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Manifestos, rumos e paradigmas….*

26 Novembro, 2011
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Em véspera de greve geral, a imprensa noticiou a divulgação de (mais) um manifesto. O subscritor de destaque foi Mário Soares. “Um Novo Rumo” intitula esta iniciativa que apela à mobilização geral dos cidadãos “que se revêem nos ideais”. Ouvindo Vítor Ramalho – outro dos subscritores – soube que aquele grupo de socialistas clássicos (e outros menos clássicos e pouco ortodoxos, como Isabel Moreira ou Medeiros Ferreira) entende ser necessário um novo paradigma de relações económicas e sociais. Qual? Essa é a questão que, invariavelmente, fica sempre por responder. Ora, novos rumos e, sobretudo, novos paradigmas, têm povoado a actual narrativa política da crise. Andamos todos à procura disso, sabemos que não poderemos continuar pelo caminho que nos trouxe até aqui, porém, estamos como Régio, no seu “Cântico Negro”: “não sei por onde vou, (só) sei que não vou por aí”!

A invocação de novos paradigmas tornou-se, portanto, um lugar-comum, sendo certo que, à falta de soluções ou ideias realmente novas, lá invocamos a mudanças dos ditos, como uma forma alternativa de se dizer tudo e o seu contrário. A actividade política, entre nós, tem vindo, cada vez mais, a resvalar nesse tipo de nominalismo inconsequente, numa espécie de retorno às piores tradições bacocas do parlamentarismo oitocentista, de fim de regime, nesse caso, monárquico-constitucional. Talvez seja um sinal dos tempos, talvez os tempos que correm sejam, também eles, de fim de regime! Para já, para já, em termos político-partidários imediatos, creio que esse manifesto tem, contudo, uma consequência menos “ideal” e mais prática: atrapalha a vida a Seguro, dentro do seu próprio Partido. Qualquer tentativa de adopção, pelo actual líder do PS, de uma pose de oposição responsável e dialogante com o Governo, para combater a situação de emergência e de desnorte financeiro-orçamental em que nos atolamos (com a ajuda importante daquele PS Socrático que, agora, seguramente, aproveitará, também, a boleia do manifesto, como instrumento de guerrilha partidária), terá, naquela iniciativa, uma espécie de rosto visível do contra. Uma espécie de resistência, dentro do próprio partido de Seguro, à mudança de paradigma… Quem também parece querer mudar de paradigma de actuação política é Durão Barroso. Finalmente, avançou com uma proposta de reflexão (ainda não passamos à acção!) relativa aos “Eurobonds”. Relevante é, nesse primeiro passo, a afirmação de uma ideia de rumo político próprio da Comissão, dissonante do da dupla “Merkozy”. A questão é: com a casa comum (a Europa) a arder, cada vez mais, ainda haverá, agora, tempo para reflexões?

* Grande Porto, 25.11.11, Opinião.

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  1. lucklucky's avatar
    lucklucky permalink
    26 Novembro, 2011 13:56

    Talvez os Soci@listas agora não possam apresentar o novo paradigma porque isso seria “ideológico” e nos últimos tempos a Esquerda cada vez mais fala contra as ideologias. Surpresos? eu também.
    Até gostam de usar expressões como “conteúdo marcadamente ideológico” , “ferozmente ideológico”
    Passou a ser maldade a ideologia…d
    Mas obviamente para a Esquerda a maior maldade é fazer contas. A Esquerda é como os Fundamentalistas Religiosos e a Teoria da Evolução. Apagam a Matemática do cannone da Civilização Ocidental.
    E a Matemática não é uma Teoria. Logo ainda conseguem estar num grau mais abaixo.
    Apagar a Matemática entrou tanto da narrativa que na TV quando alguém falava de números ainda não há muito pedia desculpa aos espectadores por ir falar de números.

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