Para termos espiões destes, prefiro o Google
Hoje, no Público, a história de um encontro (breve) com Silva Carvalho e algumas reflexões sobre indignações e memória curta.
Aconteceu no Verão passado. Num dia de Agosto. Num hotel de luxo de Lisboa. Encontrei-me com Jorge Silva Carvalho. Só bebi uma água com gás. Mas ele pagou a conta. É possível que esteja tudo nas suas agendas, telemóveis e computadores. Incluindo a água.
O encontro ocorreu a pedido de Silva Carvalho. Depois de me ver fazer, na SIC Notícias, um comentário duro à sua actuação, enviou uma mensagem para a minha conta no Facebook. Queria encontrar-se comigo para me esclarecer. Nunca recusei, em toda a minha vida profissional, este tipo de encontros. Lá fui. E de lá saí mais esclarecido: o antigo superespião tinha-se em alta consideração e todas as dúvidas que lhe manifestei sobre a empresa em que trabalhava, a Ongoing, geraram respostas que adensaram as minhas suspeitas. Por isso, se algo me surpreende em tudo o que temos vindo a saber, é o número de pessoas (incluindo muitos jornalistas) que tinha em alta consideração o antigo director do SIED.
O que temos vindo a descobrir – sobretudo devido a uma investigação judicial ordenada por este Governo, é bom não esquecer – é tão grotesco como inquietante. Parece hoje claro que a Ongoing contratou Silva Carvalho para montar um centro de informações privado. Tal como parece claro que este utilizou as suas ligações não só para recrutar outros ex-espiões, como para continuar a tirar partido, em benefício próprio e da sua empresa, dos recursos dos serviços de informação do Estado. Mais: relatórios como o produzido sobre Francisco Pinto Balsemão – o grande inimigo de Nuno Vasconcellos, o patrão da Ongoing – mostram não só uma mentalidade inquisitória e pidesca, como revelam, ao misturarem factos públicos com boatos demenciais, uma mistura de preconceito, ignorância e incompetência que não se sabe se é exclusiva de quem os produziu na Ongoing, se é comum aos serviços de informações de onde aquela gente veio.
Desde que, há quase um ano, começaram a ser conhecidas as ligações e actividades dos ex-espiões da Ongoing que tenho vindo a defender algumas medidas de profilaxia mínima. A primeira passa pela modificação das normas que hoje permitem aos agentes dos serviços de informações transferirem-se de armas e bagagens para empresas privadas, levando consigo ficheiros e dossiers. Quarta-feira, no Parlamento, o primeiro-ministro veio dizer que essas reformas eram necessárias. Já o podia ter feito há meses.
Outra medida profiláctica que também defendo desde o Verão passado – e que então era recebida com grande cepticismo – deverá passar pela clarificação da pertença simultânea a uma Maçonaria e aos serviços de informações. Entendo que, numa democracia e em liberdade, essa dupla lealdade devia ser clara, que nada justifica o estatuto “discreto” dos maçons que são, também, agentes secretos.
Por fim, defendi uma limpeza das chefias dos serviços de informações, a generalidade delas nomeadas ainda pelo anterior Governo, e que o actual insiste em não fazer. Hoje começo a duvidar que chegue uma mudança de chefias: a cultura daqueles serviços, as suas eternas guerras intestinas e as muitas interferências políticas que tiveram no passado aconselham à sua refundação. E não ficarei muito preocupado se nos desprotegermos temporariamente: afinal, pelas amostras conhecidas, de clippings a relatórios tão abusivos como amadores, há boas razões para duvidar da real utilidade e eficácia de serviços como os que temos.
Uma boa pesquisa no Google é mais eficaz e tem menos efeitos secundários na liberdade alheia.
Mas há mais aspectos a exigir esclarecimentos ou mudanças. Um exemplo: o responsável máximo do sistema de informações, Júlio Pereira, veio a público garantir que o relatório sobre o director do Expresso, Ricardo Costa, não tinha sido produzido pelos serviços. É bom que seja verdade, pois nada pode justificar realizar relatórios sobre jornalistas. Porém, estamos a falar de serviços que encontraram forma de conhecer a lista de telefonemas feitos pelo antigo jornalista do PÚBLICO Nuno Simas, um episódio que não deixa esquecer que até hoje não foi esclarecido como é que, em vésperas das eleições legislativas de 2009, correspondência interna do PÚBLICO foi violada e os emails foram parar às mãos de gente ligada ao Governo de então. É bom ter memória.
Tudo isto para além de não se conseguir entender como é que um documento com a gravidade do relativo a Ricardo Costa não foi considerado relevante pelas autoridades judiciais que investigaram Silva Carvalho e a Ongoing. Estarão também elas infectadas pelo vírus que leva a desvalorizar intromissões na vida privada? Por exemplo: para que queria Silva Carvalho saber em que colégio estudam os filhos de Ricardo Costa? É de imaginar o pior…
É também bom ter memória no que respeita à Ongoing, uma empresa que agora todos colocam no pelourinho, incluindo muitos dos que a defenderam quando ela participou na vergonhosa tentativa de compra e controlo da TVI. Como disse recentemente Francisco Balsemão, num debate de jornalistas em que também participei, “a (triste) realidade é que quem tenha muitos milhões (ou, melhor ainda, consiga que a banca lhe empreste muitos milhões, mesmo que não faça tenções de os pagar) pode gastar alguns em empresas de comunicação social que nunca ganharão dinheiro, mas cujos media serão úteis ao cumprimento dos objectivos dos milionários proprietários”. É difícil não ver aqui uma referência directa à Ongoing, e referência certeira.
Este mesmo jornal publicou, há tempos, uma excelente investigação de Cristina Ferreira sobre a teia de interesses e ligações daquela empresa onde ficava muito claro como ela tinha sido instrumental e servil (até uma zanga no Verão de 2010) relativamente ao anterior poder político. É isto alguma novidade? Não devia ser. Eu próprio denunciei essas ligações e essas práticas durante uma audição na Comissão de Ética da Assembleia no início de 2010. Muitos dos “indignados” de hoje também se indignaram nessa altura, mas comigo. É esta memória que nos permite estar alerta, pois empresas deste tipo não agem por ideologia, actuam antes em função dos seus interesses e do poder do momento. Há mais do género no sector da comunicação social, todos o sabemos. Tal como sabemos que estamos a pagar caro a condescendência com que encarámos as manobras de 2009, como já sublinhou Pedro Lomba neste jornal.
Em 2007 e 2008 a Sábado revelara as relações entre algumas lojas maçónicas, agentes dos serviços de informações e políticos. Ninguém ligou. Não era conveniente na altura. Hoje sabemos como muitas das relações que nos fazem desconfiar da hombridade dos serviços de informações também passaram pelas reuniões do avental. De novo o assunto parece estar esquecido. Só que não podemos ver o retrato todo sem lhe acrescentar este lado “discreto”, porventura sombrio.
Quanto a tudo o mais, recordo apenas que há ambientes que se frequentam e outros a que, uma vez conhecidos, não se volta. O discernimento dos homens públicos também passa por aí. Não é, sr. ministro?
P.S.: Sempre fui frontalmente contra qualquer tentativa de resolver nos tribunais o que pertence à política. Não posso, no entanto, deixar de me interrogar sobre se o conteúdo do relatório do Tribunal de Contas sobre as PPP rodoviárias não deveria ter consequências judiciais. Uma coisa é ter optado por um modelo errado. Ou ter multiplicado, “por ideologia”, como gostava de dizer no Parlamento José Sócrates, a construção de infra-estruturas hoje às moscas. Ou mesmo ter feito maus negócios, aceitando remunerar accionistas das novas PPP por valores “claramente superiores aos praticados no mercado”. Tudo isto caberá, por mais que nos custe a engolir e a pagar, no domínio das opções políticas e das circunstâncias de um governo. Mas já é totalmente diferente esconder do Tribunal de Contas contratos adicionais, com um impacto financeiro de 705 milhões de euros, única forma de conseguir um visto que antes fora recusado. Estas manobras têm rosto. O mais evidente é o de Paulo Campos, actual deputado do PS e ex-secretário de Estado do sector. Mas é o único, como sabemos.

li o seu artigo no público d’hoje(1,60€) e notei uma suave nuance: não transuda tanto desvelo quanto a usual fidelidade canina ao poder estabelecido,pelo que presumo que o vetusto escrevinhador não anda a ser untado com o respeito e consideração devidas.
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O jmf1957 até podia escrever que se encontrou com a minha tia Natari, e que mandou vir meia de leite.
Mesmo que essa minha tia não exista, inventa-se.
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Grande post,literalmente.Aconselho a compra alugue ou outros do filme J.E Hoover junto a ele os nossos espiões são miudos da pre-primária
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Interessantíssimo e altamente pedagógico.
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Fica-se a saber que para o jmf 57 a justiça não é independente do poder político- este até pode mandar fazer uma investigação e que tudo o resto é à soviete de memórias leninistas.
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O detalhe que era escusado era acentuar que nunca se escusou em serviço a encontros desta natureza.
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Já se sabia. Incluindo aqueles em que até precisava de enfiar a kipah pelo cocuruto abaixo. Só não consta que alguma vez tenha chamdo PIDE à Mossad
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Grande post, e há quem não tenha vergonha na cara, bando de putedo, de aventais e nepotismo mafiosa, a quem estamos entregues, como um nojo… Ó raça intriguista, inútil, de políticos a procuradores e advogados prostitutos, cambada de ratos, ponham a máscara, busquem ocupação honesta .
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Estas histórias fazem lembrar o Coelho da Alice in Wonderland.
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“Oh dear! Oh dear! I shall be too late!”
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Esse é mais o JPP.
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Gostei do texto.
Duas notas:
1 – Sobre isto, “Encontrei-me com Jorge Silva Carvalho. Só bebi uma água com gás. Mas ele pagou a conta. É possível que esteja tudo nas suas agendas, telemóveis e computadores. Incluindo a água.”, o homem provavelmente anotou uísque “Macallan Fine and Rare 1926”;
2- Sobre o título, “Para termos espiões destes, prefiro o Google”, discordo. A coscuvilhice é mais saborosa ao vivo. Alguém imagina as coscuvilheiras da “Aldeia da Roupa Branca” a preferirem o Google, se à época existisse?
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Humpty Dumpty sat on a wall,
Humpty Dumpty had a great fall.
All the king’s horses and all the king’s men
Couldn’t put Humpty together again
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Il y a des gens qui trouvent toujours quelque chose à ne rien dire …
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Como nós, zazie? 😉
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Nós não somos servidores do rei e da rainha. Por isso não precisamos de um exército para nos voltar a colocar em cima do muro
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“:OP
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Mas eu gostava de saber quem pagava os almoços de kipah. Lá isso gostava.
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Como vulgar receptor de mass media estou com alguma urticária quanto a uma presença “lateral” constante nos convocados das comissões, ou ouras “ões” da Assembleia diar da República:
FERNANDO NEGRÃO
As ditas “ões” viraram episódios de “culinária” para as receitas das “degusto” da AR?
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ou há azeite a saltar, e necessita-se de aventais?
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«… nada pode justificar realizar relatórios sobre jornalistas… ». Porquê? Estarão os jornalistas acima de qualquer suspeita? Serão “isentos”?
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Quem me informa, por favor, onde posso encontrar o video relarivo à últime Quadratura do Círctko.
Fico, desde já, muito agradecido.
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http://rd3.videos.sapo.pt/play?file=http://rd3.videos.sapo.pt/2IrrtFbB4M8RgcZKAF9k/mov/1
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JMF
Sempre igual a si próprio.
NOJENTO!!!!!
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Esta confissão, é o chamado “por as barbas de molho” porque as do vizinho já estão a arder!
Este aprendiz de feiticeiro continua a querer atirar areia para os olhos dos incautos, foi apanhado
na colaboração das campanhas montadas para atingir o anterior Governo e o P.Ministro, no jor-
nal de que era director, mesmo assim, hoje até se socorre desse eminente “analista” Lomba de sua
graça e que, no “Público” vai vertendo o sumo das caraminholas que povoam a sua pobre cabaça!
È preciso ter muita lata…ou como dizia o outro, temos que ganhar a vida como? Não interessa!!!
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Este Silva Carvalho é assim uma mistura de Sopranos regado com Frederick Forsyth. Fica-me a dúvida de que interessa saber da vida do director comentadeiro Costa? Sabendo que é irmão do outro já é suficiente e assim vai este rectângulo à beira mar plantado a juros baixos com os marqueses de Lisbonera de sempre, para estes há sempre! Quanto à Ongoing, lá o espanhol bem mostrou ao tuga deslumbrado como é viver bem, e é bom que continue e que passe esta fase pois em 2 anos produziu o melhor canal tuga de televisão por cabo, o ETV, que mete a sic-noticias num chinelo e não é generalista.
Bem agora vou degustar um artesanal e verdadeiro queijo Cabrales que os morcões de Lisboa não conhecem pois não o encontram no Corte Inglês ou como dizem os morcões de Lisboa no El Corte Inglês, tentando disfarçar um certo provincianismo deslumbrado genético (que se pavoneia a esta hora por Paris).
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Ongoing, Finertec, Fomentinvest,… Vivem de quê? Quem as financia e com que garantias? Haverá quem explique?
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Many thanks, Pisc…
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Teria cabida aquí o comentario a este post aportando aquela máxima latina da “excusatio non petita…”
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