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as pirocas dos liberais

27 Fevereiro, 2014
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Permitam que plagie um texto meu publicado no velhinho Portugal Contemporâneo (“as pilinhas dos liberais”), que em tempos escrevi sobre as desavenças entre os liberais portugueses, sobretudo aqueles que se reclamam de maiores proximidades clássicas e conservadoras (como é o meu caso) e os que estão mais próximos do chamado libertarismo, mais conhecido por anarco-capitalismo, embora esta última designação possa ser enganadora.

A ideia era a de que uns e outros se preocupavam em dissecar publicamente as suas desavenças e desentendimentos, lidando, entre si, como aquelas crianças que, para disputarem a sua masculinidade, comparam e medem os tamanhos das suas pilinhas, em vez de procurarem o entendimento necessário para enfrentarem o estatismo asfixiante do país em que vivemos. Sem dar conta disso, eu mesmo caí no logro de olhar mais para o lado e menos para a frente. Em vários artigos publicados sobretudo n’ O Insurgente, ataquei alguns postulados doutrinais do libertarismo e alguns dos autores que os defendiam, em boa medida porque os considerava (e considero ainda) frágeis, mas, também, em forma de reacção ao que me parece ser um ataque desnecessário (e auto-destrutivo) movido por alguns libertários ao que considero ser o mais valioso (embora em crise profunda) património histórico do liberalismo contra o estatismo: os princípios estruturantes do constitucionalismo oitocentista e novecentista, deturpados e desviados, é certo, pelo Estado Social do século XX, mas passíveis ainda de serem muito úteis a quem quer conter o ímpeto do poder público.

De há uns tempos para cá, deixei de o fazer, pela razão óbvia de que me consigo entender muito mais facilmente, no que considero essencial, com qualquer libertário do que com outra pessoa que prefira o estado à liberdade. E porque, apesar de considerar que existem o que julgo serem erros nas suas construções teóricas, muito do que escrevem e dizem esses autores está muito bem dito e muito bem escrito. Deixei, assim, de medir a minha pilinha com a dos meus colegas libertários e julgo que o não voltarei a fazer.

O plágio altera o sujeito da frase de “pilinhas” para “pirocas” para o abrasileirar. O motivo é a dissenção pública, e cada vez mais profunda, entre dois muito estimáveis liberais e o que cada um deles representa, o Hélio Beltrão e o Rodrigo Constantino, na comunicação social brasileira e nas redes sociais. O Hélio tem feito um notável trabalho à frente do Instituto Mises Brasil, sendo também um excelente palestrante e um liberal que pensa muito bem e tenta agregar, enquanto que o Rodrigo, que já colaborou episodicamente no Blasfémias, é, de há uns tempos para cá, o principal autor e comentador liberal brasileiro, com obra publicada e intervenção pública regular de vulto, para além de presidir, desde há uns meses, ao também muito influente Instituto Liberal.

Assim, cumprimentando os dois e intervindo numa polémica entre eles apenas porque a tornaram pública, daqui os desafio a porem as suas pirocas dentro das calças e a dedicarem-se ao fundamental: combater um estatismo e um socialismo galopantes no Brasil, que se prepara para ver renovados, nas próximas eleições presidenciais, mais quatro anos de domínio socialista desse imenso e fantástico país. Depois não se queixem.

12 comentários leave one →
  1. Fincapé's avatar
    Fincapé permalink
    27 Fevereiro, 2014 16:41

    “…com outra pessoa que prefira o estado à liberdade.”
    Caro Rui, mas se o Estado é o contrário de liberdade, porque é que os “muito-liberais” (cada vez tenho mais dificuldade em arranjar o termo adequado, porque liberais todos somos o suficiente, excetuando alguns – poucos – comunistas) consideram que o Estado deverá existir para um reduzido número de funções, sendo uma delas garantir a propriedade e a liberdade dos mercados?
    PS1: Eu sinto-me muito bem com um Estado que me garanta a minha excecional liberdade a troco do seu pagamento em impostos. Se não fosse assim, quem a garantiria?
    ———-
    “… combater um estatismo e um socialismo galopantes no Brasil…”
    – Não é verdade, caro Rui, que o profundamente desnível riqueza/pobreza entre os brasileiros foi atenuado nos últimos dez anos? Então, porque razão o capitalismo brasileiro não foi capaz de resolver esse grave problema social (que fica muito mais caro do que fazer uma melhor redistribuição da riqueza) antes de Lula?
    PS2: Acrescento que se fosse brasileiro não teria votado em Lula, pelo menos da primeira vez.

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    • rui a.'s avatar
      rui a. permalink
      27 Fevereiro, 2014 16:43

      Qual “capitalismo brasileiro”, meu caro Fincapé? O único estado brasileiro onde há algo parecido com isso é São Paulo e, garanto-lhe, as discrepâncias sociais são cada vez menores e o nível geral de vida cada vez melhor.

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      • Fincapé's avatar
        Fincapé permalink
        27 Fevereiro, 2014 17:00

        Já me tinha dado essa informação, mas não conheço, caro Rui. Quando puder, vou tentar obter mais dados sobre esse caso. De qualquer maneira, essas situações costumam ser cíclicas.

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  2. manuel abreu anorim's avatar
    manuel abreu anorim permalink
    27 Fevereiro, 2014 17:20

    Caro Rui A.,

    É a primeira vez na minha vida que escrevo um comentário num blogue, sou pouco “tecnológico” como sabes, mas, como de vez em quando leio o que escreves, e quase sempre me identifico contigo, não resisti a acompanhar o “fincapé” no comentário que te fez, quando diz que quase todos somos suficientemente liberais… tirando uns quantos comunistas. A Natureza preponderantemente maligna do ser humano, torna desaconselhável liberalismo a mais… um abraço

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    • Fincapé's avatar
      Fincapé permalink
      27 Fevereiro, 2014 20:22

      Se houvesse possibilidade de colocar “gosto”, colocaria. 🙂

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    • rui a.'s avatar
      rui a. permalink
      27 Fevereiro, 2014 20:44

      Manel,

      Mas é precisamente por sermos pessimistas, que somos liberais: porque não acreditamos na bondade da política e do governo, ao contrário dos socialistas, que acham mesmo que eles promovem a felicidade do próximo. Ora, o que eles fazem é, em primeira mão, promover a sua própria felicidade, no que são bastante competentes, e depois logo se vê. A convicção no mercado como melhor processo de resolução de interesses individuais, não significa que se creia na honestidade e na bondade natural da humanidade. Pelo contrário, acredita-se que os directos interessados cuidam melhor dos seus interesses. Se as coisas correrem mal por aqui, há os tribunais e o direito, que, como bem sabes, são criações muito anteriores ao estado (embora o estado se tenha apossado deles na sua quase totalidade), principalmente no que respeita ao direito privado.

      Abraço amigo e vê lá se voltas a aparecer a comentar por aqui,

      Rui

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      • Fincapé's avatar
        Fincapé permalink
        27 Fevereiro, 2014 21:02

        “…. acredita-se que os directos interessados cuidam melhor dos seus interesses…”. Nem sempre é assim, mas admitamos que sim. Ora, isso não é necessariamente bom.
        A manipulação da Libor (fala-se tão pouco nestes jogos de interesses que até dói) por vários bancos ingleses (como o Barclays e o RBS, também acusado, suponho) e outros (como um suiço) contribuiu fortemente para a crise financeira. Havia auto-regulação pela Associação de Bancos. O que é que eles fizeram, mesmo depois de saberem que havia investigação jornalística e o assunto a espalhar-se na opinião pública? Nada. Conclusão, tiveram de retirar a auto-regulação à associação de bancos. Mesmo assim, o Banco central viu-se em palpos de aranha para se libertar do diretor-geral, considerado um génio. Bob Diamond, de sua graça.
        Na realidade, as empresas privadas poderosas, e são estas as mais perigosas, zelam demasiado pelos seus interesses para se poder confiar nelas.
        Multas da ordem dos 300 milhões de libras são gorjetas. E os prevaricadores continuam a sua vidinha. No caso do banco suíço, nem sei se houve demissões.

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  3. hajapachorra's avatar
    hajapachorra permalink
    27 Fevereiro, 2014 17:58

    falar de ‘socialismo’ no Brasil dá vontade rir. Naquela desabençoada terra tucanos, petetistas, comunas contumazes, esquerda, direita, são todos ‘liberais’. O resto é pobre, simplesmente pobre. E estamos a ir pelo mesmíssimo caminho: há uns gajos que podem ser de esquerda ou de direita e que se abotoam com nomeações, contratos, pensões, alcavalas, luvas, avenças e outras roubalheiras, depois há o resto, para aí uns nove milhões de pobretanas e palermas.

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  4. BELIAL's avatar
    27 Fevereiro, 2014 18:45

    Ser liberal é ser normalzinho.
    Tudo mais: é fantasia bacoca.

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    • Fincapé's avatar
      Fincapé permalink
      27 Fevereiro, 2014 21:12

      Todas as generalizações são abusivas, excepto esta (minha). 😉

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  5. Chico's avatar
    Chico permalink
    28 Fevereiro, 2014 01:12

    E agora por pilinhas e pirocas, como está aquilo do Meco?

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