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Trump vs Papa Leão

15 Abril, 2026

O Papa Leão XIV não é favorável à proliferação nuclear mas opõe-se aos meios que Donald Trump considera necessários para impedir o regime terrorista do Irão de obter esse tipo de armas.

Porém, o confronto verbal recente entre os dois, além de mais um episódio de fricção mediática é revela incapacidade de distinguir entre poder e decoro, entre liderança e mera afirmação de ego.

Por isso mesmo, é interessante notar a reacção da própria direita ocidental ao sucedido. Muitas figuras respeitadas no espaço da Direita não hesitaram em dizer que tinha sido ultrapassado um limite. Alguns disseram mesmo tratar-se de blasfémia, uns de desrespeito e outros afirmaram que os gestos de Trump não elevam a autoridade de quem os pratica.

A linguagem usada pelo Presidente dos Estados Unidos e a encenação quase caricatural de si próprio em registo pseudo-religioso, além do habitual mau gosto, revelou vulgaridade e uma tendência para reduzir tudo, até o sagrado, a instrumento de afirmação pessoal. E não é preciso ser religioso para perceber que a boçalidade não é um atributo, digamos, de grande utilidade.

Dito isto, seria um erro simétrico transformar o Papa num actor político comum. Leão XIV não é comentador de política externa, nem um estratega militar. É o chefe de uma instituição com dois mil anos cuja autoridade reside precisamente no facto de não depender de ciclos eleitorais. Instituições que atravessam séculos não devem deixar-se arrastar por querelas de baixo nível nem cair na tentação de responder a líderes políticos passageiros. Um Papa americano, em particular, não pode correr o risco de ver a sua autoridade universal diminuída se for percecionado como parte das guerras políticas dos Estados Unidos. Quando fala de guerra e de paz, deve fazê-lo apenas como guardião de um horizonte moral.

A doutrina da Igreja vincula os católicos, mas as opções políticas não. O Papa pode e deve enunciar princípios universais, mas a tradução desses princípios em decisões concretas pertence à esfera política, onde existe legitimamente desacordo. Donald Trump, e qualquer um de nós, pode criticar o Papa a este respeito. Mas uma coisa é agitar as águas do pântano político europeu, reagir energicamente contra a hipocrisia da União Europeia, denunciar as patetices de Keir Starmer, ou o teatro de Emanuel Macron. Outra coisa diferente e completamente desnecessária foi o tom do presidente americano em tratar o Papa como mais um adversário político.

Corre-se o risco de que isso degenere em algo indistinguível do conformismo e inacção que se pretende combater, se não mesmo de perder o apoio de lideranças europeias dignas como é o caso da de Georgia Meloni.

Seria, portanto, sensato encarar com naturalidade as palavras do Papa e, por uma vez, o Presidente dos Estados Unidos aprender a calar-se, ainda que continuando a fazer o que tem de ser feito.

A minha crónica-vídeo de hoje, aqui:

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