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Epstein: Como Trump abriu a caixa de Pandora

22 Fevereiro, 2026

Durante décadas, a rede de Jeffrey Epstein esteve cercada de silêncio, impunidade e cumplicidades discretas. Políticos, bilionários, académicos e celebridades orbitavam um sistema criminoso sofisticado que prosperava não pela invisibilidade, mas pelo acordo tácito de que o Estado não interviria de forma completa. E ele não interveio.

Obama, Clinton e Biden tiveram diante de si uma escolha simples, mas de consequências colossais: poderiam enfrentar a rede e expor os cúmplices poderosos – ou preservar a estabilidade institucional e evitar que o sistema entrasse em colapso. Escolheram a estabilidade. Protegeram-se a si próprios. Preservaram o silêncio, garantindo que a impunidade continuasse a ser a regra. Não perpetuaram diretamente os crimes, mas perpetuaram as condições que permitiam que eles continuassem a existir sem consequências. As vítimas? Ficam em segundo plano, ignoradas, com o Estado a priorizar a sua própria sobrevivência.

É aqui que a presidência de Donald Trump se destaca. Por razões que podemos questionar politicamente, mas que não se podem ignorar factual e estrategicamente, Trump não priorizou a autoproteção institucional. Mas podia tê-lo feito tal como seus antecessores. O sistema, habituado a proteger-se em bloco, encontrou um choque inesperado: um presidente disposto a romper os protocolos, a aceitar o risco político de expor elites poderosas, e, com isso, criar espaço para que a rede Epstein deixasse de ser contida.

Não estamos a falar de “bondade” ou de heroísmo moral simplista. Trump não libertou diretamente vítimas nem fez justiça sozinho. Mas o efeito da sua postura foi concreto: permitiu que milhões de páginas de documentos viessem à tona, que nomes e padrões fossem expostos, e que a verdade começasse a ser conhecida internacionalmente. As vítimas beneficiaram da exposição – da validação pública e do reconhecimento de décadas de abuso – algo que o sistema nunca lhes ofereceu voluntariamente.

O ponto central é simples e brutal: o Estado não é uma “pessoa de bem”. Não protege as vítimas de crimes hediondos por defeito; protege-se a si próprio. Durante décadas, isso significou que o silêncio e a impunidade eram prioridade. E quando o sistema entra em crise – quando alguém rompe com a lógica de autoproteção – é então que a justiça, mesmo que parcial, se torna possível.

Hoje, com o caso Epstein nas notícias de todo o mundo, devemos reconhecer este ponto de inflexão. O mérito não é de um gesto altruísta, mas da ruptura de um padrão institucional que manteve criminosos poderosos intocados por anos. E esse ponto de inflexão veio na forma de uma presidência disposta a desafiar o consenso de autoproteção que manteve a rede viva por tanto tempo.

Se há algo a louvar neste cenário sombrio, é que a rutura institucional permitiu que a verdade começasse a ser exposta – mesmo que tarde e de forma caótica. As vítimas não esperaram por gestos de bondade do Estado; elas beneficiaram de um choque político que obrigou o sistema a mostrar as suas cartas. E essa exposição é, hoje, inegavelmente de louvar.

Esta crónica é a primeira de muitas que serão dedicadas a este tema, dada a imensidão de documentos vazados que, quanto mais informação revelam, mais denso e macabro torna este processo.

Próxima publicação: “Por que não usaram estes ficheiros contra Trump?”

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