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A TAP pode ficar Azul

9 Junho, 2015
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TAPAzulExcluído que está o “candidato nacional”, o “aristocrata” Pais do Amaral que pretendia ser capitalista sem capital, podemos já contar com pungente choradeira do “Nicolaço” pela perda de mais um “centro de decisão”. Dos 2 candidatos remanescentes, ambos sul-americanos, parece-me que a brasileira Azul será aquela com melhor potencial para relançar a TAP.

Trata-se de uma low-cost fundada em 2008 por David Neeleman, seu actual patrão e que, juntamente com a sua concorrente Gol, popularizou o transporte aéreo no Brasil nos últimos anos.

Neeleman, nascido no Brasil e formado nos States, é tipo com boas credenciais no sector da aviação e um revolucionário no segmento das low-cost. Todas as companhias que fundou e liderou – a canadiana WestJet, a americana JetBlue e agora a brasileira Azul – fizeram a quadratura do círculo, conjugando baixos preços com serviço ao nível da excelência. Na JetBlue inovou com a oferta de monitores de TV individuais por cada assento, oferecendo dezenas de canais, inovação que também implementou na Azul. A diferenciação e o lançamento de rotas inexistentes propiciou-lhe “espirais de crescimento” da actividade e também dos lucros nas empresas que liderou. No Brasil inovou mais uma vez, sendo a Azul a 1ª low-cost a abalançar-se com voos internacionais de longo curso. Neste momento já voa para 2 destinos na Florida, Fort Lauderdale e Orlando, 2 importantes bases da “sua” antiga JetBlue, com quem estabeleceu acordo de code-sharing. Idêntico acordo tem com a United Airlines, parceira da TAP na Star Alliance.

O seu interesse na TAP indicia que, garantido o acesso ao mercado norte-americano, interessa-lhe criar uma ligação directa ao mercado europeu, fechando um “triângulo” em que a Azul ficaria posicionada no vértice sul-americano. Nesta óptica, a TAP afigura-se como o parceiro ideal na Europa. Não só pela sua (reduzida) dimensão, supostamente ao alcance dos cofres da Azul, mas sobretudo pela complementaridade que as rotas da TAP lhe asseguram. Esta serve, com voos directos a partir de Lisboa e do Porto, 12 destinos no Brasil, cobrindo as principais bases da Azul, Viracopos, Guarulhos, Confins e Salvador. A partir destas e de outras secundárias para onde a TAP também voa, canalizaria o tráfego da Europa para todo o Brasil, garantindo em simultâneo aos seus clientes a ligação aos principais destinos europeus com escala em Portugal. Com a vantagem de poder adiar investimentos em frota de longo curso, aproveitando o facto desta ser a menos envelhecida da TAP. A prazo, trataria de posicionar esta como low-cost para as rotas europeias, para o que teria de renovar toda a frota de médio curso. E, eventualmente, expandir as ligações no Atlântico Norte através de uma parceria entre a TAP e a JetBlue, da qual continua a ser accionista. Isto abriria à TAP oportunidade de novas rotas para New York-JFK, Boston e Orlando, as principais bases da JetBlue na costa Leste, a partir das quais garantiria tráfego com destino à Europa. Pequeno-grande óbice à concretização deste cenário: a quase certa oposição da Lufthansa, que tem desde há vários anos um acordo de code-sharing com a JetBlue e da qual é um accionista de referência, com mais de 20% do capital.

Resta saber se Neeleman conseguirá reunir capitais para cortar o garrote financeiro que asfixia a TAP. Esta precisa urgentemente de cerca de 1 bi em dinheiro fresco, não só para atingir um nível decente de solvabilidade – está com capitais próprios negativos em 500 milhões – mas também para dar um mínimo de garantias aos seus credores (não apenas bancos) que, no limite, podem exigir pagamento adiantado, designadamente de combustíveis, e chegar ao extremo de reter os aviões nos aeroportos. Não seria caso inédito, aconteceu há poucos anos com a Varig, quando já estava na fase moribunda.

Uma coisa é certa, a TAP dificilmente sobreviverá isolada, num negócio em que as alianças vêm assumindo crescente importância na captação de tráfego longínquo, vital para maximizar taxas de ocupação. Uma hipotética integração na Azul, uma empresa de dimensão semelhante e que aparenta ter uma estratégia de crescimento bem mais consistente que a Avianca de Eframovich, poderá representar a sua salvação.

25 comentários leave one →
  1. Procópio's avatar
    Procópio permalink
    9 Junho, 2015 20:07

    Com aqueles pilotos, nem verde, nem azul.

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  2. anti-comuna's avatar
    anti-comuna permalink
    9 Junho, 2015 20:24

    Caro LR, excelente análise a esta candidatura.

    Se ele comprar a TAP, será “ouro sobre azul”. Só discordo disto aqui:

    “Pequeno-grande óbice à concretização deste cenário: a quase certa oposição da Lufthansa, que tem desde há vários anos um acordo de code-sharing com a JetBlue e da qual é um accionista de referência, com mais de 20% do capital.”

    Na prática a TAP também tem um acordo com a alemã e largou bastante rotas europeias para eles. Penso que a própria Lufthansa vê com bons olhos esta compra, pois com outros accionistas, a TAP poderá entrar em rota de colisão com a própria companhia alemã.

    Veremos se ele, o brasileiro, tem estaleca financeira para uma TAP como está.

    Mas boa análise, sim senhor. E seria o accionista ideal para a TAP. 😉

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    • LR's avatar
      9 Junho, 2015 22:09

      Pode ter razão, Caro Anti-Comuna, mas tudo irá depender da capacidade de negociação das partes. A Lufthansa não gostará de perder parte do “feeding” que já tem no Atlântico norte em cooperação com a United (seu grande parceiro na Star Alliance) e com a JetBlue. Nada obsta que se venham a negociar rotas partilhadas entre a TAP e a Lufthansa para o Brasil, seja a partir de Portugal, seja a partir de Frankfurt, Munique ou Zurique.
      A ver vamos, mas estou convencido que, tudo pesado, isto pode representar a lotaria para a TAP.

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      • anti-comuna's avatar
        anti-comuna permalink
        9 Junho, 2015 22:42

        Eu também concordo consigo. A TAP pode, não apenas sobreviver, como eventualmente, ganhar quotas de mercado nos outros continentes ao fazer as tais ligações, que o meu amigo bem apontou.

        Além disso, um ponto que para mim é importante. O tipo tenta diferenciar mesmo quando concorre com o preço, o que por si só, parece-me, é uma mais valia em eventuais rotas europeias. E se ele conseguir ver-se livre do pesadelo que é a manutenção no Brasil, talvez por si só, já valha a pena que ele pegue nela. 😉

        Vamos ver se ele ganha mesmo a privatização.

        Abç

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      • LR's avatar
        10 Junho, 2015 00:52

        E quem sabe se a manutenção no Brasil não dará jeito à Azul, cuja frota cresce continuamente?

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      • Francisco Miguel Colaço's avatar
        10 Junho, 2015 13:38

        É provavelmente esse o maior interesse da TAP, juntamente com as licenças de operação na União Europeia.

        Quem vier terá, cedo ou tarde, de esventrar a TAP e ficar com a manutenção e o imaterial. Alguém compraria a TAP burrocrática e grevista e pouco competitiva por outras razões?

        Por mim, desde que ma tirem das mãos, façam o que quiserem.

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  3. insider's avatar
    insider permalink
    9 Junho, 2015 20:48

    e a terceira opção é:
    a tap nâo é privatizável… (nem com o brinde “portugalia” que foi “comprado” ao salgado…)
    (embora o investidor da coca faça os decisores babarem-se)

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  4. licas's avatar
    licas permalink
    9 Junho, 2015 20:54

    Viracopos? Com certeza.
    Vou nessa, e com afã:
    Bastam quatro da beleza
    Duma Beer alemã.

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  5. MJRB's avatar
    9 Junho, 2015 21:04

    Acredito mais nas “boas intenções” de Neeleman (com o outro “nacionalista”, HPedrosa), do que no concorrente opositor. Não lhe faltará apoio, credito bancário.
    Vendam a TAP, não há outra solução.
    Desejo que mantenham os créditos firmados internacionalmente, melhorem o serviço aos passageiros, cumpram horários.

    E se o governo quiser colocar à venda logo a seguir a RTP, prestará óptimo serviço a todos os tugas. Até podia colocar como hipótese de negócio “2+1”: TAP + RTP…

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  6. fado alexandrino's avatar
    9 Junho, 2015 21:56

    Até que enfim que alguém diz o que está à vista de todos.
    Esta é a melhor opção, a Azul canibaliza todo o tráfego brasileiro para os 12 destinos da TAP e esta transporta-os para a Europa onde depois os distribui.
    É um começo.

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  7. colono's avatar
    colono permalink
    9 Junho, 2015 22:59

    Comunas e anti… Esqueceram-se do Costa… Este só vende 47% da Tap….
    A TAP, como a Taça é nossa! Agora a sério: O tipo é louco de todo…. mas, alguém se sujeitaria a ficar minoritário na empresa falida?

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    • anti-comuna's avatar
      anti-comuna permalink
      9 Junho, 2015 23:26

      “O tipo é louco de todo…. mas, alguém se sujeitaria a ficar minoritário na empresa falida?”

      Se o estado lhes der benesses, acredito que sim. É a escola socialista a funcionar. Os socialistas estão sempre dispostos a ajudar os “empresários” amigos. Talvez esperando, depois, que esses empresários lhes comprem “aparments” junto da Sorbonne. lol

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      • Francisco Miguel Colaço's avatar
        10 Junho, 2015 13:32

        Quando a falta de dinheiro apertar e os potenciais compradores exigirem uma maioria sólida, o Costa faz mais uma pirueta com triplo mortal e saída pelo centro e vende os tais cinquenta e tal por centro da TAP, desde que escolham um administrador do PeiÉsse na quota dos privados.

        Este cenário pressupõe a quase incerta eleição do Costa. O dito empate técnico que se repete nestes dias nas empresas de sondagens já aconteceu uma vez, e o PS empatou com o PSD a 26-38. Foi em 2011, antes das eleições.

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  8. gr0uch0marx's avatar
    gr0uch0marx permalink
    10 Junho, 2015 01:07

    off-topic: referirmo-nos a 1000 milhões como 1 bi é um pouco saloio (e assim tipo usava-se imenso há 2 anos atrás). just saying.
    quanto ao conteúdo do artigo, gostei, parabéns pela análise efectuada.

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  9. fado alexandrino's avatar
    10 Junho, 2015 08:14

    O governo, a TAP e a Parpública terão um feriado de trabalho para garantir que o futuro da companhia aérea possa ser decidido já amanhã em Conselho de Ministros. “Os assessores estão a trabalhar com a velocidade possível face ao volume de documentação e complexidade das propostas”, afirmou ontem Sérgio Monteiro, adiantando que “vamos precisar de todas as horas” para que seja possível tomar uma decisão relativamente ao novo dono da TAP

    Aposto singelo contra dobrado que as conclusões vão ser no sentido de que uma é melhor nisto e a outra melhor naquilo, restando um empate.
    O governo que desate o nó.
    A escola Pilatos.

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  10. BELIAL's avatar
    10 Junho, 2015 08:21

    Com o putativo conde de alferrarede a tap seria de sangue azul.

    Toda a gente podia encher a “montblanc” e voar, voar, voar……

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  11. Pedro's avatar
    Pedro permalink
    10 Junho, 2015 17:54

    Tão bom vendermos um dos nossos maiores activos nacionais abaixo do preço de custo, tipo brinde de bolo rei ao primeiro empresário que apareça.

    Melhor que a Azul, com muitos mais credenciais e know-how era a Swssair há uns vinte anos atrás.

    Era um perfeito exemplo do que podemos esperar de uma gestão privada.

    Só um privado podia salvar a TAP da falência imediata, lembram-se ?

    Oh, a desculpem, esqueci-me que a Swissair foi logo á falência logo a seguir.

    Afinal é a TAP que ainda cá está…

    Ainda bem que não privatizámos na altura não foi ?

    Bem, o melhor é não falarmos nestas coisas e fingir que o primeiro privado que apareça é um super-herói um verdadeiro Batman, ou Capitão-américa que vai salvar a TAP.

    Se não for ele próprio á falência primeiro…

    O que até será uma sorte, porque, se for á falência DEPOIS de comer a TAP e nos papar por papalvos, lá vai a TAP para o brejo.

    E depois lá vamos nós recomprar aquilo, porque, como companhia estratégica, não podemos passar sem ela.

    No processo podemos perder mais uns biliões.

    Claro que, na lógica do copo meio cheio, os biliões que perdermos, serão biliões ganhos por algum privado, tipo Ricardo salgado, que muito ganhou com a privatização do BES…

    Mas para o pessoal deste blog é só isso que interessa.

    Têm interesses a defender…

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  12. NN's avatar
    10 Junho, 2015 19:03

    LR, quer Azul quer Avianca devem ter mais ou menos a mesma estratégia para a TAP.
    http://aviacionyturismo.com/2012/10/19/quien-es-tap-y-cual-es-el-interes-de-efromovich-en-ella/

    Pessoalmente também preferiria o Neelman, mas já agora, qual que reticências em concreto tem em relação a Efromovich?
    Já agora, é bom de ver o LR a falar do Hub de Lisboa, quando aqui há uns anos dizia que era uma espécie de mito 🙂

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    • LR's avatar
      10 Junho, 2015 21:39

      Acho que o Neeleman dá mais garantias financeiras e conseguirá mobilizar capital mais facilmente que o Efromovich. Mas posso estar enganado. A estratégia América Latina/ Europa será de facto semelhante, mas parece-me que com o Neeleman haverá mais hipóteses de “fechar o triângulo” no Atlântico Norte, conquistando para a TAP uma parcela do maior mercado do mundo onde ela tem estado estacionária.
      Não sou propriamente adepto dos grandes hubs, embora lhes reconheça vantagens económicas. Critiquei foi em tempos o mito do grande hub e o desejo de o fazerem por decreto. Mantenho exactamente a mesma posição. Se amanhã tivermos um grande hub em Lisboa porque os agentes económicos lhe reconhecem racionalidade, nada a obstar.

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  13. anti-comuna's avatar
    anti-comuna permalink
    11 Junho, 2015 12:39

    Parece que há azul na TAP.

    http://economico.sapo.pt/noticias/david-neeleman-ganha-privatizacao-da-tap_220799.html

    Provavelmente a TAP está salva. 🙂

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    • LR's avatar
      12 Junho, 2015 00:49

      Correu bem e acho que Neeleman foi a melhor escolha. Palpita-me que nos próximos anos a TAP crescerá e muito. E o tipo está mesmo a pensar abrir rotas para os States, tal como eu tinha aventado.

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      • anti-comuna's avatar
        anti-comuna permalink
        12 Junho, 2015 08:11

        Oxalá a sua análise esteja correcta. Seria ouro sobre azul. 😉

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  14. licas's avatar
    licas permalink
    12 Junho, 2015 23:51

    Digo o mesmo, anti.

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  1. E pronto, a TAP ficou mesmo Azul | BLASFÉMIAS

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