O Processo
Fartos disto tudo, fomos para o Rossio. Outros viram os cartazes e vieram atrás. Em dois dias tínhamos o Rossio cheio, com cartazes, cânticos, palavras de ordem e um sentimento de fraternidade comunal nunca visto fora de um concerto dos Grateful Dead. As pessoas queriam mudança, exigiam-a. Sentia-se a revolução no ar, o pacifismo de um povo oprimido que exigia o fim da tirania.
Organizamos um secretariado para gerir as intervenções à assembleia, já que todos tinham algo a dizer para a criação de um futuro novo. Todos são importantes. As opiniões e os pontos de vista eram tantos que tivemos que criar grupos de trabalho para diferentes áreas, cada um concentrando-se no que é essencial para a mudança de mentalidades que se avizinha para todo um povo. O grupo ecologista plantou rabanetes e o grupo vegan sacrificou uma vaca como símbolo de opressão do touro bandarilhado pelas bárbaras tradições patriarcais. Tivemos artes circenses e poemas por pessoas de tranças nas longas barbas. Nem por ser Março trocamos as sandálias por botas cardadas. Tomávamos o banho comunal todas as manhãs graças a uma calha colocada em frente ao pénis da estátua de D. Pedro IV por um trapezista que também cospe fogo.
Começaram a aparecer os reaccionários, prontos a boicotarem a revolução com resquícios de um passado opressor, recordando a existência de instituições retrógradas que simbolizam a tirania, como os tribunais que prendem presos políticos em mangas de aviões. Tivemos que disciplinar o acesso à mesa. A partir de certa altura, só as propostas apresentadas ao comité de apreciação de propostas recebidas pelos grupos de trabalho independentes podiam ser apreciadas para apresentação ao secretariado, incumbido de decidir a ordem pela qual deveriam decorrer os trabalhos. Começaram os protestos de facções revisionistas e foi necessário criar uma força de ordem que mantivesse o regular funcionamento e liberdade da assembleia revolucionária. À medida que subia o descontentamento dos velhacos pelas medidas higiénicas de afastamento das suas ideias subversivas, foi necessário criar o comité de investigação das motivações revolucionárias. Para assegurar eficiência, quem apresentasse queixa contra outro manifestante teria menção pública pela lealdade à causa. Os bufos sucediam-se, em catapulta, sendo necessário purgar o grupo de elementos cuja participação era meramente subversiva.
Quando começaram os tumultos, propus a suspensão dos trabalhos até que se determinasse um plano de reeducação dos manifestantes, formatados para uma opinião individualista em detrimento do bem comum e do espírito do grupo. O incêndio controlou-se rapidamente e só morreram 6 velhos que, infelizmente não possuíam a robustez física que a revolução necessita. Foi-lhes atribuído o estatuto de mártires e decretar-se-á um minuto de silêncio por cada um. Mal exista consenso no comité central, liberaremos da prisão os outros manifestantes que abracem a causa, sob compromisso de honra devidamente assinado e arquivado no comité da pureza ideológica.
Nada pode parar a revolução.

Só faltou a parte em que o Grupo Ecologista exaltou os verdadeiramente revolucionários a cagar em cima dos rabanetes para que não houvesse carencia de matéria organica que boicotasse a revolução.
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Não podia incluir todas as medidas de senso comum ao serviço do bem da nação.
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naturalmente….
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É curioso que parece ficção, mas já foi realidade.
Aquando do movimento (não me lembra o nome) que emporcalhou Madrid durante semanas, pouco tempo depois aconteceu o copy cat ali mesmo, no Rossio.
Fui lá ver, coincide menos os velhinhos mortos como que vi.
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Não tenho a certeza de ter sido propositado, mas adorei “Os bufos sucediam-se, em catapulta”.
🙂
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Foi. Só lamento não ter incluído uma guilhotina algures.
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melhor dizendo ,,,não seria o Paredon?
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E o Partido dos Burros apareceu?
Apareceu e asneou ou só zurrou?
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‘enquanto houver um português com um pão,
a revolução continua’
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e uma mesinha para recolha de assinaturas para o novel PL, havia? e um bento a falar de mudança pedindo nacionalizações?
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Era uma mesa de três pernas e estavam e tentar comunicar com o Salazar. Queriam saber como é que aonde se consegue embrutecer cérebros mais de meio-século depois.
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Chamo a atenção para o III Congresso Internacional Karl Marx que irá decorrer nos dias 2, 3 e 4 de Novembro de 2017 Lisboa: https://centenario1917.wordpress.com/2016/02/19/call-for-papers-pt/
A comissão científica não engana!
Comissão Científica: Alfredo Caldeira, António Pedro Pita, Boaventura de Sousa Santos, Fernando Rosas, Francisco Bairrão Ruivo, Francisco Louçã, Giulia Stripoli, João Madeira, José Pacheco Pereira, José Neves, Luís Farinha, Luís Trindade, Manuel Deniz Silva, Manuel Loff, Mário Machaqueiro, Mário Vieira de Carvalho, Miguel Cardina, Miriam Halpern Pereira, Paula Godinho, Ricardo Noronha, Steven Forti.
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Comissão Científica? AHAHAHAHAHAH
Onde está a Ciência da coisa?
É só “cientistas”… malucos!
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E um dos do kumité central sem dentes, rindo à gargalhada, tirou um tomate para fora ( pensando tratar-se da pila ), para regar os rabanetes, súbito começou a gritar: “tenho os tomates rotos!!! tenho os tomates rotos …!!!!!”
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Por acaso conheci (hoje e desde há anos abomino-os, são-me indiferentes) uma política e um político muito conhecidos, P”S”‘s, que quando estavam ocasionalmente contra o primeiro governo do JSócrates (no segundo já estavam serenados, instalados…) e durante o governo do PPCoelho, perguntavam frequentemente quando, e propunham a organizadores de manifs “luta na rua”, “grandes marchas na avenida”, “já passou mais de 1 mês sem se ouvir a voz das pessoas”, “uma grande linha da frente da marcha com conhecidos”, “não te esqueças de me avisar”, etc., etc.
Carago, quando estava marcada uma manif, dias antes já se excitavam por regressarem às “grandes lutas”, quase atingiam um orgasmo tamanha a vaidade tardia (esclerosada ?) por virem a ser aplaudidos e cumprimentados pela populaça “na avenida”… Era uma festança. E principalmente ele, se não tivesse sido entrevistado ou convidado para um depoimento pela comunicação social ficava irritado, mesmo zangado: “vocês não disseram aos gajos para me entrevistarem ?”
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Por isso é que eu acho que toda a gente devia ter direito a 10 minutos na RTP. Quem não quisesse usar os seus, vendia a quem queria.
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Boa proposta. À RTP via ministro(?) JSoares.
A economia dos indigentes estabilizava durante 2 meses ao venderem 10 minutos por 1000 euros. Não faltariam compradores.
Se não é pedir muito, mais 5′. Os tais 15′.
Parece que não faltam programas na RTP propícios para qualquer “cromo” aparecer.
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De acordo, 15 minutos. Estava a tentar fugir ao clichê mas admito que é poético.
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Vendia mas a preço regulado pela ERC!
Xuxialismo 4ever!
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regulado mas com taxas de 5% e assim eles poderiam aumentar os ordenados como quisessem
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MJRB: então, essa manif funcionou como um viagra para esse casalinho de PS’s?
Que vidinhas, que indigência mental…
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Manif não. Manifs, muitas. Exacto, uma espécie de viagra para estimular os seus egos perante o maralhal.
Ele, tem um ego enorme e incontrolável. Dos tais que parece que nós estamos sempre a dever-lhe algo…
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Proponho a criação de uma estátua revolucionária.
Será fixa num eixo através do qual pode fazer até 3 revoluções por minuto, dependendo da pedalada do ecologista que através de uma gerigonça faz rodar a estátua.
Atrás do selim coloca-se o contador de bufos em catadupa, ou catapulta consoante a facção ou fassão.
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Repare que a trajectória do projéctil numa catapulta é uma parábola. Eu, às vezes, consigo ser denso.
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Mas num selim a trajectória é em ricochete se estiver sentado e em parábola invertiva (o bufo é menos denso que o ar) se estiver de pé.
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Excelente.
Para estar perfeito faltou a referência ao djembe.
Mas apesar desse pormenor, considero este post um sério candidato aos »Melhores de 2016«.
»Nada pode parar a revolução«. Nem a própria revolução?
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Excelente.
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La marcha de los clavelles rojos . . . (America Latrina)
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Os profetas da desgraça têm o estranho poder de fazer surgir nuvens negras onde instantes antes reinava alguma acalmia. O economista João César das Neves foi às Jornadas Parlamentares do PSD assegurar que estamos à beira de um novo resgate, antes de terminar a sua intervenção citando António de Oliveira Salazar. E disse ainda que “eles”, os socialistas que governam, já estão conscientes de que “uma trovoada de um tamanho tal” está prestes a abater-se sobre as nossas cabeças.
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Bolota,
Este OE vai passar. As renitências do PC e do BE ao OE são meras encenações (hipocrisia pura) para manter os seus eleitorados.
O governo vai dar uns euros aos tugas (“reposição” de ordenados, pensões, reformas, alguns impostos reduzidos, etc) meramente com intuito eleitoralista. Mas proximamente terá de aumentar impostos.
O PC e o BE estão a ajudar o AC/DC e o P”S” a colocar novamente o país e os tugas numa situação miserável a curto-médio prazo. O BE, porque está alapado ao P”S” e tem a comunicação social controlada, poucos votos perderá. Mas o PC, se não romper com o apoio, nas próximas legislativas o seu grupo parlamentar caberá em dois táxis.
Vocês estão embriagados com o poder ?
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Começa-se de pequenino. Stalin levou tanta porrada do pai que ficou com um braço inutilizado para o resto da vida. Quando cresceu pode matar uns milhões já sem remorso. Mas assim contado parece um romance cor de rosa. Faltaram acima as prisões arbitrárias e eventualmente o tiro na nuca para os mais recalcitrantes. No mais está perfeito.
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Há quem vê neste «novo tempo» revoluções e coisas idiotas. Eu só vejo um tempo bom para se ganhar dinheiro. Façam como eu.
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Não, não faço, nunca farei mesmo nas últimas de miséria.
Não, não me alisto : MAS HÁ QUEM O FAÇA e proclame
a bondade da decisão: vida aqui acima.
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_____________vide _____( é Latim, e no Clásico não havia acentos)
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