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A Norte, nada de novo*.

24 Dezembro, 2012
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Esta semana, aparentemente, não trouxe bons presentes natalícios para o Porto, para o Norte e, de um modo geral, para todos os que sentem como um imperativo não só patriótico, mas também de sobrevivência, a necessidade de se regionalizar o país. Digo “aparentemente” porque, bem vistas as coisas, os efeitos negativos da dinâmica centralista do Estado, já só seriam quase irrelevantemente atenuados se, porventura, os casos que referiremos não tivessem ocorrido.

Ora, (…), um outro desses casos reporta-se ao Acórdão do Tribunal de Justiça da União Europeia de 19 de Dezembro, suscitado indiretamente (tratava-se de um reenvio prejudicial) pela “Grande Área Metropolitana do Porto” contra o “Programa Operacional Potencial Humano” e contra o Estado Português. O que é que estava em causa? Simplesmente a aplicação, pelo anterior Governo, de Fundos da União, no âmbito do referido programa, em ações de formação de funcionários do Instituto Nacional de Administração, do Sindicato dos Quadros Técnicos do Estado, do ISCTE, do Ministério da Saúde e do Instituto do Desporto – tudo entidades instaladas em Lisboa e ligadas à administração central.

Esses fundos, destinados à promoção da convergência e coesão nacionais, deveriam, contudo, beneficiar as denominadas regiões NUT 2 (com exclusão de Lisboa e Vale do Tejo). Portanto, defendeu a Área Metropolitana, a regulamentação portuguesa que permitiu aquele investimento em entidades territorialmente situadas em Lisboa, violaria, “grosso modo”, o Direito da União. O Governo português e a Comissão Europeia defenderam que tais financiamentos cabiam no âmbito das exceções justificadas pelo famoso “spill over effect”, ou seja, a velha história (treta?) de que há investimentos que, mesmo quando realizados em Lisboa, justificam-se à luz dos objetivos da coesão e do desenvolvimento regionais por causa do seu “efeito multiplicador” benéfico. Assim, esses investimentos, indiretamente, provocariam mais-valias em regiões distintas daquelas em que foram efetivamente realizados. O Tribunal de Justiça afirma, em síntese, que a justificação do Governo é viável, não sendo necessário que, apesar dos objetivos de convergência de tais fundos, eles sejam gastos territorialmente nas regiões menos desenvolvidas – desde que, de qualquer forma, estas beneficiem dos seus efeitos. Claro está que o Acórdão em causa também endossa para o Tribunal nacional (o Tribunal Aduaneiro e Fiscal do Porto) a responsabilidade de verificar se esse benefício é visível e fundamentadamente concretizável, ou não. Ou seja, a questão ainda não morreu definitivamente e agora, terá que vir a jogo o Tribunal português…

* Semanário Grande Porto, ed. 21.12.12.

8 comentários leave one →
  1. murphy's avatar
    murphy permalink
    24 Dezembro, 2012 10:37

    Obrigado por não deixar cair o tema das assimetrias regionais e da Regionalização, no esquecimento.
    Ora aí está um assunto da maior relevância para o País, lamentavelmente, ignorado pela comunicação social…
    http://jornalismoassim.blogspot.pt/2012/11/o-tabu-das-assimetrias-regionais-em.html

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  2. trricAssyrian's avatar
    trricAssyrian permalink
    24 Dezembro, 2012 12:42

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  3. tric's avatar
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    24 Dezembro, 2012 14:53

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  4. tric's avatar
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    24 Dezembro, 2012 14:57

    Sauditas e Judeus unidos na destruição da Cristandade no Médio-Oriente…
    .
    http://www.youtube.com/watch?v=kvJMJcVb3ZA

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  5. tric's avatar
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    24 Dezembro, 2012 15:05

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  6. tric's avatar
  7. Basto_eu's avatar
    Basto_eu permalink
    25 Dezembro, 2012 22:32

    Por Paulo Ferreira
    JN
    Em 11-10-2009.
    “Conhecem o “spill over”?
    1. O Governo aprovou, já em campanha para as legislativas, uma alteração ao modo de distribuição dos fundos comunitários que permite o seguinte: desviar para a região de Lisboa e Vale do Tejo verbas do Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN) que estavam consignadas a outras regiões do país. O “negócio” foi previamente acordado com a Comissão Europeia. As regiões que ficarão sem os fundos que lhes cabiam por direito próprio podem, por isso, agradecer também ao dr. Durão Barroso o favor que lhes prestou. Portugal foi o único país da União Europeia ( repito: o único entre 27) a optar por este esquema…
    .
    Tecnicamente ( e o tecnicamente aqui é importante, na exata medida em que estas manigâncias são enroladas em burocracia inextrincável, de modo a que ninguém perceba o alcance da matéria), tecnicamente, dizia, a explicação é a seguinte: há uma coisa que se chama “spill over” (efeito difusor) que permite ao Governo entregar a Lisboa e Vale do Tejo verbas das outras regiões, desde que essas verbas sejam aplicadas em projetos de alegado interesse nacional– isto é: em projetos que, apesar de criados na capital, tenham um efeito positivo nas outras regiões.
    .
    Tecnicamente ( lá estamos outra vez), isto faz algum sentido? Pode fazer, se os projectos forem realmente criadores de efeitos positivos para o resto do país. Sucede que, quando olhamos para as ideias em causa, só nos resta abrir a boca de espanto. Eis alguns exemplos de projectos do suposto interesse nacional: aplicação de um sistemaa de gestão documental; portal do Ministério do Trabalho e Segurança Social; excelência e sistema de qualidade certificado na norma ISO 9001…Há mais, muito mais coisas deste género: como se percebe à primeira vista, são de relevantíssimo interesse para todas as regiões portuguesas.
    .
    Este caso, que é muito sério, já mereceu a reprovação de alguns autarcas do Norte e de Junta Metropolitana do Porto. Todas, em conjunto, deram em nada. Num país a sério, o tema devia ser discutido à exaustão, as responsabilidades da decisão deviam ser esmiuçadas-e, sobretudo, deviam ter consequências. Talvez os mais intrépidos opositores da regionalização possam começar por dizer o que pensam desta espécie de esbulho despudorado cuja consequência é óbvia: centralizar, centralizar, centralizar.”

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  8. Ricardo Monteiro's avatar
    Ricardo Monteiro permalink
    26 Dezembro, 2012 10:51

    É comovente esta disputa entre cidades do litoral. Portugal está dividido entre litoral e interior. E Porto representa o interior tanto como Lisboa. Mas dividam lá o pote como quiserem. O interior nunca teve voz de qualquer maneira. Mas as pessoas não são burras.

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