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Quem espera sempre alcança

14 Janeiro, 2020

Manhã fria e risco de chuva. Espero o topógrafo da câmara municipal à porta para que possa estacionar no interior da propriedade. A rua é estreita e movimentada, mas o acesso pela quelha sem saída à rampa da garagem permitirá ao homem evitar estacionar a uma distância desagradável. Era às 10h30, mas já não é. No fundo, era às 10h30 de outro dia frio e chuvoso de Dezembro, mas não foi. Será hoje? Se não for, terei que passar mais quatro horas ao telefone até o conseguir contactar no gabinete. Espero que seja hoje, mas já não deve ser. Preciso de um papel que diga que mantive as distâncias às outras casas numa obra que consistiu em manter as distâncias às outras casas. Minto: num caso foi aumentar a distância à casa do lado, demolindo o coberto que as unia.

Subo e desço a rua em frente à entrada principal, a única com número de polícia. Para cima, para baixo. Vizinhos cumprimentam-me com “bom dia” e estranhos indagam-me com a mesma frase, como que assegurando que alguém capaz de responder a uma saudação não é um génio da patifaria servindo de olheiro das casas a assaltar na rua.

Subo e desço, subo e desço. As mãos geladas e as luvas pousadas no aparador do apartamento. Subo e desço, subo e desço. Era às 10h30. Talvez seja às 11h00. Não, às 11h00 já não é: talvez às 11h30.

Quem espera sempre alcança. No meu caso, alcançarei o papel que eles próprios querem, que para mim não será de grande uso. Para cima, para baixo. Nem reclamo. Apenas lamento não estar a fazer outra coisa, talvez mais útil, talvez mais proveitosa, talvez mais construtiva. Apercebo-me, no entanto, do pecado cometido: querer passar pelo ritual sem que este cumpra todos os preceitos tradicionais, todos os ritos de iniciação, todas as vicissitudes inerentes ao privilégio que é a oportunidade de lidar com a administração, com o Olimpo onde se decidem as liberdades dos humanos, onde o livre arbítrio é equacionado pela regulação e a regulação é regada com burocracia. Ó vil humano, que te queixas de esperar ao frio. Não vês o privilégio que te é concedido? Milhões de fiéis que passam décadas sem sucesso a tentar chegar a Deus e tu, que com Ele combinaste às 10h30, que sabes que mais hora menos hora chegará, tens o desplante de rejeitar a epifania da criação através do papel sagrado que atesta alinhamentos entre prédios?

Subo e desço. Talvez ao meio-dia. Talvez amanhã. Talvez em Fevereiro. Definitivamente antes do Verão. Quem espera sempre alcança.

5 comentários leave one →
  1. Expatriado permalink
    14 Janeiro, 2020 11:34

    Santa “paciência”…

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  2. 14 Janeiro, 2020 13:12

    Se fizer queixa ao eng. chefe do urbanismo, ele vai dizer que havia 2 topógrafos, mas com a troica tiveram que despedir um…
    Se refilar com o topógrafo, ele vai dizer que o chefe eng. do urbanismo é louco, pensa que um topógrafo pode fazer o trabalho de dois topógrafos…
    O atual topógrafo não necessita sequer de fazer o trabalho de um topógrafo, pois sabe que é imprescindível aos serviços, os quais não funcionam com zero topógrafos.
    A senhora peixeira é que tinha razão quando me disse que a culpa do peixe estar tão caro era… da troica.

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  3. 14 Janeiro, 2020 13:20

    Em última análise a culpa é o Sócras, que mandou vir a troica sem precisar dela, pois já sabia que não seria PM.

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  4. José Monteiro permalink
    14 Janeiro, 2020 22:05

    Transformação de antiga casa de porteira para fracção horizontal, sem recurso a advogado (de família, como os médicos).
    No último piso do prédio. Logo, totalmente coberta de telhas!
    Destino do projecto de arquitectura sobre o apartamento: envio pelo Arqº chefe da Divisão, para parecer, ao Instituto…, dado o prédio distar cerca de 500 metros da fachada em ruínas do palácio da Ajuda (zona ‘nobre’ pois).
    Vá lá dizer-se à sumidade da Divisão, que a estupidez não devia ter lugar ali, a empatar o processo por mais dois meses?
    Melhor ainda: documento dos Bombeiros, a dar conta da segurança do apartamento. Sem o ter ido ver! A ajudar assim o gosto da CML em coleccionar papéis.
    E os chefes e similares, a ocupar o tempo e mostrar trabalho.

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  5. Beirao permalink
    15 Janeiro, 2020 09:31

    Já passei por isso, por esse terrível calvário, primeiro pelo inferno de papelada que tive de antes arranjar para o licenciamento da ‘obra’ (um pequeno muro do quintal nas traseiras da casa para obstar más tentações dos maus vizinhos desse lado), depois, largos meses depois de longas esperas pelo técnico dos serviços para lavrar o relatório, quando, já farto de tanta incompetência e de tanto filho da puta que nada mais fazem que dar cabo do miolo do pacífico cidadão que sustenta toda esta cambada miserável de parasitas que têm a lata de gabar-se de estarem ao serviço do povo, quando já estava disposto a desistir do alteamento do muro, e depois de ter escrito a minha Homérica odisseia num jornal da terra, lá consegui, enfim, uf!, que a porra da autorização me chegasse às mãos.
    Neste sítio, quem paga impostos e cumpre a lei lixa-se.
    Mais despachado foi um gajo que eu conheço que, sem dizer água vai, alteou não um mas os quatro muros do seu quintal.

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