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Da Arquitectura

10 Outubro, 2018

Praça_dos_Três_Poderes_em_Brasília

 

Acreditando na opinião de consagrados politólogos portugueses, o momento decisivo para a vitória de Mário Soares nas eleições presidenciais de 1986 foi a paulada que levou na Marinha Grande durante a campanha eleitoral. O candidato tinha entrado na corrida com péssimas sondagens, desgastado pela forte austeridade que aplicou enquanto primeiro-ministro, mas o incidente marinhense, aproveitado com inteligência pelo socialista, virou tudo do avesso. Claro que há quem desvalorize este episódio e que, enveredando pela complexificação, defenda a vitória de Soares como fruto de múltiplos e intrincados factores. A esses, que gostam de puxar pela cabeça, sugiro que vão ler Joyce ou Proust, pois aqui, por motivos filosófico-preguiçosos, nunca se percorrem caminhos difíceis quando existem atalhos à disposição.

É por isso que Fernando Haddad, em vez de complicar a sua própria vida visitando presidiários de quem os brasileiros estão manifestamente fartos, devia era tratar de apanhar uns calduços com a maior brevidade possível. A minha sugestão é que organize esse evento no Recife, a cidade pernambucana que abrigou no séc. XVII a primeira fábrica de vidros do país. Essa inovação artesanal, trazida pelos colonizadores holandeses da época do príncipe Maurício de Nassau, faz do Recife o local do Brasil com mais pontos em comum com a Marinha Grande, ou seja, o sítio indicado para aplicar a estratégia política do “quanto mais me bates, mais votam em mim”. Acredito que Haddad, um professor universitário de ciência política, considere a táctica da cacetada demasiado primitiva para os seus pergaminhos académicos. No entanto, julgo que qualquer acção, incluindo apanhar na cara, demonstra mais sofisticação intelectual do que fazer de porta-voz de Lula da Silva numa altura em que tenta obter os votos dos que se sentem vítimas de Lula da Silva.

Em 1986, após a primeira volta das eleições presidenciais portuguesas, Álvaro Cunhal pediu aos comunistas para taparem a cara de Mário Soares no boletim de voto com uma mão e votarem nele com a outra. E os comunistas acataram a solicitação, engolindo um sapo bem bochechudo, porque o candidato socialista abandonou as provocações ao PCP e foi ao encontro dos seus militantes. Se os assessores de Haddad tivessem feito parte do MASP I, teriam certamente aconselhado Soares a fazer um comício na Fonte Luminosa e a viajar até Moscovo para fazer xixi no Mausoléu de Lenine. Infelizmente para Freitas do Amaral, não fizeram.

Por vezes, quando é bem conseguida, a arquitectura ensina-nos coisas. Na época em que se iniciou a construção da cidade de Brasília, Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, os responsáveis máximos pela Nova Capital, fizeram da Praça dos Três Poderes o espaço mais nobre do país. Inspirados por Montesquieu, nela incluíram três edifícios monumentais, destinando cada um deles a cada um dos poderes da República. Assim, o poder legislativo, o poder executivo e o poder judicial poderiam ser harmoniosos vizinhos no mesmo bairro, mas não correriam o risco de viver em promiscuidade na mesma casa. Fernando Haddad, olhando para o que o rodeia, devia perceber uma evidência: se as ideias do PT tivessem alguma lógica, Lúcio Costa e Niemeyer teriam metido o Supremo Tribunal Federal na cave do Palácio do Planalto.

 

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3 comentários leave one →
  1. Procópio permalink
    10 Outubro, 2018 19:15

    Concordo com tudo. Só que quando visitei o mausoléu do lenine tive de facto vontade de fazer chichi, mas não só.
    Isso do “quanto mais me bates, mais votam em mim” tem dado resultado com os tugas.
    Ainda assim já vi muito corno acabar por atingir o bandarilheiro.

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  2. Arlindo da Costa permalink
    10 Outubro, 2018 23:51

    O Brasil corre o risco de eleger um delinquente – um ex-capitão do Exército expulso por má conduta e corrupção.

    Como é que um tipo que não honrou a instituição militar brasileira pode honrar a bandeira da Ordem e do Progresso?

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  3. Velho do Restelo permalink
    25 Outubro, 2018 20:02

    Esse incidente do Soares é bem curioso. Só não me recordo se aconteceu antes ou depois do bochechas descobrir o “direito à indignação”!
    Também penso que o modelo tuga não se apliqua ao Brasil. Aqui a coisa ainda vai à estalada, uns murraços nas fuças quando muito uma paulada ! Lá é a tiro …
    Quanto à arquitectura, é bem possível que qualquer dos candidatos em disputa venham a fazer umas alterações, final ainda há tanto espaço naquele planalto … quem sabe um templo da iurd ou um banco (BESB) para lavar dinheiro a cheirar a maresia !

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