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Matrioshka de Antónios

1 Setembro, 2014

petrushka-joe

A harmonia musical em todo o cânone ocidental leva ao conceito de acorde, a sobreposição de duas notas a uma raiz (ou tónica) separadas por intervalos de 3ª, compondo um conjunto que pode ser definido por 1–3–5. Estes números, claro, pertencem à sequência de Fibonacci. Uma oitava musical representa a duplicação de frequência da nota original. Quer 8 (da oitava), quer o 2 (da duplicação de frequência) são número de Fibonacci. A cor de um acorde, se é “maior” ou “menor”, é determinada pela proximidade da 3ª à raiz: maior proximidade, maior a tristeza. “Longe da vista, longe do coração”, já diziam os antigos. O meio caminho entre uma e outra oitava (o intervalo cuja distância para a raiz e a sua oitava é igual) denomina-se por trítono, o som do Diabo. O acorde Petrushka, do bailado epónimo de Stravinsky, é obtido pela justaposição de dois acordes maiores (felizes) cujas raízes estão separadas por um trítono, gerando assim uma dissonância de duas cores “felizes”. Nesta obra, Petrushka é uma boneca tradicional que ganha vida e consequentemente emoções. Em boa parte, Petrushka é recriada como a hipersexualizada Joe no filme Nymphomaniac de Lars von Trier (em dois volumes). No fim, a audiência fica sem saber o quão de Petrushka (e de Joe) é real.

As eleições legislativas regulares em Portugal originam um trítono: entre o cumprimento das 4 sessões legislativas e a tomada de posse do novo governo é usual o alargamento do intervalo de 4ª para 4ª aumentada. Como em Petrushka, só no fim do mandato 2015–2020 ficará na audiência o sentimento de dúvida sobre a essência da realidade. Até lá, venha outro acorde maior, aparentemente feliz na sua inócua justaposição de números de Fibonacci, sempre previsíveis mas com dificuldade de cálculo acrescida a cada iteração. Os Antónios prometem o fim da austeridade. De forma circular, e como Joe disse em Nymphomaniac, “each time a word becomes prohibited, you remove a stone from the democratic foundation. Society demonstrates its impotence in the face of the concrete problem by removing words from the language”.

Falta pouco para o segundo acorde maior do Petrushka, o que lhe dará a dissonância. Muito em breve testemunharemos a abolição da palavra austeridade, em preparação para o evento. A dissonância será obtida pela disjunção entre o que será prometido e o que será efectuado. E tal como Nymphomaniac, a história é contada em dois volumes.

9 comentários leave one →
  1. silva's avatar
    silva permalink
    1 Setembro, 2014 15:49

    Vamos lá ver qual a diferença entre a justiça portuguesa, que desgraça o cidadão que dela precisa como o caso de 112 trabalhadores do Casino Estoril, passam os anos e nada e o Taliban que corta a cabeça a um cidadão dizendo que é infiel.
    O Taliban mostra ao mundo a sua justiça mal ou bem.
    A justiça portuguesa desgraça o cidadão levando à pobreza lucrando como os bancos e governos que se juntam como uma rede não se podendo provar as mortes por eles causadas.

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    • MJRB's avatar
      1 Setembro, 2014 16:36

      Faltou a vocês em tempo certo um submarino FIEL para detectar, divulgar e impedir o que o marinheiro-do-cachimbo manobrava, conjecturava e praticava…

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  2. MJRB's avatar
    1 Setembro, 2014 16:30

    Interessante post. Dele ressalta a Charlotte, outra maravilhosa pièce de Jane e de Serge.

    Ora, quanto aos Antónios, pelo que se sabe são mais conhecedores e apreciadores dos Xutos e dos Delfins do que de Stravinsky ; defensores de contas-prá-frenteX-depois-logo-se-vê do que de Fibonacci e se questionados publicamente por exemplo sobre o “Je t’aime…moi n’on plus,” para não parecerem mal educados/eleitoralismo obriga, provavelmente dizem não conhecer contrapondo “porquê essa ?, temos canções tão giras por exemplo do Tony Carreira e do Quim Barreiros !”.
    Só falta para compor o ramalhete, quinquenal, o sempre (afinal) cordato e ninfomaníaco Santana-PRepública promovendo nos jardins de S.Bento concertos “Cinco Violinos de Chopin” ou o Marcello-PR assinando despachos e “pensando” o país com música “de fundo” do Anselmo Ralph e do Zé Cid.

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  3. JS's avatar
    1 Setembro, 2014 17:01

    “…As eleições legislativas regulares em Portugal originam um trítono…”.
    Tem razão. Mas aparentemente A. Seguro pretende ser uma espécia de Arnold Schönberg da política nacional. Emancipar a dissonância em curso por introdução de uma assaz inesperada metanarrativa modernista musical, um acorde dos diabos.
    Aceitar plebeus independentes na Sagrada AR!. Sacrilégo. Fífia. UUHhhh!.
    Pateada monumental. Aonde é que se viu isso!. Escandalosa harmonia.

    Dissonância modernista a nível nacional só talvez, “A Sagração de Jorge Jesus” apitando um Benfica-Sporting. Mesmo assim … trivial. Não?.
    Lembremo-nos que um ex-presidente do PS, ou do PSD, eleito presidente da república já é composição musical usual, culturalmente harmoniosa para a orelha indígena.

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  4. maria ferreira's avatar
    maria ferreira permalink
    1 Setembro, 2014 17:08

    Música para os nossos ouvidos, será? No final vamos ver se os tons se harmonizam!

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  5. manuel's avatar
    manuel permalink
    1 Setembro, 2014 17:26

    A palavra austeridade já devia ter sido substituída pela palavra rigor, coisa que este governo também não conseguiu, portanto, os antónios não deverão fazer pior. Decerto, não ouviremos que a culpa das derrapagens é do TC e do inimputável.

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  6. LTR's avatar
    LTR permalink
    1 Setembro, 2014 17:45

    Provavelmente a austeridade transformar-se-ia em “gestão cuidada da coisa pública”, “contenção necessária”, ou simplesmente “gestão responsável”. Obviamente, tudo regado com o habitual e prolongado período de graça, no curto prazo sustentado com o passado (de sócrates para cá) e depois com a senhora Merkel, o protestantismo, o aquecimento global e a vespa asiática.

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  7. JCA's avatar
    JCA permalink
    2 Setembro, 2014 02:26

    .
    Por falar em matrioskas e toinos vem à colação a região Europa em estado de pré-guerra continental. .
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    Desquitando o ‘dejé vue’, o eterno conflito regional entre germanos e eslavos que lá se conhecem bem uns aos outros e como habitual afiam as facas a gosto e prazer; historicamente aqui no ‘puto’ temos escapado salva raras excepções; Se esta for mais outra como as anteriores desde o tempo dos romanos até ao sec XX por cá não se vê asa para nos safarmos doutra como a I Mundial;
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    temos também uma ironia mais àcida, resolver o desemprego dos jovens europeus enfiando-os “voluntáriamente” empregados na guerra. Seria uma solução para o pleno emprego derivado da da crise economica inventando outra ‘austeridade’.
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    Embora não acredite, até já há quem especule que uns estoiros financeiros que por aí andam são mais espiritos santos de orelha ‘inside informtion’ do que aí viria. Por ora surge especulativo.
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    Noutras regiões o toino dos anzois palitando uma caracolada com umas bejecas sentenciava solenemente ‘atão o momé não deixa o embola chegar lá òs móros do maido orinte ? Ganda deus, inté da virgens”
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    O caminho faz-se caminhando:
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    -2 Kiev Navy Cutters SUNK
    http://www.ibtimes.co.uk/igor-strelkov-claims-responsibility-ukrainian-ships-attack-azov-sea-1463438
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    e se assim for ….. assim será se não obstante entretanto ….
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  8. Buiça's avatar
    Buiça permalink
    2 Setembro, 2014 23:10

    Que maravilha de post…

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