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6 meses

2 Maio, 2013
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Ao fim de quase dois anos de mandato, o governo prepara-se para iniciar uma reforma profunda do estado, que resultará em cortes substanciais da sua despesa. Fica assim demonstrado que há muito por onde cortar, e que só por essa via – resolvendo o problema na fonte – se poderá encarar o crónico e crescente défice das contas públicas que tem destruído o país.

Entretanto, passaram-se dois anos. Nesse imenso tempo político, o governo exauriu fiscalmente os contribuintes, sem ter simultaneamente demonstrado um verdadeiro espírito reformista que pudesse justificar os sacrifícios impostos. Com isso irritou profundamente o país, desiludiu muitos dos seus apoiantes e virou contra si a opinião pública. Permitiu que o partido que fora responsável pela crise e pela intervenção externa recuperasse forças, utilizadas agora para o atacar. Deu espaço para o regresso de José Sócrates à ribalta política, para que ele recontasse a história desta crise e atacasse semanalmente o presidente da República. Enfraqueceu a sua posição negocial junto dos parceiros sociais. Entrou em conflito com o Tribunal Constitucional e perdeu espaço, junto a este órgão de soberania, para forçar algumas reformas necessárias, mas de questionável constitucionalidade. Em suma, perdeu o seu estado de graça com medidas de circunstância, ditadas pelo desespero da iminência da bancarrota, sem ter tomado as que poderiam ter ido ao cerne dos problemas.

Tamanha impreparação terá custos elevados. É dos manuais que um governo dispõe, em condições normais de governação, de um período inicial de 6 a 12 meses para tomar as medidas estruturais do seu mandato. Em situação de ruptura financeira, como a vivida em 2011, esse período é seguramente mais reduzido. Isto teria exigido, da parte do governo, o aproveitamento do resto do ano de 2011 e do orçamento de estado de 2012 para levar a cabo as reformas que agora quer aplicar ao país.

Por razões que apenas os dois líderes dos partidos que formam a coligação de governo, Pedro Passos Coelho e Paulo Portas, poderão explicar (e essas explicações são-nos devidas), perderam-se dois anos. A sensação que este período nos transmite é a de que nenhum deles estava preparado para o que tinha pela frente e que só agora se conseguiram entender quanto ao fundamental. O mais provável é que já não tenham ambiente político, tempo e apoio da opinião pública para fazer o que tinha há muito que ser feito, e que o anúncio de amanhã passe à história como o testamento de uma oportunidade perdida.

13 comentários leave one →
  1. Euro2cent's avatar
    Euro2cent permalink
    2 Maio, 2013 21:15

    Os romanos instituiram sensatamente a proscrição – em casos mais agudos – dos derrotados politicos. Os alvejados podiam pôr-se a mexer para longe, se quisessem manter a cabeça e o corpo juntos, mas os seus bens eram confiscados para o tesouro do estado.

    Devia ter sido feito cá em 2011.

    Não resolvia o problema – as ratazanas estragaram mil vezes mais do que comeram – mas tinha animado as hostes a aceitar os outros sacríficos.

    Claro que não foi feito. Rabos de palha, mãos nos bolsos uns dos outros, etc. Podridão geral do regime, dos mais reles jotas com tacho aos “senadores” da rataria. Nem PCs ou berloques, por muito teatro que façam, deitam cá para fora o que decerto sabem.

    Depois queixem-se.

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  2. AB's avatar
    2 Maio, 2013 21:25

    Limpinho…!

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  3. JDGF's avatar
    JDGF permalink
    2 Maio, 2013 21:35

    A situação é tão simples como isto:
    Cortar mais, agora nas funções do Estado, nomeadamente na vertente social quando em 2 anos já se provocou um grave empobrecimento do País, sem que exista qualquer perspectiva sólida de crescimento económico é uma atitude politicamente suicidária.

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  4. murphy's avatar
    murphy permalink
    2 Maio, 2013 21:47

    Esses cortes são muito complicados, pois ameaçam o “status quo” da capital…

    6 meses

    Sendo INEVITÁVEL uma alteração do modelo económico português, o qual terá de passar, OBRIGATORIAMENTE, por uma forte aposta nos sectores mais tradicionais – nomeadamente, na Agricultura e Indústria -, até que ponto a imposição do modelo de sociedade preconizado por este grupo bem instalado em “Lesboa”, que domina a comunicação social e os próprios conteúdos do sistema educativo, constitui um obstáculo ao desenvolvimento social e económico de Portugal?

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  5. Fincapé's avatar
    Fincapé permalink
    2 Maio, 2013 22:35

    “Ao fim de quase dois anos de mandato, o governo prepara-se para iniciar uma reforma profunda do estado, que resultará em cortes substanciais da sua despesa.”
    Tenho um dedo que me está a adivinhar que vai sair asneira da grossa, com consequências trágicas. Se os senhores soubessem da poda já tinham podado, em vez de terem entrado com a máquina pela vinha dentro.
    ——–
    “A sensação que este período nos transmite é a de que nenhum deles estava preparado para o que tinha pela frente…”
    O otimismo de rui a. permite-lhe pensar que já estão preparados. Eu não acredito que estejam.

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  6. anti-comuna's avatar
    anti-comuna permalink
    2 Maio, 2013 23:10

    É esta a tão ansiada reforma por si, caro Rui? Deus me livre. Para poupar pouco mais de metade do que já o governo cortou?

    E as funções do Estado, que Vc. tanto pediu para serem cortadas e reformadas? Não era isso que Vc. pedia? Já não são importantes agora?

    Mehhh!

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    • anonimo's avatar
      anonimo permalink
      3 Maio, 2013 20:04

      um cortezinho temporário não é estrutural.Estrutural é o que o governo fará agora

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  7. trill's avatar
    trill permalink
    2 Maio, 2013 23:27

    “Como exemplo da gestão danosa dos dinheiros públicos, Paulo Morais referiu uma fórmula de cálculo inserida no contrato de uma PPP, numa auto-estrada em Viana do Castelo, em que o concessionário paga multas, ou recebe prémios do Estado, em função da taxa de sinistralidade.

    “Se a sinistralidade aumentar 10%, o concessionário tem de pagar uma multa de 600 mil euros, mas, se houver uma redução de 10% na sinistralidade, o Estado tem de pagar à empresa 30 milhões de euros”, disse.”

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  8. trill's avatar
    trill permalink
    2 Maio, 2013 23:28

    ‘ “Quem assinou o contrato, só por isso, devia estar preso”, sentenciou.’

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  9. trill's avatar
    trill permalink
    2 Maio, 2013 23:29

    ‘ “Seis a sete por cento dos recursos do Orçamento de Estado vão para grandes grupos económicos”, disse Paulo Morais, referindo o grupo Espírito Santo, o grupo Mello e o grupo Mota Engil, como alguns dos principais beneficiários.

    “Em 2011, as PPP custaram 1.700 milhões de euros, ou seja, mais do dobro dos 799 milhões de euros que estavam previstos inicialmente”, disse Paulo Morais, considerando incompreensível que tivesse havido um desvio com um custo superior ao preço que estava inicialmente previsto.’

    http://economico.sapo.pt/noticias/crise-foi-provocada-pela-corrupcao-nao-pelos-excessos-dos-portugueses_168328.html

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  10. João Lisboa's avatar
  11. YHWH's avatar
    YHWH permalink
    3 Maio, 2013 12:08

    Alguns apaniguadores do actual governo descobrem agora a farsa em palco, e ainda por cima farsa incompetente…

    E fingem surpreender-se com a impreparação, métodos e resultados decorrentes da deriva governativa.

    Um regalo para acompanhar por aqui.

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  12. joshua's avatar
    palavrossavrvs permalink
    3 Maio, 2013 15:47

    Temos de ser rijos e estar prontos para morrer conforme tiver de ser.

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