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A Europa do frio*

12 Outubro, 2013
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Em 29 de Fevereiro de 2012, o diário digital “Press Europe” divulgava um artigo de um politólogo estoniano (Viljar Veebel, de seu nome) no qual se defendia, basicamente, que a salvação do euro estaria na sua desmultiplicação, ou seja, na criação de duas moedas, para, no mínimo, duas Europas. A ideia era simples: se certos Estados-membros da zona euro não têm condições económicas e orçamentais para aguentar uma moeda comum, então, mais valia criarem-se várias “moedas (aparentemente) comuns”, para que cada um desses Estados tivesse uma espécie de “sub-moeda própria”, desvalorizada e refletindo as idiossincrasias das suas (também más) finanças públicas.

Sugestivamente, aquele politólogo perguntava: “Porquê uma só Europa…. quer dizer União Europeia?” Claro está que aquele artigo, alavancado nessa tese simples, denotava uma profunda ignorância sobre o que realmente é e vale, na perspetiva política, o euro e, mais latamente, sobre a própria História da integração. Sobre o projeto de “casa comum europeia”, nada, naquele texto, indiciava que o dito Veebel tivesse lido sequer qualquer coisinha. De solidariedade entre Estados-membros, muito menos, a ponto de escrever pérolas como estas: “Uma tal situação (a criação de um sub-euro desvalorizado para certos países como Portugal e a Grécia) não deixaria satisfeitos (precisamente) os Gregos e os Portugueses, mas hoje, não é isso que se pretende. Precisamos, sim, de europeus do sul que, apesar de descontentes e com fome, decidam ir trabalhar, recebendo um salário que até agora consideraram insuficiente. Para nós (presume-se, para o resto da Europa e, sobretudo, para essa referência histórica da integração que deve ser a Estónia!), a verdadeira mais – valia seria poder evitar a entrega dos nossos euros a um fundo de ajuda e evitar a sua desvalorização por estarmos sempre a emiti-los”. Ora, há cerca de um ano e meio atrás, estas ideias corriam já em certas geografias da União. Nomeadamente, naquelas frias e longínquas zonas que, em 2004, precipitadamente, foram integradas em algo cujo significado histórico e objetivo político, realmente, desconheciam.

Lembrei-me daquele texto, esta semana, quando ouvi as declarações, quase em jeito de ralhete, do presidente da Estónia, no encontro de Arraiolos – que, estranhamente, passou quase despercebido à nossa imprensa. E com Cavaco Silva presente e diplomaticamente a ouvir! E lembrei-me, também, de Passos Coelho (que, esta semana, estreou o novo programa de entrevistas da RTP 1, mostrando-se, cara a cara, com quem o questionava). Eles saberão que a saída para a nossa hiper-crise pré-falimentar depende exclusivamente da Europa. E também saberão que a Europa parece estar, cada vez mais, estoniana!

* Grande Porto, ed. 11.10.2013.

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9 comentários leave one →
  1. Trinta e três permalink
    12 Outubro, 2013 10:35

    Antigamente, brincava-se com a ignorância dos americanos sobre os aspetos mais elementares da geografia e da história. Hoje, esse tipo de ignorância está a governar a Europa.

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    • und permalink
      14 Outubro, 2013 00:36

      non a europa tenta assegurar uma moeda face ao dólar e ao yuan

      já os turcos mesmo com a lira não conseguem deter a especulação com a sua moeda

      e mesmo os hindus perderam 24% da reserva de divisas a tentá-lo…..e venderam ouro….inclusive para valorizar papel….

      quem crê in bacas sagradas

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  2. joao permalink
    12 Outubro, 2013 12:29

    o que aconteceria em Portugal se o Governo decidisse expulsar um emigrante moçambicano por ter dito ” este país é só ladrôes ” . Eu sei que o politicamente correcto faz muita comichão mas nem um postezinho sobre o assunto ?

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  3. manuel permalink
    12 Outubro, 2013 14:03

    A margem para considerações teóricas começa a ser estreita.Nos próximos dois anos as nossas necessidades de empréstimos andam pelos 75 000 milhões e vamos partir dizem eles ,eu não acredito,com uma tesouraria de 15000 milhões ,portanto, faltarão 60000.No euro ,fora do euro,com um euro de 2ª ,ou um escudo novo ,o nosso caminho está à vista,será o modelo da Albânia,Bulgária,Roménia ou do zimbabué. A culpa não é só do Passos,sócrates,Cavaco,Soares,etc,Quando foi a entrada para o mercado comum e para a moeda única alguns economistas alertaram para as nossa debilidades mas eram considerados fascistas e reaccionários .Os portugueses não chorem sobre leite derramado, emigrem antes que, os principais países da europa fechem as fronteiras como fazem aos sírios e aos magrebinos.

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    • Trinta e três permalink
      12 Outubro, 2013 20:18

      “(…) mas eram considerados fascistas e reaccionários”. Pode acrescentar “comunistas” porque também é verdade.

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      • manuel permalink
        12 Outubro, 2013 22:58

        Tem razão ,lembro-me do Carlos Carvalhas e do Octávio Teixeira . Mas muitos que aceitavam a entrada sugeriam as medidas a tomar e alertavam para o risco de sermos um país de serviços e com poucos nichos de actividade industrial produtiva,enfim ,não adianta chorar.

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      • und permalink
        13 Outubro, 2013 21:48

        e que nichos subsistiriam em escudos com fábricas de agulhas e de tecidos a metro

        inda se produzíssemos algodão e aço como os gregos….

        o euro deu prosperidade virtual durante 11 anos e se calar chega aos 15

        o escudo dará concorrência com os chinocas …..mas só a derreter metal e a fazer arroz em álcacer….

        actividade industrial produtiva? e a outra chama-se como?

        somos os campeões em sacos de ráfia isse é um facto

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  4. neotonto permalink
    12 Outubro, 2013 21:01

    Em este momento ha varias moedas na “Europa” que nao sao Euro…
    E acho que pensam (acertadamente) em nao entrar nessa trampa do euro(pa).

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    • und permalink
      13 Outubro, 2013 21:49

      sim a lira turca que perdeu 20% das reservas em divisas a impedir uma desvalorização sem susexo…

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