Saltar para o conteúdo

O monstro da cultura

21 Fevereiro, 2014

Vendo de relance a programação para a Meo Arena, saltam à vista alguns nomes: Xutos e Pontapés, Scorpions, Beyoncé e Ana Carolina. Nenhuma autarquia conseguiria promover, sem escandaleira, um concerto de Beyoncé com entrada gratuita. A banda Scorpions, já há muito afastada da A-list e que em 2004 actuou em Cantanhede, custou, na altura, mais de 250.000€ à organização. Xutos e Pontapés é uma excepção na lista – são portugueses: um promotor arrisca a cabeça (mais propriamente, o dinheiro) caso não consiga vender os bilhetes. Com os estrangeiros sempre foi assim.

Os portugueses foram aprendendo a não pagar para assistir a espectáculos de artistas portugueses. Assisti a concertos de Rui Veloso, Paulo Gonzo, Silence 4, entre outros, achando que eram gratuitos. A autarquia pagava (decerto) aos artistas e suas entourages, assim como a técnicos locais, e eu pagava à autarquia. Eu não: na altura não trabalhava; o meu pai, sim, esse pagava sem assistir aos concertos.

É extremamente difícil conseguir que o público português pague bilhete por inteiro para ver um artista português. O autarca, premiado em eleições que só recentemente deixaram de ser “para a vida”, não obtém os favores dos eleitores (usando uma expressão de José Sócrates) por gerir correctamente a autarquia e sim pelo circo que providencia: a proverbial rotunda, o relvado sintético para o grupo desportivo amador, o artista popular…

Há uma indústria fantástica de “consumo interno” baseada no ciclo do dinheiro, do bolso do contribuinte para o bolo central, do bolo central para o zelador da terrinha, do zelador da terrinha para o agente cultural. É perfeitamente natural que havendo redução orçamental para manter o eleitor convencido de que isto é uma festa, os primeiros a bradarem a desgraça da morte da cultura sejam o últimos da cadeira alimentar. Durante anos a fio criaram a sensação de popularidade mediante a distorção da casa cheia sem bilheteira; agora começa a ser tempo de perceberem que, por terem sido coniventes com o monstro, são eles próprios parte da criatura.

Nem tudo está perdido: alguns conseguirão vender bilhetes. Para os outros restará a hipótese de lutarem na arena pelos 5 minutos da fama dos programas da tarde das televisões.

32 comentários leave one →
  1. JCA's avatar
    JCA permalink
    21 Fevereiro, 2014 21:32

    .
    Outros ‘belgais’, sempre a questão dos ‘monstros da cultura’ como alguns perferem chamar-lhe:
    .

    De rajada, a Ucrânia, o celeiro da Europa a par com o ’celeiro’ de riquezas minerais russas que a operação barbarrosa queria engolir para a Alemanha. A fome estalinista que matou milhões de ucranianos. Um dos pólos fundamentais da ciência e da tecnologia soviética de ponta, exº a terra de Chernobyl. Vários dos europeus mais sanguinários eram ucranianos. Por exemplo Estaline num lado da Ditadura, do outro os guardas dos Campos de Concentração Nazis, SS’s etc.
    .
    Essencialmente uma das eternas frentes de colisão entre a ‘raça pura’ germânica e os povos eslavos. Bem mostrado outra vez Hoje. A Ucrânia Ocidental com Timochenko, e tal revolução laranja, ora em ‘guerra civil’. A Ucrânia Oriental de influencia e cultura russa, tranquila como se nada se passasse alinhada com o atual Presidente.
    .
    Hoje um País arruinado pela corrupção. Até para saber os resultados duma analise clínica é preciso corromper alguém. O casco populacional ucraniano está revoltado contra a Corrupção.
    .
    Quer quem acendeu a revolta parcial quer quem a tenta sufocar, perderam o controle da situação popular unida contra a Corrupção. Donde o atual acordo à pressa entre as forças em luta, a pró-alemã e a pró-russa, para manter o ‘sistema’ agradável a ambos os contendores que se assaltavam um ao outro para ver quem mandaria no ‘pote’ da corrupção.
    .
    Por ora o status quo parece ter sido conseguido. Resta saber se o Povo se recusará a regressar a casa e resolve liquidar (literalmente o que a palavra significa) os corruptos sejam de que lado for. E aí então a coisa piará fino, mesmo nos Povos da União Europeia ditos os eleitores. Além da séria questão geostratégica, sempre os eternos Balcãs onde o caldo se entorna, foi na I, foi na II Guerra, e não só.
    .
    O pêndulo descontrolou-se, ou descontrolaram-no, perigosamente. Vamos ver como acabará, e se parecendo acabar não acabará. Como isto vai acabar logo se verá ….
    .

    .

    Gostar

    • neotonton's avatar
      neotonton permalink
      21 Fevereiro, 2014 21:41

      Vários dos europeus mais sanguinários eram ucranianos.
      .
      Iosif Stalin ucraniano?. Olhe que nao. Ohe que nao.Perto. Quente, quente mais nao, nao…

      Gostar

      • JCA's avatar
        JCA permalink
        22 Fevereiro, 2014 00:52

        ,
        Certo, Stalin nasceu na Ucrania mas o grande museu a Estaline está na Crimeia, a datcha Stalin, onde passava a maior parte do seu tempo em poder, tinha até a celebre piscina porque não queria mostrar publicamente nas praias as suas deficiencias fisicas de nascença.
        .
        Mas que a rapaziada ucraniana selecionada pelo coeficiente de brutalidade pra as SS’s, guarda de campos de concentração, fornos crematórios, Gestapo etc ra ucraniana lá isso É o que dizem os ‘books’.
        .
        Entre os que alimentaram da nomenklatura sovietica, afinal mimetizada do nazismo/fascismo/ditadura ou vice versa, tem por exemplo Kaganovitch para não entrarmos em pessoal KGB ou Gestapo, onde a lista nunca mais acaba.
        .

        Mas voltando à coisa, o Mar Negro é um ‘mare nostrum’ eslavo. Sugere terreno nuclear; não esqueçamos que a força bruta que destruiu a brutalidade germanica foi a eslava. Surge uma duvida: será que hoje sec XXI ainda há saudosistas para a desforra ou vingança ? Absurda e teoricamente querem de novo que o território e os povos europeus sejam o campo de sangue onde o multipolarismo global atual vão resolver o lavar dos cestos de quem irá ser a futura grande potencia mundial ?
        .
        È o que acontece a quem se presta ao papel de ‘pau de cabeleira’, o sempre phodido que se arma em coscuvilheiro e cavaleiro andante mas no final paga a conta sozinho lamentando-se que levou um grande baile, a culpa é dos outros, uns malandros. E salvo melhor opinião os arrogantes ora mandantes na Europa estão a ir lá direitinhos, geoestrategicamente falando em palavras simples que todos entendam. Porque é simples.
        .
        Se assim não for sejam também tão felizes.
        .

        Gostar

      • JCA's avatar
        JCA permalink
        22 Fevereiro, 2014 00:54

        – Deve ler-se ‘Certo, Stalin nasceu na Georgia’

        Gostar

  2. João's avatar
    21 Fevereiro, 2014 21:46

    Não era o Estaline mas era o Gogol, que era fascista!

    Gostar

  3. PiErre's avatar
    PiErre permalink
    21 Fevereiro, 2014 21:56

    “agora começa a ser tempo de perceberem…”
    .
    Ora, ora, não percebem nada. É como os fumadores: começa a ser tempo de perceberem que FUMAR MATA. Mas… Vai um cigarrinho, amigo?
    Daniel Kahneman parece que explicou bem o fenómeno da persistência dos hábitos e dos vícios. Nunca se abandonam, salvo raríssimas excepções.

    Gostar

  4. licas's avatar
    licas permalink
    21 Fevereiro, 2014 21:59

    neotonton HIPERLIGAÇÃO PERMANENTE
    21 Fevereiro, 2014 21:41
    ___________
    Não seria Ucraniano mas Georgiano.
    Não há crise: o pai era o mesmo -ano.

    Gostar

  5. licas's avatar
    licas permalink
    21 Fevereiro, 2014 22:00

    melhor dizendo: -iano . . .

    Gostar

  6. Fincapé's avatar
    Fincapé permalink
    21 Fevereiro, 2014 22:02

    “Os portugueses foram aprendendo a não pagar para assistir a espectáculos de artistas portugueses. Assisti a concertos de Rui Veloso, Paulo Gonzo, Silence 4, entre outros, achando que eram gratuitos. A autarquia pagava (decerto) aos artistas e suas entourages, assim como a técnicos locais, e eu pagava à autarquia. Eu não: na altura não trabalhava; o meu pai, sim, esse pagava sem assistir aos concertos.”
    ——–
    – É normal, Vítor, que os pais paguem coisas aos filhos sem que os pais usufruam fisicamente delas. Eu também sou pai e filho. Elas vão desde roupa e comida, até bens culturais.
    E é também normal as autarquias reservarem uma parte do seu orçamento para atividades culturais e recreativas. E é normal promoverem com isso os seus concelhos e atraírem forasteiros consumidores. Conheço autarquias que organizam feiras e outros eventos, ou participam na sua organização (suponho que Cantanhede é uma delas), em que a fonte de receitas é diversificada. Os empresários pagam os expositores (stands), existe a exploração de bares e ainda o pagamento relativamente barato de bilhete de entrada.
    Fazem bem. São câmaras dinâmicas que procuram satisfazer necessidades dos seus munícipes.
    Um pouco a despropósito, quando o Vítor descobriu que os artistas (Rui Veloso, Paulo Gonzo, Silence 4) eram pagos foi perguntar quanto devia ou ficou a dever esse valor à sociedade? 😉

    Gostar

    • vitorcunha's avatar
      vitorcunha permalink*
      21 Fevereiro, 2014 22:17

      Eu gosto muito de si, Fincapé. O motivo principal é o Fincapé parecer convencido que poucos reparam na sua técnica de comentário. Dito isto, folgo em saber que o Fincapé tem/teve pais e vou até conjecturar abusivamente que foram de sexos diferentes.

      Gostar

      • Fincapé's avatar
        Fincapé permalink
        21 Fevereiro, 2014 22:49

        Que razão estranha para gostar de mim. Mas gostos são mesmo assim: apreciar também os defeitos.
        Já eu a partir de agora gostarei ainda mais de si: considera que muitos reparam na minha técnica de comentário, quando eu pensava que só um ou outro masoquista os lia.
        Ainda por cima conjetura bem. 🙂

        Gostar

  7. Pedro's avatar
    Pedro permalink
    21 Fevereiro, 2014 22:39

    Ó Vitor, você também está a dever dinheiro ao meu pai. Então,você viu concertos à borliu à custa do meu pai? Você é um gajo rigoroso,quer as contas certinhas,não é como os socialistas. Ora, você deve ter feito muitas coisas à borla à conta do meu pai quando era puto, concertos,bailes, parques infantis, campos para jogar à bola e uma data de coisas. Tá a fazer as contitas.

    Gostar

  8. oberon's avatar
    oberon permalink
    21 Fevereiro, 2014 22:43

    realmente querem um deserto…

    Gostar

  9. oberon's avatar
    oberon permalink
    21 Fevereiro, 2014 22:52

    e “está tudo bem assim e não podia ser de outra forma.”

    Gostar

  10. @!@'s avatar
    @!@ permalink
    21 Fevereiro, 2014 23:36

    O que é isso comparado com o corte da TSU às empresas, a captação de capital com abaixamento dos IRC, IMIS ou qualquer outra insenção de impostos? Para não falar do atractivo de se criarem as infraestruturas para a instalação de industrias na zona industrial. Um espectaculo. Show mesmo é a contratação de mão de obra. Vai-se à segurança social “buscar” pessoal a receber o rendimento social de inserção ficando o engajador com a incumbencia de cobrir o valor restante do ordenado minimo.

    Gostar

  11. carlos reis's avatar
    22 Fevereiro, 2014 00:07

    Eu que calcorreava 8km a pé para chegar à escola, tambem fico raivoso quando vejo camionetas das autarquias cheias de cachopos, despejados nas salas d’aulas. Eu que pago impostos e não tenho filhos.

    Gostar

    • vitorcunha's avatar
      vitorcunha permalink*
      22 Fevereiro, 2014 08:32

      Tem toda a razão, Carlos Reis. Com esse dinheiro gasto em camionetas da autarquia que levam cachopos para escolas não sobra nada para um bom espectáculo gratuito de um artista português que fica impedido de actuar na localidade sem cobrar bilhetes. Onde vai o mundo parar.

      Gostar

      • carlos reis's avatar
        22 Fevereiro, 2014 11:48

        VC
        O caro ( aprendi esta palavra nos blogues )baralha-me todos os dias.
        Não seria mais fácil o VC postar uma lista do que deve ( palavra também gira )o estado subsidiar?

        Gostar

      • vitorcunha's avatar
        vitorcunha permalink*
        22 Fevereiro, 2014 12:01

        OK, aqui vai:

        .

        Gostar

      • carlos reis's avatar
        22 Fevereiro, 2014 13:33

        Da janela da minha sala tenho o infinito prazer de ver- expostas no parque ribeirinho- não uma mas duas esculturas de j. vasconcelos. Reparo que na sua lista não constam estas prioridades subsidiadas. Será o VC um “roubador” de prazeres?

        PS:Não consigo, por nabice minha, colocar fotografia das ditas.

        Gostar

      • vitorcunha's avatar
        vitorcunha permalink*
        22 Fevereiro, 2014 13:37

        Já expliquei diversas vezes que este tipo de comentários não interessam já que o blogue não é uma estação de discos pedidos. Se há algo que o Carlos Reis quer dizer SOBRE o tema, força; se é sobre processos de intenções, dizem que é fácil abrir um blogue no Sapo, que é português e tudo.

        Gostar

    • fado alexandrino's avatar
      22 Fevereiro, 2014 08:48

      Não tem razão.
      Entre o deixar “a mais bem preparada geração portuguesa” na escola e ir lá busca-los a camioneta da Câmara vem até Lisboa trazer os peregrinos ao Preço Certo.
      Lá está a cultura de mãos dadas com a ciência.

      Gostar

  12. Crizzum's avatar
    Crizzum permalink
    22 Fevereiro, 2014 00:09

    estive em cantanhede com mais 40.000 macacos a ver os scorpions. 12,5€ por bilhete deu para pagar a banda. nos outros dias para ver os Anjos, Fafá de Belém, Toni Carreira, Brigada Victor Jara, Quim Barreiros, Santa Maria, Marco Paulo, João Pedro Pais e os Xutos eram apenas 2€ o bilhete

    Gostar

    • vitorcunha's avatar
      vitorcunha permalink*
      22 Fevereiro, 2014 00:12

      Bilhete de 2€ já não é mau, é “bilheteira parcial”.
      Todos os que citei lembro-me de terem sido a bilhete-zero.

      Gostar

  13. 1berto's avatar
    1berto permalink
    22 Fevereiro, 2014 15:16

    Vítor Cunha: quando uma câmara municipal promove uma feira (medieval, agrícola, etc.) em que se incluem espectáculos musicais de grupos ou cantores conhecidos e em que a afluência de forasteiros acaba por pagar e dar a lucrar à própria câmara e aos municipes e promover a terra que, sendo do interior, está mais exposta ao abandono, o que acha disso? Vale ou não a pena? Todos ficam a ganhar, a região, os munícipes, a câmara municipal, e os próprios artistas com a paga do seu trabalho. Dou-lhe um exemplo: Alpedrinha, concelho do Fundão, que promove anualmente as festas da vila com milhares de forasteiros. Este é o exemplo que conheço melhor mas existem muitos por esse país fora. Dê-me mais exemplos como este, e se não existirem agradeço que me informe quais os municípios que contrataram artistas a peso de ouro sem qualquer retorno.

    Gostar

    • vitorcunha's avatar
      vitorcunha permalink*
      22 Fevereiro, 2014 15:18

      Qual foi o retorno em Alpedrinha em 2013?

      Gostar

      • 1berto's avatar
        1berto permalink
        22 Fevereiro, 2014 15:28

        Não faço idéia. Mas a julgar pelos milhares de visitantes a coisa deve ter resultado. Mas é fácil. Pergunte à gente de lá se valeu a pena. Este ano há mais.

        Gostar

Trackbacks

  1. Concertos como função social do estado | BLASFÉMIAS

Deixe uma resposta para carlos reis Cancelar resposta