O discurso encantatório*
*Todas as semanas terá de haver o anúncio de mais uma dádiva ou de mais um programa que vai fazer Portugal avançar para o futuro. Tudo sempre num frenesi, com apresentações cheias de efeitos especiais e desenhos de ruas, cidades e paisagens virtuais. Para preencher os tempos mortos há que inventar causas que encenem o ambiente de luta entre os progressistas, nós, e os retrógados, eles.
*Nós damos. Eles tiram. Não podemos dar tanto quanto gostaríamos -nós por nós daríamos tudo – mas vamos agora dar escolas. Vamos dar uma caixa de correio electrónico a cada português. Vamos apoiar o carro eléctrico, a cultura e os painéis solares. Vamos ter o MIT, os PIN, TGV e muitos Magalhães. E diplomas das Novas Oportunidades para todos.
*Quando alguém tem dúvidas, é tratado como um herege e apresentado como um excêntrico. Reage-se sempre atacando: desmente-se categoricamente o que se diz ser absolutamente falso e rotundamente errado e que verdadeiramente só é dito por reaccionarismo, antipatriotismo, bota-abaixismo ou tremendismo.
*O tempo é como que acelerado. Leis em catadupa, anúncios que se contradizem, programas que nunca ninguém viu… nada disso interessa, porque aquilo que conta é que não existe tempo para dúvidas. Nunca se pode parar para reflectir.
Foi este o guião de José Sócrates. Ou melhor, foi esta a estrutura do discurso encantatório que lhe permitiu ganhar eleições. O discurso encantatório é incompatível com uma simples hora de bom governo, mas é fantástico para conquistar o poder. Numa primeira fase, a do optimismo, porque as pessoas de facto querem acreditar que não existe diferença entre o anunciado e o possível. Numa segunda fase, que é aquela em que agora nos encontramos, porque essas mesmas pessoas vivem sob o medo de perder o que ainda têm.Note-se que nesta segunda fase o discurso encantatório é ainda mais perigoso, porque o medo de perder o que já se sabe escasso é um sentimento muito mais poderoso do que o optimismo da conquista. Esse medo da perda é hoje omnipresente nas conversas, sejam elas de rua ou de gabinete, e nos olhos de muitos dos que desfilaram na manifestação do passado sábado. E sobretudo anos de discurso encantatório tornaram os portugueses um povo domesticado e temeroso de iniciativas.
Houve um tempo não muito distante em que os portugueses acreditavam que podiam mudar a sua vida para melhor. Faziam empresas. Emigravam. Acreditavam que o seu destino dependia em boa parte da sua determinação. Agora, após anos e anos de discurso encantatório, sabem que o seu sucesso depende não tanto de si mesmos, mas sim do director-geral, do secretário de Estado, do vereador e do presidente do instituto que vão analisar o seu projecto. Ou então intuem que a sua sobrevivência está nas mãos da funcionária da Segurança Social que lhes anuncia se o sistema aceita ou não a sua inscrição para os apoios cujos beneficiários são cada vez menos.
No dia-a-dia as pessoas passaram a exprimir-se numa língua estranha em que os factos são referidos de forma inversa – as coisas não correm mal, correm sim menos bem – e onde, seja quando testemunham uma agressão no meio da rua ou são confrontados com o apagão do sistema informático aquando das últimas eleições, nunca ninguém assume ser responsável por nada.
O discurso encantatório só perde a eficácia perante a absoluta evidência da realidade. Aí deixa de ser encantatório e passa a patético, como esta semana se constatou durante a entrevista de Sócrates à SIC. Por isso Sócrates precisa de partir rapidamente para campanha eleitoral.
José Sócrates quer ir para eleições não só porque essa é a sua possibilidade de vencer Passos Coelho, humilhar Cavaco Silva e manter o seu poder sobre o PS, mas também porque, agora que a crise já não é passível de ser negada nem justificada pelas circunstâncias internacionais, uma campanha eleitoral é o tempo-espaço-palco que lhe permitirá recuperar o discurso encantatório, desta vez centrado no medo de perder e não no anúncio do dar.
Vamos ter semanas de “nós reduzimos salários mas eles reduzem ainda mais” e de “nós fechamos escolas mas eles querem desmantelar a escola pública”. Por isso a saída desta crise não é possível com Sócrates, pois só sairemos da crise quando se assumir que o discurso encantatório é um logro com resultados trágicos para os mais pobres e um perigoso auto-engano para as instituições, empresas e sociedade civil. E Sócrates, seja como primeiro-ministro seja como líder do PS, não existe sem esse discurso. Nem para lá dele.
*PÚBLICO

gostava de ver o pessoal do ps a epitetar o PR, de forma análoga ao tratamento verbal difamatório com que o pessoal do psd trata o PM.
e gopstava de ver as reacções das virgens ofendidas.
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A notícia sobre o Estado que pagará as rendas dos mais pobres é mais disso, tem clientela certa e aparece na hora exacta no âmbito do mesmo tipo de estratégia do pequeno-almoço com Figo.
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o psd tem actualmente o líder de bancada parlamentar mais abjecto de sempre! e a canalha menor que o secundam com o «muito bem» é inenarrável!
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A subida das pensões mínimas anunciada há momentos por Sócrates na AR é a última alínea do discurso encantatório.
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Mentir é uma coisa. Outra, completamente diferente, é ter o descaramento de ir à AR designar por equívico a apresentação das medidas. O que se está a passar é pior do que cuspir na cara dos portugueses. O presidente tem a obrigação de agir como o PS quer. Basta olhar para a cara de todos os membros do governo na AR para perceber que estão a viver um filme de terror e tentam sacudir a água do capote.
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‘sei viver na penúria e na abundância’
carta de São Paulo aos Filipenses
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Isto está tudo ligado!
.
http://www.youtube.com/watch?v=QiY8QB1fNAY&feature=player_embedded
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E por que motivo resulta o “discurso encantatório”? Porque histórias como estas:
http://lishbuna.blogspot.com/2011/03/abutres-4-e-5-partes-ou-more-songs.html
aparecem, como cometas, nos noticiários e, logo a seguir, esfumam-se sem produzirem consequências.
Faz muita falta uma boa meia dúzia de Rottweilers informativos que não largassem o osso até tudo ficar definitivamente esclarecido.
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enquanto o passos agrava a sua corcunda a tentar descalçar a bota:
a bolsa sobe 1,2%
o euro sobe para 1,41 usd$
as yelds diminuem
and so on…
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Os títulos encantatórios da Helena, são tão encantatórios que não dá para ler o resto.
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Excelente descrição do governo dos últimos 5 anos.
Só espero que sejam mesmo os últimos.
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Brilhante Post. A malta marxista já nem tem argumentos contra ela.
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e o passos a continuar a agravar a sua corcunda a tentar descalçar a bota…e a ver a coisa negra:
está entalado entre sócrates e a maralha do seu partido ávida do pote…
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É com artigos encantatórios como este que, se começa a fabricar um mito, dado o P.Ministro ser
tão endeusado por toda a comunicação social, indo para eleições naturalmente o bom Povo irá
votar nele em massa e, justamente! Os demagogos da concorrência não lhe chegam aos calcantes,
seja na apresentação ( Dandy), seja no engenho ( Eng.Tec.), em estratégia política é melhor não se
falar (bebeu muita filosofia), até sabe e pratica corrida…viu-se a forma carinhosa com que Merkle
o chamou a si, para a foto do grupo da última reunião em Bruxelas!
Já repararam no ovo da Kinder, a forma como ele procura imitar Sócrates? Pois, prestem atenção
até o movimento das mãos se estão a assemelhar…mas, falta-lhe aquele bocadinho de convicção
quando fala, dá a sensação que está com receio de se enganar e o patrono possa mudar de idéias e
voltar-se para o R.Rio, é um pouco triste!
Quanto ao encantatório artigo deixa-nos a impressão de ser um amor não correspondido e isso, é o
pior que nos pode acontecer, são das piores dores ( corno e cotovelo) !!!
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Desta vez, por muito que se esfalfe e a comunicação social lhe dê tempo de antena sem o confrontar com a verdade,vai mesmo cair.
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