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Não há paciência*

25 Fevereiro, 2011

Primeiro descobriu-se que inúmeros portugueses morriam sós. Durante semanas foi um corrupio de lástimas sobre as misérias dos novos tempos em que as várias gerações já não vivessem todas sob o mesmo tecto, como outrora, para obviar a tal problema. Lá veio a inevitável culpabilização das mulheres em particular, por não estarem em casa, e da sociedade em geral por não ter criado um sistema que cuide 24 hora por dia de cada idoso, ou velho, que no caso a designação é-me indiferente desde que não se recorra ao pirosismo do sénior!

Tudo isto era mais ou menos ridículo, pois não só vivemos muito mais – entre 1960 e 2008 a esperança média de vida dos portugueses aumentou 15 anos – como a coexistência de várias gerações na mesma casa não foi o paraíso que as vozes em off das rádios e televisões deixavam entrever nestas reportagens. Por mais que isto choque estas almas estremecidas, morrer de repente, só, em casa, não me parece que seja necessariamente pior do que agonizar por largos anos na cama de um lar, mesmo que muito acompanhado. Mas admito estar errada, até porque nestas coisas da morte nunca li nada mais acertado que a resposta do Parvo Joane que, num auto de Gil Vicente, declara que na hora de morrer se está só. O que leva a especular se Gil Vicente acreditava que até Deus se retirava daquele que é sem dúvida o momento mais solitário das nossas vidas, independentemente de quem temos ao nosso lado.

Como é óbvio, continuaremos a morrer sós e acompanhados, pois é assim que também vivemos. Contudo, hoje os mortos podem voltar a descansar, pois despertou-se para um novo assunto: o uso de arma eléctrica contra um recluso na cadeia de Paços de Ferreira. De repente parece que o problema das cadeias nasceu agora. São recorrentes as notícias sobre agressões dentro das cadeias: agressões entre presos, agressões de presos a guardas e agressões de guardas a presos. E se das prisões propriamente ditas passarmos para os centros de reinserção para jovens deparamos com situações ainda menos claras: em 2008, sete jovens barricaram-se no Centro Educativo da Bela Vista. Segundo a PSP, os funcionários do centro chamaram aquela polícia perante uma situação que consideraram incontrolável. Esta versão foi desmentida pela Direcção-Geral da Reinserção Social, que resumiu o sucedido a uma discussão. Ainda em 2008, um grupo de onze jovens sequestrou uma monitora noutro centro de reinserção. Dessa vez, nem a Direcção-Geral de Reinserção Social nem a PSP deram quaisquer explicações sobre o sucedido.

E o facto de nenhum recluso, repito nenhum, ter aderido ao Programa Específico de Troca de Seringas não só não motivou discussão como foi rapidamente esquecido. Que cumplicidades e pressões estão subjacentes a estes 100 por cento de não adesão?

Em boa verdade, este tipo de notícias raramente sai das páginas do Correio da Manhã e do Jornal de Notícias. A condição dos presos e a finalidade das prisões suscitou debates animados no passado. Mas não é esse o caso actual: da parte das elites, muito snobismo perante uma matéria que só lhes interessa devidamente enquadrada por análises sociológicas ou activismos de circunstância, e, da parte do povo, a descrença na justiça e a incompreensão sobre as penas aplicadas levam a que se feche os olhos ao que sucede nas cadeias. Acredito, e já o escrevi aquando da fuga em 2009 de um detido que na cadeia do Linhó teve tempo e oportunidade para assassinar com detalhes macabros outros dois reclusos, que se a classe média temesse que os seus filhos fossem presos não se aceitaria, quase como se estivesse perante uma fatalidade folclórica, aquilo a que vulgarmente se chama “código de honra das cadeias”. E muito menos que um misto de “tudo é possível” e de lei do mais forte vigore no quotidiano de algumas delas. A cela que o preso transformou numa imundice e dos agentes policiais utilizando uma arma eléctrica sobre um homem imobilizado são complementares: onde não se consegue impor o cumprimento de regras, quem tem força abusa dela. As imagens provenientes da cadeia de Paços de Ferreira foram a notícia-choque desta semana. Mas só foram surpresa para quem não tem querido ver o que sucede nas cadeias portuguesas.

Adenda: sinal evidente de como nestas coisas se anda a reboque do politicamente correcto e da agenda do BE é não se ter discutido o procedimento utilizado para resolver o sequestro numa dependência bancária. «O homem que manteve sequestrada uma mulher numa dependência do Millennium BCP na Rui Damião de Góis, no Porto, acabou detido, perto da meia-noite, quando permitiu a entrada da equipa do INEM no local para prestar assistência à vítima. Quando os elementos desta unidade médica entraram nas instalações da dependência bancária os agentes da PSP invadiram o local e acabaram por deter o sequestrador, que possuía uma arma branca.» Como ninguém disparou não se discute nada mas este procedimento pode ter implicações futuras muito graves na vida doutras pessoas. Mas se o BE não tiver um estremecimento as redacções manter-se-ão no seu torporzinho. 

*Adaptado do PÚBLICO

3 comentários leave one →
  1. AB's avatar
    25 Fevereiro, 2011 10:37

    Tem razão Helena, parece que a insanidade que ataca o Governo está a estender-se aos média e através destes ao Povo.
    .
    Parece que nos próximos dez dias não vai chover. Valha-nos isso!

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  2. campos de minas's avatar
    campos de minas permalink
    25 Fevereiro, 2011 10:48

    não há paciência!
    veja-se a facilidade com que sócras ridiculariza a débil mental proposta do psd para desemprego jovem.

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  3. James's avatar
    25 Fevereiro, 2011 11:21

    Helena, excelente , os meus «amiguinhos« acusam-me de ter um «espírito demasiado aberto» (sempre fui assim…) e de apreciar o que andas a escrever (eles enjoaram-se de ti, eu prefiro avaliar as ‘coisas’ caso a caso).
    Sobre um dos assuntos em epígrafe: não é grave viver sózinho (‘desporto’ que pratico vai para 27 ou assim anos.
    O que é realmente chato é ficar cadáver e ninguém dar por isso, até que conmece a cheirar (muito) mal.
    Em relação ao resto, «conventional wisdom» s.f.f.

    Uma vex mais ‘parabénicos’.

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