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Quem vê TV, sofre mais que no WC

20 Janeiro, 2021

“Quem vê TV, sofre mais que no WC.”

Este é o título de uma canção dos Taxi, uma banda rock do Porto que teve popularidade nos idos anos 80. “E se falo desta maneira, é por a televisão ser tão foleira”, acrescentava-se no tema.

Quarenta anos passados e a letra permanece mais actual do que nunca nestes tempos de covid. Os jornalistas passaram a ser entertainers e activistas de causas. Na ânsia de cumprir um serviço público por eles fantasiado, só por distracção se ocupam em produzir informação tão factual, objectiva e independente quanto possível. Os media tomaram para si a missão de condicionar a opinião pública a adoptar as políticas e comportamentos que, no seu modo peculiar, entendem ser para o bem comum.

As televisões bombardeiam os espectadores com imagens dramáticas, tragédias e histórias tremendas a propósito da covid. Imagens de filas de ambulâncias à entrada das urgências dos hospitais com sirenes ligadas na noite escura, declarações de médicos para lá do limite do seu equilíbrio psicológico, cameraman a fazerem planos aproximados dos rostos dos supostos prevaricadores a passear junto ao mar, jornalistas em voz off diligentemente a censurar a atitude “irresponsável” de quem se junta ao postigo para tomar café.

As TV’s seguem o guião de Marcelo e Costa e listam o que consideram exemplos da culpa dos Portugueses e da quebra – por parte do povo, naturalmente – do pacto de confiança que havia sido supostamente feito com os seus estupendos líderes políticos. Os canais televisivos colocam Marques Mendes e Paulo Portas nos espaços de maior audiência independentemente do gigantesco número de asneiras, falsidades e narrativas capciosas que debitam estes senadores. As conferências de imprensa dos comissários políticos da DGS ou as entrevistas aos especialistas do regime são transmitidas sem qualquer contraditório.

Enquanto se promove o medo colectivo, nenhum jornalista confronta estas vedetas mediáticas por exemplo com o facto de gente qualificada ter avisado antes do Verão que medidas restritivas durante o período do ano de maior exposição solar iria ter consequências gravosas para a saúde dos portugueses no inverno quando o vírus se tornasse mais perigoso. Essa opção política iria ser paga bem cara, conforme verificamos hoje.

Agora que o governo vem louvar a dedicação dos profissionais de saúde no combate à pandemia, os jornalistas não questionam se a ministra da saúde estará arrependida de ter feito aprovar a redução do horário de trabalho das 40 para as 35 horas no SNS?

Tendo falhado em Portugal e noutros países o confinamento como forma de contenção da transmissão do vírus, ao governo não é perguntado por que há-de agora funcionar por milagre. Por que razão existem aparentes discrepâncias de qualidade de gestão e previsão entre hospitais de dimensão semelhante para resposta à covid?

Portugal tem o maior número de novos casos diários de covid19 do mundo, mas as estações de televisão não se surpreendem por sermos ao mesmo tempo dos países do mundo com mais médicos por milhão de habitantes. As TV’s não querem saber de o país ter das maiores quedas da economia em resultado dos confinamentos e, além de doentes, nos tornarmos cada vez mais pobres.

Desde o Natal que tem estado um frio de rachar, mas com a epidemia até a causa das alterações climáticas gelou ao ponto de não se procurar investigar se as condições meteorológicas terão influência na mortalidade e internamentos.

Qual a razão de se continuar a mobilizar gigantescos recursos para testagem massiva geral através de PCR e seguimento de assintomáticos em vez de nos concentrarmos apenas nos doentes com carga viral infecciosa relevante através de teste antigénio?

Não vi nenhum jornalista capaz de contextualizar o caos das urgências hospitalares com o que sempre se passou em anos anteriores. Em 2017, num único dia de Janeiro morreram 500 pessoas de gripe. Hoje zero. E os jornalistas não têm curiosidade em investigar o tema. Não se indaga se as filas de ambulâncias no exterior dos hospitais estão relacionadas com o protocolo de não deixar entrar doentes para o interior do edifício, ao contrário do passado em que os corredores dos estabelecimentos estavam apinhados de gente.

Perdeu-se o bom princípio do cepticismo e de fazer perguntas. Prefere-se não duvidar das respostas de quem manda a fazer perguntas que não sejam respondidas. Não se questionam as conclusões nem pressupostos das narrativas da oligarquia, nem se escrutina as consequências das opções políticas.

O negacionismo do papel do jornalista sendo evidente não será em muitos casos uma atitude de má-fé. O apocalipse gera audiências e audiências mantêm empregos. Não se pode esperar que um jornalista seja uma pessoa especialmente informada e muito menos um ser sobrenatural. O jornalista é como cada um de nós, emocional, susceptível ao medo e ao histerismo. É natural a defesa do seu próprio posto de trabalho.

Toda a liturgia mediática das TVs e dos políticos vai no sentido de alimentar o medo e o sentimento de culpa em cada um de nós. Mas o medo é diferente de perigo e frequentemente a nossa atenção foca-se no medo e não propriamente nos fenómenos que são de maior risco para a nossa saúde.

O medo atrai a nossa atenção e por isso as televisões atraem-nos através do medo e do dramatismo. Tudo aquilo que é tremendo e negativo hipnotiza-nos e por isso a forma como os media apresentam a covid19 deixa-nos estarrecidos e menos racionais. Muitos de nós procuram mesmo, ainda que inconscientemente, histórias de desespero e a mente humana tem dificuldade em sair dessa vertigem.

Para quebrar esse círculo vicioso do medo e irracionalidade seria preciso, ainda assim, termos tempo disponível para diversificar fontes de informação e fazer pesquisa de dados. Não temos nem tempo nem sequer estamos dispostos a sofrer estigma social e sair da norma do pensamento dominante. Por isso, perante um cenário de incerteza, é muito comum sentirmos conforto em seguir o rebanho, mais do que pensar pela própria cabeça.

Perante o medo e a incerteza ficamos mais susceptíveis ao poder. As sucessivas contradições das medidas do governo e da actuação dos políticos e dirigentes públicos a par da amplificação que delas as televisões e os media em geral fazem é de tal ordem que a confusão e o caos mental são generalizados. Assim, um refúgio ilusoriamente pacífico é pensar que “alguma razão haverá. Alguém saberá melhor do que nós” e deixarmo-nos voluntariamente submeter às ordens de quem manda, independentemente do ridículo e contraproducente que possam parecer essas medidas.

A António Costa o improviso e trapalhada na definição e comunicação das medidas dá jeito. Para quê fazer diferente se tem os Portugueses mansos e com sensação de terem pecado?

Quando o primeiro-ministro fala em ser necessário um sobressalto cívico sabe de antemão que tal não vai acontecer. Para isso seria preciso que os Portugueses quisessem ter acesso a informação de qualidade (que a comunicação social não fornece) e que os cidadãos entendessem que os cuidados e riscos de saúde que correm dependem em primeira instância de escolhas suas. Mas não, vemo-nos como vítimas e entregamos a terceiros (neste caso ao governo) a responsabilidade de nos proteger e exigimos aos outros que nos protejam também.

O povo está anestesiado. O rei D. Carlos diria que somos um país de bananas governados por sacanas. Eu não atribuo tal epíteto ao povo, mas tenho pena que muitos jornalistas sejam coniventes com os nossos governantes.

Uma versão video resumida deste post está disponível aqui:

11 comentários leave one →
  1. fitzlemonade permalink
    20 Janeiro, 2021 21:27

    Parabens pelo artigo. Muito bom. Tocou na mouche

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  2. lucklucky permalink
    20 Janeiro, 2021 21:55

    O Jornalismo é profissão mais desonesta no mundo.
    Quase ninguém vai para jornalismo para dar notícias.
    Vai para pregar a sua moral. Vai para ser padre.

    Liked by 3 people

  3. chipamanine permalink
    21 Janeiro, 2021 06:51

    Jornalismo covidiano à data
    1- 1.000 mortos por milhão nos EUA- culpa do Trump
    2- 980 mortos por milhão no Brasil- culpa do Bolsonaro
    3- 930 mortos por milhão em Portugal- culpa do povo
    4- 1.000 mortos em França – nada a dizer
    5- Bem mais que 1.000 mortos em Espanha- nada a dizer
    e por aí fora
    Quanto à maior taxa de infecção e de mortalidade do mundo nas últimas duas semanas em Portugal – nada a dizer.

    Liked by 2 people

  4. José Lopes da Silva permalink
    21 Janeiro, 2021 09:45

    “Em 2017, num único dia de Janeiro morreram 500 pessoas de gripe. Hoje zero. E os jornalistas não têm curiosidade em investigar o tema.”

    Eia. Ainda estamos nesta fase.

    Sabe o que é que se costuma dizer? Do your research.

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  5. Maria permalink
    21 Janeiro, 2021 09:51

    O Paulo Portas é um dos poucos comentadores que analisa os temas com profundidade.
    Todos os dados e gráficos que apresenta têm sempre fonte/biografia, algo não muito comum para gente fora da área científica.
    Parece-me injusto coloca-lo no mesmo patamar de muitos outros.

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  6. jose permalink
    21 Janeiro, 2021 10:00

    Concordo consigo, especialmente na parte em que diz, de forma suave, que somos um povo manso. Em tempos idos queríamos saber o que haveria atrás do mar, agora preferimos que nos venham dizer.
    É triste termos andado tantos anos a aumentar a escolaridade das pessoas mas a dúvida, a dúvida científica, não existe. Não acreditamos na ciência e preferimos alimentar os nossos medos.

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  7. Andre Miguel permalink
    21 Janeiro, 2021 10:10

    A Suecia nao confinou e tem praticamente os mesmo mortos covid que Portugal.
    Continuem a insistir no disparate e na estupidez, que eu entretanto ja estou a fazer as malas para a Suecia.

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  8. Maria Sousa permalink
    21 Janeiro, 2021 11:32

    As TV ou as TVs, não existe apóstrofo no plural, nem em Inglês nem em Português.
    Quanto à epidemia, está perfeitamente claro que António Costa, o Governo e Marcelo “andam às aranhas”, não sabem o que fazem e exercem um poder desmedido. No entanto, gostaria de saber qual a solução que o Telmo defende para a travar todos estes surtos, com as consequências terríveis que estão à vista.

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