Liberalismo a metro

Janeiro de 1702. Charles Louis de Secondat, vulgarmente conhecido como Montesquieu, entra na adolescência e recebe de presente um exemplar do Segundo Tratado do Governo de John Locke. Descontente com um dos parágrafos em que se expunha a nova teoria liberal, deixa-se tomar pela ira e convoca o filósofo inglês para um duelo: quem conseguisse fazer chichi mais longe ficaria com o título de pontífice máximo do liberalismo. Entretanto, desde esse momento fundador, várias foram as vezes em que a popular competição das distâncias foi levada a cabo pelos defensores do governo limitado e das virtudes da iniciativa e propriedade privadas. O economista Jean-Baptiste Say, por exemplo, gabava-se de ter ultrapassado a marca histórica do seu colega Adam Smith em 34 centímetros. E toda a gente se lembra do dia em que Hayek e Milton Friedman, aproveitando um pequeno intervalo na reunião da Sociedade Mont Pèlerin, se viraram para o Lago Léman, desabotoaram as respectivas calças, e deram início às hostilidades.
Não foi por isso de estranhar que, após a divulgação da declaração de princípios do novo partido de Santana Lopes, onde eram reveladas as suas tendências liberais, tenha imediatamente surgido, da parte de outros grupos políticos, uma reacção do tipo “eu sou mais liberal do que tu” e o consequente desafio urológico-métrico. Estes concursos, apesar de ligeiramente infantis, são sem qualquer dúvida preferíveis à picareta que Estaline mandou cravar no couro cabeludo de Leon Trotsky, evento que integra a epopeia concorrente intitulada “eu sou mais socialista do que tu”. É também por estas pequenas diferenças que escolhi este lado do combate de ideias, um lado que, até ver, não dá tantas dores de cabeça.
Há muitas pessoas que não conseguem entender a obsessão pelos purismos ideológicos no espaço político que defende a “sociedade aberta”. Dizem que o liberalismo, mais do que uma ideologia, é um conjunto de tradições que podem e devem estar presentes em partidos conservadores, democratas-cristãos, sociais-democratas e, até, nos que pertencem ao campo do socialismo democrático. Para estes excêntricos, que ignoram os prazeres das competições com líquidos, mais importante do que a existência de partidos liberais é a existência de liberais nos partidos – e quanto maior o número, melhor. Notoriamente, não percebem nada do assunto. E bastava que analisassem a história recente do Reino Unido e o caso concreto de Margaret Thatcher para entenderem. Sendo mulher, nunca reuniu as condições anatómicas indispensáveis à boa prestação no confronto urinário, e esse facto, catastrófico, condenou o seu país a uma década sem vestígios de liberalismo.

ehehe
GostarGostar
Brilhante e claríssimo texto. Eu diria mesmo que é um recorde nacional de 60 cm, na especialidade de bexiga cheia. Mas sei muito bem que o Sérgio, tal como eu, não pratica o desporto e a nossa aptidão natural não é aceite pelos actuais juízes..
GostarGostar
“mais importante do que a existência de partidos liberais é a existência de liberais nos partidos – e quanto maior o número, melhor. Notoriamente, não percebem nada do assunto. E bastava que analisassem a história recente do Reino Unido e o caso concreto de Margaret Thatcher para entenderem”
Desde quando Thatcher ou o Partido Conservador são liberais? Existiu um Partido Liberal no UK que se foi diluindo, primeiro no Partido Conservador (com Churchill, etc.) e finalmente no SDP (com David Steel). O que só prova que: “mais importante do que a existência de partidos liberais é a existência de liberais nos partidos – e quanto maior o número, melhor”!
GostarGostar
O texto é uma pequena brincadeira mas agora vou falar a sério: o que a Thatcher, verdadeiramente, é, não sei; que aplicou as tradições liberais na sua governação, parece-me evidente.
GostarGostar
Mas, mas… É impossível. Não percebe? Ela está no partido conservador, não no liberal. Toda a gente sabe que só se é liberal se pertencer ao partido liberal. Conservadorismo liberal? O que é isso? Doesn’t compute. /sarcasm
O Sr. Mendes parece que não leu o último parágrafo.
GostarLiked by 1 person
O socialismo, mais do que uma ideologia, é um conjunto de tradições que podem e devem estar presentes em partidos conservadores, democratas-cristãos, comunistas e, até, liberais.
O conservadorismo, mais do que uma ideologia, é um conjunto de tradições que podem e devem estar presentes em partidos democratas-cristãos, sociais-democratas, socialistas e, até, comunistas.
GostarGostar
O Sérgio Barreto Costa poderia escrever o seguinte: eu sou partidário de um dos partidos atualmente existentes e portanto não desejo que surjam outros que lhe possam retirar votos. Seria mais simples e mais sincero e mais verdadeiro.
GostarGostar
Não tenho nada contra os novos partidos, Luís, se calhar expliquei-me mal. A IL (um novo partido) é que se “atirou” contra o Aliança do Santana (outro novo partido); eu limitei-me a criticar essa atitude.
GostarGostar
O Luis Lavoura é uma das mascotes do blasfémias. Gostamos todos muito dele porque é uma lembrança do que nos espera à esquerda e porque os fracos requisitos mentais para abordar os seus posts são um merecido repouso após uma semana de trabalho. Vejo que o Sérgio teve uma semana difícil e é por isso que estou a ver alguém do seu gabarito responder directamente à mascote.
A outra mascote é o Arlindo. Juntos são fonte de grande divertimento e julgo mesmo que são anões e irmãos. Já o António Marques Mendes quer ser mascote, mas precisa de se esforçar menos. Sim, menos. O truque é ser completamente irracional. Estar sempre errado não chega. E os Blasfémias só aceita anões para mascotes.
GostarGostar
A melhor escola do chamado «pensamento liberal» encontra-se em Portugal. Felizmente.
GostarGostar
Estão a falar de caranguejolas?
GostarGostar
Em que pensamento liberal se está a falar? Politico, económico, mundialista?
GostarGostar