →
  1. campos de minas's avatar
    campos de minas permalink
    25 Novembro, 2010 10:01

    «Os mercados estão pouco interessados em emprestar»

    vê-se….a render 7% a dez anos….

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  2. PMP's avatar
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    25 Novembro, 2010 10:07

    Um país do euro com deficit externo elevado como Portugal tem de pedir emprestado euros ao exterior por definição.
    Quando é que o Dr. Nogueira Leite, Dr. Vitor Bento e outros brilhantes economistas neo-liberais ciram empresas industriais ou agricolas em vez de estarem encostados directa ou indirectamente ou Estado ?

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  3. JoaoMiranda's avatar
    JoaoMiranda permalink*
    25 Novembro, 2010 10:12

    ««Quando é que o Dr. Nogueira Leite, Dr. Vitor Bento e outros brilhantes economistas neo-liberais ciram empresas industriais ou agricolas em vez de estarem encostados directa ou indirectamente ou Estado ?»»
    .

    Não têm obrigação de o fazer.

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  4. JoaoMiranda's avatar
    JoaoMiranda permalink*
    25 Novembro, 2010 10:15

    «««Os mercados estão pouco interessados em emprestar»

    vê-se….a render 7% a dez anos…»»
    .
    Se houvesse interesse o juro seria muito mais baixo.

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  5. campos de minas's avatar
    campos de minas permalink
    25 Novembro, 2010 10:22

    «Se houvesse interesse o juro seria muito mais baixo.»

    pois…não gostam de dinheiro-até balzac desconhecia esse estranho interesse, quando caía continuamente nas mãos dos agiotas parisienses…

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  6. Lima's avatar
    Lima permalink
    25 Novembro, 2010 11:06

    “Weber: Fundo de apoio ao euro pode ser reforçado”

    Por este andar vão ter que pedir o saco emprestado ao pai natal.

    «Regling
    Perigo de colapso da zona euro é “zero” »
    “Juncker: Portugal não enfrenta risco imediato de contágio”

    Sim, claro, estamos todos muito descansados com a certeza de que o céu não se vai abater sobre as nossas cabeças.

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  7. PMP's avatar
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    25 Novembro, 2010 11:28

    Mas se os brilhantes economistas neo-liberais não têm obrigação de fazer empresas industriais ou agricolas em vez de estarem encostados nos sectores não transacionáveis, então quem tem essa obrigação ? Ninguém ? Então pregam mas não praticam ?

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  8. João Vasco's avatar
    João Vasco permalink
    25 Novembro, 2010 11:30

    João Miranda,

    Confesso alguma dificuldade em comrpeender os mecanismos concretos da negociação de títulos de dívida pública. Na verdade lamento que se fale tanto sobre este tema, mas seja tão difícil encontrar informação sobre o funcionamento detalhado deste mercado. Se conhecer alguma fonte que explique em maior detalhe como é que funciona este mercado, peço que partilhe essa informação.

    Mas, tanto quanto entendi, aquilo a que os jornais se referem como “ataque” não é à pouca vontade de comprar títulos em si, mas sim à venda de títulos a descoberto.

    A ideia do “ataque especulativo” pretende fazer uma analogia com a situação em que com este tipo de engenharia financeira era possível levar empresas sólidas à falência. Tanto quanto sei a ideia seria vender tal número de acções a descoberto (e muito abaixo do preço de mercado anterior) que de alguns os accionaistas os levariam a eles próprios a vender acções ao desbarato, diminuindo ainda mais os cuso das acções, o que permitiria aos vendedores inciais fazer muito lucro, mesmo apesar de terem vendido abaixo do custo de mercado. Seria a situação oposta à “bolha” (compra-se acima do preço de mercado anterior em tanta quandidade que se cria uma espectativa de subida, e nessa altura vende-se).

    Eu entendo que isso possa acontecer com acções de algumas empresas supondo que um agente tem simultaneamente mais informação e poder de mercado que os outros intervenientes, e desta maneira faz dinheiro à custa destes outros. No caso da dívida pública parece-me mais duvidoso.
    Se alguém quisesse vender dívida pública da Irlanda com a expectativa de lançar o pânico e fazer descer ainda mais os títulos da dívida, haveriam agentes informados e com poder de mercado para não entrar em pânico e fazer dinheiro à custa do pretenso “especulador”. Vendes um título da dívida a 50c o euro*? Compro já tudo o que tiveres. Se o FMI dá maiores garantias de que a Irlanda vai conseguir pagar, então quem teria “especulado” contra a Irlanda iria ficar a perder muito dinheiro, certo? E contra a Grécia, idem? Aliás, quem está a agora a vender a descoberto, a menos que haja default, vai perder dinheiro de ano para ano, certo?

    Já agora, é conhecido quem é que está a vender mais títulos dos GIPS a descoberto? E quem os está a comprar?

    *isto corresponde ao tal juro de 7%

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  9. JCA's avatar
  10. PR's avatar
    25 Novembro, 2010 11:50

    João Vasco,
    Essa informação não está, regra geral, disponível. Haverá agentes de mercado capazes de ter acesso a ela, mas não há, tanto quanto sei, dados sistematizados em relação a operações financeiras específicas. Há, quanto muito, research publicado por casas de investimento. E, no caso português, o IGCP divulga por vezes o resultado da colocação de dívida em termos de países compradores, sem contudo desagregar muito mais a informação.

    Isto reforça a tese do JM. Não só é difícil fazer um ataque especulativo bem sucedido como, ainda por cima, é quase impossível identificá-lo.

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  11. JoaoMiranda's avatar
    JoaoMiranda permalink*
    25 Novembro, 2010 12:07

    ««Mas, tanto quanto entendi, aquilo a que os jornais se referem como “ataque” não é à pouca vontade de comprar títulos em si, mas sim à venda de títulos a descoberto.»»
    .
    Na última emissão de dívida a 10 anos o melhor que Portugal conseguiu foi 6,8%. Nessas emissões não há qualquer venda a descoberto. Simplesmente, Portugal propõe-se vender e os investidores vão comprar em leilão. Acontece que ninguém esteve disposto a comprar muito abaixo dos 6,8%.

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  12. Karlos Markes's avatar
    Karlos Markes permalink
    25 Novembro, 2010 12:44

    Se calhar, precisamente também porque receiam os ataques dos especuladores, através, por bom exemplo, do tal naked short selling. Esses ataques podem bem levar um país a posições cada vez mais difíceis, até ao ponto do incumprimento.
    As coisas não são sempre assim tão singelas, JM.

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  13. João Vasco's avatar
    João Vasco permalink
    25 Novembro, 2010 12:58

    João Miranda,

    Nessas emissões não há venda a descoberto, mas já se falava nos juros a 7% vários dias antes desses leilão, e era a isso que vários se referiram como “ataque especulativo”, e não à falta de interessados no leilão. O preço a que Portugal vendeu a dívida no leilão foi obviamente influenciado pelo preço nos mercados internacionais, preço esse que foi influenciado pela venda a descoberto.

    Posto isto, o meu objectivo com estes comentários foi mesmo tentar entender melhor todo este mecanismo. O João Miranda conhece alguns detalhes a este respeito? Sabe onde posso encontrar mais informação?

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  14. PR's avatar
    25 Novembro, 2010 13:06

    Tentei comentar, mas não consegui…

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  15. Ricardo's avatar
    Ricardo permalink
    25 Novembro, 2010 13:22

    João Vasco,

    O primeiro player a falar nos 7%, foi o Ministro das Finanças. Ao dizer estabelecer 7% como o limite de juro a partir do qual Portugal poderia pedir ajuda, basicamente convidou o mercado a chegar a este valor.

    Ninguém especula mais do que este triste governo.

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  16. António Parente's avatar
    António Parente permalink
    25 Novembro, 2010 13:28

    O João Vasco comentador do Blasfémias é o João Vasco blogger do Esquerda Republicana?

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  17. João Vasco's avatar
    João Vasco permalink
    25 Novembro, 2010 13:32

    Ricardo,

    O preço a que Portugal vendeu os títulos de dívida pública não foram muito diferentes dos preços de mercado da altura. Por isso creio que quem fala em “ataque especulativo” (e note-se que tenho as dúvidas que expús em relação a esta possibilidade) refere-se às vendas a descoberto que terão resultado na diminuição do preço de mercado da nossa dívida, coisa que antecedeu em vários dias o leilão.

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  18. João Vasco's avatar
    João Vasco permalink
    25 Novembro, 2010 13:33

    António Parente,

    É o próprio, sim.

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  19. António Parente's avatar
    António Parente permalink
    25 Novembro, 2010 14:28

    João Vasco
    Os seus comentários são pertinentes. Neste momento, a Comissão Europeia estuda formas de controlar o short selling. Não conheço dados estatísticos (nem sei se estão disponíveis para o público) mas é natural que num movimento especulativo contra as obrigações de dívida pública esse seja um dos instrumentos utilizados. O que se tem de pensar é que se alguém quer vender, então para o negócio resultar é necessário que do outro lado alguém queira comprar. Uns lucram com a venda, outros podem colocar na carteira títulos com um bom rendimento e com risco de default mínimo se o FMI e a Comissão Europeia impuserem regras dacronianas no controlo do défice e avalizarem as dívidas (é o que fazem quando emprestam dinheiro ao Estado em dificuldades e lhe permitem pagar amortizações da dívida comprada nos mercados). É nisso que se está a apostar. Pior seria se a uma intenção de venda não correspondesse uma intenção de compra. Nesse caso, a ideia do mercado seria que a probabilidade do Estado entrar em incumprimento era quase certa e aí o Estado teria de negociar directamente com os credores. Será o que acontecerá depois de 2013, se a ideia alemã for por diante.

    O problema actual é que não se percebe que o Estado deve ser gerido financeiramente como uma empresa ou uma família. Não há que ter medo do crédito mas é preciso saber controlá-lo e evitá-lo sempre que possível porque a receita vem dos impostos e as despesas entram sempre no bolso de alguém. E nestas coisas de fluxos financeiros a entrar e sair há sempre quem não goste e proteste.
    Hoje é nítido que temos um défice excessivo. Ou mandamos imprimir notas ou poupamos e não gastamos e pagamos as dívidas. A terceira via (dizermos que não pagamos) leva-nos à pobreza total e as outras duas deixam-nos apenas sobreviver. É a vida.

    Saudações republicanas e democrático-liberais,

    António Parente

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  20. António Parente's avatar
    António Parente permalink
    25 Novembro, 2010 14:29

    Meu Deus, o texto ficou tão grande que equivale a 500 posts do João Miranda. Fica aqui o meu pedido de desculpas. Não torno a repetir.

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  21. João Vasco's avatar
    João Vasco permalink
    25 Novembro, 2010 14:46

    António Parente:

    «Uns lucram com a venda, outros podem colocar na carteira títulos com um bom rendimento e com risco de default mínimo […] É nisso que se está a apostar.»

    Quem compra os títulos está apostar nisso.
    Mas quem vende tem de estar a apostar no oposto. No risco de default máximo.

    Se não existir default é, flutuações à parte, como se pagasse os tais juros de 7% a cada ano (a quem compra). Parece ser um péssimo negócio. Mas para os montantes envolvidos, certamente existiu muita reflexão antes desse negócio ser feito.

    Ou há novamente um problema de agência, como em relação às bolhas anteriores – temos de pensar nos incentivos dos gestores dentro das instituições financeiras, e não nos interesses dos egentes intervinientes no mercado – as instituições financeiras – ou então alguém está a perder muito dinheiro por alguma razão que não compreendo.

    Se o FMI entrasse, a que juro estaríamos sujeitos?

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  22. António Parente's avatar
    António Parente permalink
    25 Novembro, 2010 15:06

    Será sempre inferior à taxa de mercado. O problema português não é quantidade mas preço. Até hoje a procura sempre foi superior à oferta. A Grécia paga 5%, segundo li. A taxa média da dívida pública portuguesa actualmente anda entre os 3ou 4% (li isto algures). Se temos uma dívida pública total de 100 mil milhões, pagamos por ano 400 milhões. Como nunca temos excedentes orçamentais, a dívida pública total vai subindo, o serviço da dívida também e o Estado se não diminui a despesa, tem de subir sempre os impostos ou os credores começam a desconfiar que o devedor um dia entra em ruptura. E aí já não emprestam qualquer que seja o preço.
    O que o FMI vem fazer é obrigar-nos a reduzir a despesa, a aumentar a receita e a criar condições para que mais receitas surjam no futuro (por isso as famosas reformas estruturais). Empresta-nos dinheiro e com ele pagamos dívidas aos outros credores. Daqui a uns anos voltamos, eles têm menos dívida portuguesa na carteira e voltam generosamente a financiar-nos.

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  23. João Vasco's avatar
    João Vasco permalink
    25 Novembro, 2010 15:24

    António Parente,

    «Será sempre inferior à taxa de mercado» – exacto. Estava curioso em saber quanto inferior.

    A grande questão é que a vinda do FMI seria um pesadelo para quem vende a descoberto, pois corresponderia a um aumento da possibilidade de pagar as dívidas, e assim a uma valorização dos títulos vendidos a descoberto.

    No entanto, os GIPS mais facilmente chamam o FMI do que entram em default. Assim, vender estes títulos a descoberto parece ser uma péssima opção de negócio. Quase irracional.

    De onde só resta uma conclusão – há aqui qualquer coisa que eu não estou a ver. E que está ausente em tudo quanto se diz sobre este assunto. Como em muitos outros temas “quentes” parece que o tratamento noticioso nunca vai ao fundo da questão. Escrevem-se rios de tinta a repetir os mesmos números, mas ninguém escreve nada minimante mais detalhado para que alguém possa aprofundar a compreensão desta situação. No blogue Blasfémias também se escrevem rios de tinta sobre este assunto. Mas, se bem que tenha muito menos obrigações que um jornal feito por profissionais(!), também se aplica a mesma crítica: parece que não sabem bem daquilo que estão a falar, ou pelo menos não sabem mais do que eu, que é manifestamente pouco.

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  24. lucklucky's avatar
    lucklucky permalink
    25 Novembro, 2010 15:49

    @João Vasco queria que o problema da Dívida Publica fosse despoletado ainda mais tarde, quando esta ainda fosse mais pesada? Quantos % do PIB? País sem crescimento e a envelhecer?
    .
    Infelizmente não houve suficiente short-selling ou mesmo selling. Se tivesse havido o problema da dívida teria ocorrido muito mais cedo e a correcção seria muito menos dolorosa.
    .
    @PMP
    “Mas se os brilhantes economistas neo-liberais não têm obrigação de fazer empresas industriais ou agricolas em vez de estarem encostados nos sectores não transacionáveis, então quem tem essa obrigação ? Ninguém ? Então pregam mas não praticam ?”
    .
    Para quem tudo o que aumenta o Estado é neo-liberal, admira que ainda não tenha criticado os comunistas por terem emprego em empresas privadas…Já agora q quem compra os produtos?

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  25. António Parente's avatar
    António Parente permalink
    25 Novembro, 2010 15:57

    João Vasco
    Quem vende a descoberto não pode ter a posição aberta por muito tempo. Se eu hoje vender mil obrigações do tesouro a descoberto e se a liquidação física/financeira da operação for daqui a 4 dias eu tenho de garantir que naquela data tenho os títulos disponíveis para concretizar a operação. Ou os peço emprestados ou os compro. No primeiro caso – empréstimo de títulos – terei de os recomprar para os entregar na data de vencimento do empréstimo. Aí posso ir fazendo várias operações de compra/venda até à data de vencimento da operação de empréstimo. No caso de os comprar, então o prazo de compra é extremamente curto e a operação de especulação termina imediatamente.
    Quem vende títulos a descoberto aposta numa posição curta que tem de ser fechada num prazo de tempo mínimo. Ao fazer-se short selling está-se a apostar nos lucros de curtíssimo prazo em detrimento de outras alternativas. Em qualquer dos casos, o especulador não está interessado na taxa de juro mas apenas nas mais-valias do capital investido, isto é, na diferença entre preço de compra e de venda tendo em atenção os juros corridos.
    A “ciência” do short selling é ter capacidade para interpretar os movimentos do mercado e prever correctamente a direcção dos preços. É ser capaz de sair do mercado no momento exacto em que não consegue mais lucro. Significa isto que um trader que aposte no short selling deve ter uma posição “quadrada” no momento em que um factor adverso (por exemplo a chegada do FMI) chega ao conhecimento do mercado. Se não for capaz de o antecipar perde dinheiro, tanto ou mais quanto a sua rapidez em se desfazer da sua posição.
    Significa isto que quem aposta no short selling pode perder dinheiro. Não há nenhuma actividade especulativa que proporcione só lucros. O mercado funciona porque existem agentes com expectativas diferentes. Tal como há o especulador também existe o agente que procura investir num título com alto rendimento e que, na sua perspectiva, lhe dá alguma segurança.

    Quanto à sua crítica ao Blasfémias, tem de entender que este é um blogue sobre política e não sobre economia. Aqui a economia é instrumental em função da agenda liberal. Não há nada de mal nisso, as coisas são como são e os bloguers têm o direito de orientar os blogues conforme querem.

    E com isto já escrevi o equivalente a 2 mil posts do João Miranda. Renovo o meu pedido de desculpas.

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  26. lucklucky's avatar
    lucklucky permalink
    25 Novembro, 2010 15:58

    “Será sempre inferior à taxa de mercado. O problema português não é quantidade mas preço. Até hoje a procura sempre foi superior à oferta. A Grécia paga 5%, segundo li.”

    Que Confusão.
    A quantidade é irrelevante para esta análise porque não sabemos quanto essa quantidade pede de juro.
    É o mesmo que dizer que quando vai comprar um carro tem 500 modelos à escolha incluíndo Ferraris e Porsches. Se por ventura não tem dinheiro para isso não representa nada.
    A taxa Grega anda a mais de 10% no mercado da dívida.
    Isto é na que podemos chamar a bolsa da dívida os investidores – bancos ,fundos pensões, empresas etc.. para a comprarem querem no conjunto dê 10% de retorno. Ou seja vamos supor uns títulos a que o Governo Grego esteja obrigado a pagar 4%. São comprados por um preço mais baixo sobre o valor facial de modo a dar 10% de retorno caso o Governo Grego pague.
    A Grécia financia-se a 5% por causa da impressora do FMI.

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  27. João Vasco's avatar
    João Vasco permalink
    25 Novembro, 2010 16:31

    LuckLucky:

    «João Vasco queria que o problema da Dívida Publica fosse despoletado ainda mais tarde, quando esta ainda fosse mais pesada?»
    Mas eu porventura escrevi algo sobre o que queria? Eu queria perceber melhor o que se passa, só isso.

    António Parente:
    Se não estou em erro é possível prolongar os prazos através de operações compostas. Ou seja, pagar com aquilo que outro vendeu a descoberto, e por aí fora. Indefinidamente, enquanto existir vontade por parte dos agentes.

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  28. António Parente's avatar
    António Parente permalink
    25 Novembro, 2010 16:51

    João Vasco
    A única forma de short selling que não implica a compra de títulos é quando o vendedor a descoberto os pede emprestados e os compra mais tarde para os devolver a quem lhos entregou. É uma operação mais complexa e efectivamente um trader pode ir rolando os empréstimos de títulos. No entanto, para pedir os títulos emprestados terá de os trocar por dinheiro o que implica financiar-se no mercado à vista, etc. Não é fácil manter um esquema desses durante muito tempo porque estas operações também comportam riscos e têm custos.
    O princípio subjacente ao short selling – entrega dos títulos vendidos na data de liquidação – é exigido por todas as bolsas dos países desenvolvidos, tanto quanto eu saiba.

    Click to access Short-sales-paper.pdf

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  29. Bei Laute da Silva's avatar
    Bei Laute da Silva permalink
    25 Novembro, 2010 16:59

    Neste momento os «mercados», por vezes, são extraordinários.

    Se um qualquer governo de qualquer país não toma medidas ou toma medidas «pouco ambiciosas»:
    – ah e tal, que assim não pode ser, que o governo não tem coragem de fazer reformas de fundo, que não está interessado em mudar de rumo e tal e por isso o rating desce e o juro sobe

    Se um qualquer governo toma medidas contundentes:
    – ah e tal, que assim não pode ser, que as medidas vão levar a uma espiral recessiva, que contraem a economia e por isso não vai haver crescimento económico e tal e, por isso,o rating desce e o juro sobe.

    É preciso ter descaramento.

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  30. lucklucky's avatar
    lucklucky permalink
    25 Novembro, 2010 17:00

    “Mas eu porventura escrevi algo sobre o que queria? Eu queria perceber melhor o que se passa, só isso.”
    Pareceu. Se me diz que não peço desculpa.
    Quando uma instituição compra dívida de um País pode transaccionar essa dívida no mercado. É a maneira de haver liquidez nesse mercado, ou seja de haver muitos compradores de dívida. Senão fosse possível transaccionar dívida a não ser quando os países vendem haveria muito menos a comprar.
    Se uma instituição compra dívida Portuguesa, deve também apostar contra essa dívida indirectamente, ou seja apostar em algo que suba caso Portugal for à falência. Chama-se hedging. Apostar nos dois tabuleiros.

    Pode-se aliás ver como é que a existência de instituições como o FMI manipulam o mercado só pela sua existência. Senão existisse FMI já há muito tempo que as sinetas teriam tocado e a Grécia teria sido forçada a corrigir. Essa correcção seria muito menos dolorosa.
    O mesmo para Portugal. Sampaio só disse “há mais vida para além do défice” porque estávamos seguros atrás do Euro onde podíamos fazer – e fizémos- todas as asneiras imagináveis.

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  31. lucklucky's avatar
    lucklucky permalink
    25 Novembro, 2010 17:06

    “É preciso ter descaramento.”
    .
    Se duas pessoas tiverem duas opiniões diferentes sobre o seu carro é “descaramento”?
    Os mercados são as pessoas.
    E as pessoas têm opiniões diferentes e estão em circunstâncias diferentes. Por isso é que há quem venda e quem compra. Uma maravilhosa invenção em que duas pessoas com opiniões diferentes se entendem…
    .
    O problema é que a narrativa dos media tratam os mercados como uma entidade. E as pessoas vão atrás. É aliás cómico ler as notícias da bolsa e por 0,1% de subida ou descida os jornalistas dizerem “os mercados pensam isto ou aquilo” por valores minímos.

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  32. João Vasco's avatar
    João Vasco permalink
    25 Novembro, 2010 17:10

    lucklucky:

    Sobre aquilo que eu penso que deveria ser feito em relação a este assunto, não exprimi opinião precisamente pela razão que expús – não compreendo ao certo o que se está a passar. Oiço várias narrativas, mas nenhuma faz sentido, e nenhuma é profunda e detalhada o suficiente.

    Aquilo que diz sobre o hedging também não faz sentido na medida em que existiram alterações abruptas nos mercados – e o hedging mais facilmente poderia ser usado para explicar o contrário: porque é que haveriam menos flutuações abruptas em torno dos valores de equilíbrio.
    Ou seja, para explicar o possível ganho da estratégia de venda a descoberto de títulos da dívida grega e irlandesa (que aparentemente foi um fracasso, mas note que eu não estou a defender que tenha sido, apenas que me falta uma peça do puzle) o hedging não faz esse papel – não pode ser essa a peça que falta, bem pelo contrário.

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  33. António Parente's avatar
    António Parente permalink
    25 Novembro, 2010 17:23

    João Vasco
    Para ter todas as peças do puzzle teria de conhecer os dados de negócios privados e ter acesso a eatatísticas que não estão disponíveis. Talvez o mais fácil seja efectuar simulações simples com os dados do mercado, presumindo que existe liquidez para efectuar os negócios simulados. Até pode simular empréstimos de títulos, existem regras por aí na rede.
    Foi um prazer reconversar consigo. Até sempre.
    António Parente

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  34. Bei Laute da Silva's avatar
    Bei Laute da Silva permalink
    25 Novembro, 2010 17:53

    “Se duas pessoas tiverem duas opiniões diferentes sobre o seu carro é “descaramento”?”

    Compreendo a sua ideia e ela até seria pertinente não fosse far-se o caso de, em ambas as situações, o resultado ser: baixa o rating /ou sobe o juro.

    Parece-me que essas “duas pessoas” estão com sérios problemas de personalidade.

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  35. JoaoMiranda's avatar
    JoaoMiranda permalink*
    25 Novembro, 2010 18:13

    ««No entanto, os GIPS mais facilmente chamam o FMI do que entram em default. Assim, vender estes títulos a descoberto parece ser uma péssima opção de negócio. Quase irracional. »»
    .
    João Vasco,
    Quem vende a descoberto não mantém a posição aberta até ao fim da maturidade do produto. Recompra quando o juro atinge aquilo que considera o valor correcto. Ou seja, quem vende a descoberto não aposta no default, aposta que o mercado está a subavaliar o risco de default.

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  36. JoaoMiranda's avatar
    JoaoMiranda permalink*
    25 Novembro, 2010 18:18

    ««O preço a que Portugal vendeu os títulos de dívida pública não foram muito diferentes dos preços de mercado da altura. Por isso creio que quem fala em “ataque especulativo” (e note-se que tenho as dúvidas que expús em relação a esta possibilidade) refere-se às vendas a descoberto que terão resultado na diminuição do preço de mercado da nossa dívida, coisa que antecedeu em vários dias o leilão.»»
    .
    Quem quer que foi a leilão não divergiu do preço de quem eventualmente vendeu a descoberto. Isto implica que havendo alguém a vender a descoberto, esse alguém não está de forma alguma desfasado da opinião de quem está a comprar. As vendas a descoberto não têm qualquer possibilidade de criar preços fictícios.

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  37. JoaoMiranda's avatar
    JoaoMiranda permalink*
    25 Novembro, 2010 18:25

    ««Mas quem vende tem de estar a apostar no oposto. No risco de default máximo. »
    João Vasco,
    .
    Quem vende a descoberto com juros a 7% está a apostar que os juros ainda vão subir mais. Se subirem para 7,1% já ganha dinheiro.
    .
    Como próprio sistema de venda a descoberto requer uma recompra, o sistema não tem muita capacidade para manipular preços.

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  38. JoaoMiranda's avatar
    JoaoMiranda permalink*
    25 Novembro, 2010 18:29

    ««Se não estou em erro é possível prolongar os prazos através de operações compostas. Ou seja, pagar com aquilo que outro vendeu a descoberto, e por aí fora. Indefinidamente, enquanto existir vontade por parte dos agentes.»»
    .
    João Vasco,
    .
    Esse método não permite aumentar significativamente a quantidade vendida a descoberto. Só se tem liquidez para vender a descoberto depois de recomprar. Sem grandes quantidades a manipulação do mercado não é possível.

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  39. JoaoMiranda's avatar
    JoaoMiranda permalink*
    25 Novembro, 2010 18:39

    ««Ou seja, para explicar o possível ganho da estratégia de venda a descoberto de títulos da dívida grega e irlandesa (que aparentemente foi um fracasso, mas note que eu não estou a defender que tenha sido, apenas que me falta uma peça do puzle) o hedging não faz esse papel – não pode ser essa a peça que falta, bem pelo contrário.»»
    .
    João Vasco,
    .
    O hedging é capaz de ser neste momento a melhor razão para vender títulos da dívida grega e irlandesa a descoberto. Qualquer entidade que se queira segurar contra a implosão da zona euro tem interesse em fazê-lo. Até eu tenho interesse em fazer isso.

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  40. João Vasco's avatar
    João Vasco permalink
    25 Novembro, 2010 18:45

    João Miranda:

    «.Só se tem liquidez para vender a descoberto depois de recomprar. Sem grandes quantidades a manipulação do mercado não é possível.»

    Exacto.
    Isso até foi o que escrevi aqui «Eu entendo que isso [“manipulação”] possa acontecer com acções de algumas empresas supondo que um agente tem simultaneamente mais informação e poder de mercado que os outros intervenientes, e desta maneira faz dinheiro à custa destes outros. No caso da dívida pública parece-me mais duvidoso. »

    Quanto à ideia de que basta o título desvalorizar para que a venda a descoberto valha a pena, é verdade. Mas é preciso ver que cada dia que passa sem que as condições se alterem o título vale mais. Por isso o default é a derradeira “ameaça”, a razão que justificaria a tal desvalorização.
    Sabendo o custo de oportunidade e o juro pode-se imediatemente concluír qual é a avaliação implícita do risco de default.

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  41. JoaoMiranda's avatar
    JoaoMiranda permalink*
    25 Novembro, 2010 18:57

    ««Quanto à ideia de que basta o título desvalorizar para que a venda a descoberto valha a pena, é verdade. Mas é preciso ver que cada dia que passa sem que as condições se alterem o título vale mais. Por isso o default é a derradeira “ameaça”, a razão que justificaria a tal desvalorização.»»
    .
    Sim, mas o default é probabilístico. A probabilidade que os agentes atribuem ao default varia todos os dias, o que permite a quem vende a descoberto entrar no mercado e ganhar dinheiro.

    »»Sabendo o custo de oportunidade e o juro pode-se imediatemente concluír qual é a avaliação implícita do risco de default.»»
    .
    Sim. Esse é o método habitualmente usado para determinar a probabilidade de default.

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  42. JoaoMiranda's avatar
    JoaoMiranda permalink*
    25 Novembro, 2010 19:09

    A maior parte dos traders gere carteiras de activos pelo que trata todos os activos probabilisticamente tentando optimizar a carteira para risco e rentabilidade. Por isso é que pode haver um interesse momentâneo de vender a descoberto, mesmo quando para qualquer pessoa distanciada pareça que o FMI resolverá o problema.

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  43. João Vasco's avatar
    João Vasco permalink
    25 Novembro, 2010 19:11

    «Sim, mas o default é probabilístico. A probabilidade que os agentes atribuem ao default varia todos os dias, o que permite a quem vende a descoberto entrar no mercado e ganhar dinheiro.»

    Vejamos assim, existem flutuações em torno de uma linha. E, se não existir default, essa linha corresponde a uma contínua valorização dos títulos da dívida.
    Isto parece-me uma questão probabilística: a um dia do vencimento acontecer algo dramático que faça o país não pagar é menos provável do que a mesma ocorrência acontecer algures em 10 anos.

    Ora estatisticamente, caso não aconteça default, quem vende títulos da dívida está de certa forma a fazer o mesmo que o estado – a pagar um “juro” – que corresponde à contínua valorização dos títulos da dívida. Se esse juro é alto, esse é um mau negócio.
    Claro que há flutuações, mas nessas flutuações também há vendedores. Portanto se alguém que vende os títulos ganha dinheiro por causa dessas flutuações, outro vendedor perdeu ainda mais, pelo que a estratégia de venda foi má no geral. Sem default, todos os vendedores terão perdido dinheiro.

    Claro que se a probabilidade de default fosse 30%, e eu vendo os títulos a 90c o euro, eu fiz um negócio inteligente mesmo que no fim não tenha havido default (estatisticamente vou ganhar dinheiro com este tipo de operações, mesmo que não com esta em particular), mas a cada dia que passa sem que as condições mudem eu estou a perder dinheiro com esta operação.

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  44. anti-comuna's avatar
    anti-comuna permalink
    25 Novembro, 2010 19:18

    Atenção que os eventuais ataques à dívida Pública (seja de que país for) os ganhos não advêm só de um instrumento. Pode haver um portefolio bearish sobre determinado país, em que se alonga nuns activos e shortam noutros. Um exemplo corriqueiro. Puxar pelos CDSs de dívida soberana de um dado país e shortar acções de uma dada instituição financeira desse país, por exemplo.
    .
    .
    As manipulações podem envolver determinados activos para que tenham efeitos noutros activos.
    .
    .
    Um ataque especulativo, hoje em dia, tem sempre um portefolio de activos numa dada direcção, de molde a minimizar os custos e os riscos de um ataque mal sucedido. Dito de outra forma, é apostar com o risco menor possíve.

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  45. anti-comuna's avatar
    anti-comuna permalink
    25 Novembro, 2010 20:03

    Já agora, sobre o assunto que estavam a discutir e é interessante.
    .
    .
    Podem ler isto que também tem a ver:
    .
    “Europe Begins Push To Ban HFT: Calls “Quote Stuffing” Market Abuse, Dark Pools “Tragic Error”, And “Explicitly Rules Out” Flash Orders”
    .
    In http://www.zerohedge.com/article/europe-begins-push-ban-hft-calls-quote-stuffing-market-abuse-dark-pools-tragic-error-and-exp
    .
    .
    Atente-se sobretudo ao problema das famosas dark pools e à dita fragmentação dos mercados. Com jeitinho vão descobrir que foi um erro “privatizar” as próprias bolsas. eheheheheheehheh

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  46. Ricardo Ferreira's avatar
    25 Novembro, 2010 21:39

    Quando o dogma neoliberal é tão vincado, vê-se posts como estes. Faz-me lembrar os actuais comunistas a defender as virtudes da antiga União Soviética…

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  47. lucklucky's avatar
    lucklucky permalink
    25 Novembro, 2010 22:12

    “Aquilo que diz sobre o hedging também não faz sentido na medida em que existiram alterações abruptas nos mercados – e o hedging mais facilmente poderia ser usado para explicar o contrário: porque é que haveriam menos flutuações abruptas em torno dos valores de equilíbrio.”
    .
    Mudança cultural. O passar de uma situação de optimismo para uma situação onde a realidade bate à porta. Isso demora tempo.
    A conclusão a tirar é precisamente que não houve nem há ainda hedging suficiente.
    A cultura do optimismo não faz hedging ou limita-o a um valor minímo para estar psicológicamente seguro. Quem está nos bancos é também parte da cultura “at large”.
    Veja-se a reacção ás agências de rating que já de si por defeito são sempre optimistas quando baixam um valor no rating. Nem em países com uma espiral de custos crescente isso é tolerado pela sociedade: bancos, políticos, jornais todos protestam.
    Portugal já há muito deveria ter sido junk, assim como outros, mas não é.
    Agora terá inevitávelmente de não pagar dívidas ou de entrar em acordo com os credores.
    Mas as agências de rating não o dizem.

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  48. lucklucky's avatar
    lucklucky permalink
    25 Novembro, 2010 22:31

    Não houve suficiente numero de pessimistas para contrabalançar os optimistas.
    .
    A mudança vai demorar mas já começou:
    http://dealbook.nytimes.com/2010/11/22/a-dim-view-of-betting-on-start-ups/
    .
    A Dim View of Betting on Start-Ups
    By ANDREW ROSS SORKIN

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