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“Querida, eu encolhi a cultura”

28 Novembro, 2018

graça

 

“Uma coisa óptima de estar em Guadalajara há quatro dias é que não vejo jornais portugueses”, afirmou a ministra da Cultura, sorridente, num dos pavilhões da Feira Internacional do Livro que está a decorrer naquela cidade da América Latina. Cavaco Silva dizia em voz alta que dedicava dez minutos do seu dia aos jornais e a esquerda achava-o terrivelmente inculto; Graça Fonseca prefere não os ler de todo e a esquerda acha que ela tem o perfil ideal para liderar o Ministério da Cultura. Nem os mais ferozes críticos desconfiaram alguma vez que a influência da imprensa nacional era tão perniciosa; aparentemente, bastam umas breves leituras à maneira do ex-Presidente da República para embrutecer completamente uma pessoa. Quando os meus filhos entrarem na adolescência a primeira coisa que vou fazer é alertá-los para os perigos do jornalismo. Depois, se me sobrar tempo e paciência, talvez lhes fale do VIH/SIDA, do álcool e das drogas.

O desabafo da ministra é particularmente encantador por ter sido lançado no estrangeiro, num evento internacional onde está a promover vários escritores portugueses que publicam em jornais. Escritores esses, aliás, que estavam, a convite do ministério, ao seu lado. A mensagem de Graça Fonseca ao mundo parece ser, por isso, qualquer coisa como: “recomendo vivamente a todos que leiam estes senhores; eu faço questão de não os ler, mas posso garantir que são excelentes”. A ideia, afinal, não é apenas que os outros conheçam os nossos literatos, mas sim que algum jornal mexicano os contrate para nós não termos de os aturar por aqui. Graça Fonseca, mais do que ministra da Cultura, quer ser o Jorge Mendes das letras nacionais.

Nos últimos anos, vários intelectuais têm mostrado a sua preocupação com o alargamento do conceito de cultura. É uma inquietação pertinente, uma vez que os sociólogos trouxeram as manifestações artísticas populares para o terreno de jogo, e para os antropólogos, como sabemos, quase nada fica de fora. Mario Vargas Llosa, por exemplo, tem saudades do tempo em que se conseguiam distinguir as pessoas cultas das incultas, pois essa distinção, de acordo com o seu raciocínio, tornou-se impossível numa época em que, de Ruth Marlene a Guilhermina Suggia, dos caralhos das Caldas às esculturas de Soares dos Reis, tudo cabe na definição de cultura. Graça Fonseca, pelos vistos, concorda com ele e está com vontade de resolver rapidamente o problema. Em pouco mais de um mês já mandou a tourada e os jornais para o caixote do lixo da civilização, o que pode significar que daqui a um ano, quando o mandato chegar ao fim, restará apenas o São Carlos, a Cinemateca e o Museu Nacional de Arte Antiga. Além das camisolas de gola alta, claro, que nessas nenhum intelectual deixará algum dia tocar.

 

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7 comentários leave one →
  1. Daniel Ferreira permalink
    28 Novembro, 2018 10:16

    Tipica jogada comuna: vitimizar-se quando tem os agressores totalmente do seu lado.

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  2. 28 Novembro, 2018 10:47

    ministra ” princípio de Peter ” perfeito .

    Liked by 1 person

    • André Silva permalink
      28 Novembro, 2018 11:40

      O “princípio de Peter” dela já vem desde muito ates de ser Ministra. Na realidade, diria que nela tudo o que seja pensar entroncaria necessariamente nessa situação.

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  3. Velho do Restelo permalink
    28 Novembro, 2018 12:07

    Não podemos avaliar estes casos segundo a lógica vigente até 2015! O Costa mostrou que havia outros caminhos para chegar ao poder (mesmo sem ganhar eleições).
    Também aqui podemos estar perante uma forma inédita de “apoiar” a comunicação social sem despender um único € do orçamento de estado! Os jornais e TV’s necessitam de «assuntos escaldantes» para estimular a procura. As principais fontes de notícias vendáveis têm sido : governo, política em geral, justiça, desporto e as desgraças nacionais.
    O caso Tancos já está a secar, o Bruno C. que tanto detestava jornais e TV´s acabou por dar uma ajuda significativa, o caso Borba ainda tem alguma pedra para partir, mas é preciso esperar.
    Na volta a ministra está só a tentar dar uma ajuda, e a burro dado …
    Ela ajuda fazendo aquilo que melhor sabe : trapalhadas !

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  4. pitosga permalink
    28 Novembro, 2018 14:36

    Sérgio Barreto Costa, a grande medalha é para sii:
    o título «Querida, eu encolhi a cultura», além de lindo tem uma toxicidade notável.
    Depois virão:
    Daniel Ferreira com o ‘jogo’ comuna — que em geral é estúpido.
    E que vem logo apoiado por: me20162016 e André Silva

    Felicitações para todos.

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  5. PAIXAO AFONSO permalink
    28 Novembro, 2018 15:07

    Para a rua já.

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  6. 28 Novembro, 2018 16:01

    Costa, o tal que recebeu (como sempre receberam os candidatos socialistas) o apoio da “Cóltura” na petição “A Cultura Apoia António Costa”, passou tempos a gabar-se de a ter promovido a ministério, ao contrário do obscurante Passos que a menosprezara em indigna secretaria de Estado. Não ouvi ninguém perguntar a Costa qual a vantagem de promover a Cultura a Ministério se o orçamento que lhe deu era inferior àquele que teve enquanto secretaria de Estado. Também nenhum dos tais “artistas” que saudaram a vinda de Costa o questionou como é que nomear um grunho como João-filho-do-pai-Soares a promovia. E a ninguém parece fazer espécie que este Costa, tão amigo da Cultura, tenha sucessivamente nomeado para a ministeriar um grunho, um embaixador quase transparente e uma acólita da sua quadrilha.

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