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Os maus da fita não costumam ser estes…

26 Fevereiro, 2008

Ao ler a coluna de hoje do João Miguel Tavares no DN descobri que tinha perdido este texto de Abílio Fernandes. Leiam, senhores leiam e imaginem como seria fácil proibir este filme sob o argumento de que só se preocupa em “fazer bilheteira”…

«Será que o enredo do filme Call Girl, de António-Pedro Vasconcelos, terá alguma coisa a ver com o que se passa na sociedade portuguesa? Parece que tem! Mas o que ninguém pode acreditar é que tenha alguma coisa a ver com os comunistas, como parece fazer crer. Visto o filme, uma questão se impõe: porquê a escolha para protagonista corrupto de um personagem que faz de presidente de câmara comunista?

Será que um filme português para “fazer bilheteira” precisa de surpreender o espectador com uma situação absurda, insólita, ao arrepio da realidade? A verdade é que o filme aborda uma questão real e actual da vida portuguesa: a corrupção, tendo por móbil as transformações do solo agrícola e das reservas ecológicas em solo urbanizado por empreendimentos económicos virados para o turismo e a especulação imobiliária.
E é absurdo que se procure fazer, como se faz neste filme, a identificação do autor da corrupção com um presidente de câmara comunista, quando a realidade mostra que tem sido precisamente o Partido Comunista Português aquele que menos motivos tem dado para ser apontado como exemplo de práticas de corrupção no poder local. Quem não conhece os casos de corrupção, já julgados ou em julgamento, em autarquias e que são, na sua maioria esmagadora, protagonizados por autarcas de outros partidos que não do PCP?
Porquê, então, colar o rótulo de corrupto a um presidente que, à evidência, é apresentado como comunista, pois é autarca numa câmara municipal de uma terra alentejana onde se desenvolvem iniciativas de idosos que erguem o punho, quando avistam bandeiras rubras num ecrã da televisão e cujo pai leva a bandeira comunista no caixão do seu funeral? É, de facto, uma caracterização que não deixa dúvidas a ninguém. E, como é óbvio, visa denegrir a imagem dos eleitos comunistas nas câmaras municipais.
Não podemos aceitar esta forma de fazer política, aproveitando para isso um argumento cinematográfico. É de uma grande baixeza moral e ética enquadrar desta forma oportunista uma realidade, a corrupção, que serve de inspiração ao enredo do filme.
A cinematografia é na verdade um instrumento de grande projecção na propagação das ideias. Fá-lo de uma forma anestesiante e tem sido muito utilizada, em especial pelos americanos, na propaganda do seu modo de vida, na formação de mentalidades consumistas e no combate político, não sendo rara a escolha dos comunistas como “os maus da fita”.
Não é justa nem correcta a atitude deste argumentista e deste realizador, mesmo no campo da imaginação e da criatividade, ao procurarem manipular os cidadãos, através de imagens políticas distorcedoras da realidade, quando, na verdade, estamos a viver em Portugal um momento de grande inquietação com os casos de corrupção que já conduziram a condenações de políticos e estão em curso investigações e julgamentos de outros. E será bom que se repare que, de facto, os políticos não são todos iguais.
Como militante comunista e como autarca que fui, não podia deixar de manifestar publicamente a minha profunda indignação com as “opções ideológicas” manipuladoras que estão na base do enredo deste filme.»

20.02.2008, Abílio Fernandes

Deputado do Partido Comunista Português

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15 comentários leave one →
  1. All-facinha permalink
    26 Fevereiro, 2008 09:47

    Mais uma posta de pescada da Helena Matos.

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  2. nelson gonçalves permalink
    26 Fevereiro, 2008 10:10

    O sr. Fernandes, o interesse do filme é a Soria Chaves. Só mesmo um comunista para atribuir conotações políticas ao “Call Girl”. Não tarda nada descobre que o Pato Donald é uma lança do império americano espetada no coração dos povos do terceiro mundo.

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  3. ze tosga permalink
    26 Fevereiro, 2008 10:19

    Que se lhe há-de fazer? É a intelectualidade burra que temos aí a fazer filmes, sem maldade, no caso, se o realizador apenas seguiu a incondicional atracção do vermelho da águia, como o seu patrão, quando bufa acima de todos que é que tem razão.

    No caso da encenação pelos alentejos lá terá sido porque o Nicko Breyner, expoente do nosso actor de porcaria e pau pa todo o cabo de vassoura, não conhece além de Serpa mais Portugal.

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  4. AMI permalink
    26 Fevereiro, 2008 10:27

    Helena,

    Eu situo-me nos antípodas ideológicos do comunismo mas se aquilo que Abílio Fernandes escreve é verdade (ainda não vi o filme) julgo que ter-se colado o personagem do autarca corrupto a um partido real (seja ela qual for) é sempre passível de uma leitura política.

    Por muito que eu despreze o comunismo não posso deixar de sentir que foi escolhido o alvo mais fácil – dos partidos com assento parlamentar é simplesmente o mais fácil de atacar ideológicamente e aquele que tem menor capacidade retaliatória (quer política, quer para-política).

    Será que era indispensável para o argumento do filme identificar o partido do personagem corrupto?

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  5. sinfronic permalink
    26 Fevereiro, 2008 10:28

    Na verdade, qualquer autarca de nariz de vinho e luvas de negócios de terrenos e outras construções será sempre, entre nós, por força, um incondicional PS ou PSD. Isso está à mostra. Mas quem sabe talvez o realizador tenha querido imbuir a obra de algum toque de humor.

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  6. helenafmatos permalink
    26 Fevereiro, 2008 10:36

    «Abílio Fernandes escreve é verdade (ainda não vi o filme) julgo que ter-se colado o personagem do autarca corrupto a um partido real (seja ela qual for) é sempre passível de uma leitura política»
    E quando se fez o “Até amanhã camaradas” não se colou uma imagem a um determinado partido político, o PCP? Mas como a imagem era positiva já tinha problema? O que é o cinema como e com mensagem que o PCP tanto defende senão uma colagem de imagens positivas e negativas?

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  7. 26 Fevereiro, 2008 11:30

    LOL

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  8. 26 Fevereiro, 2008 11:31

    Caro Abilio, os comunistas são “os maus da fita”.

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  9. 26 Fevereiro, 2008 11:44

    Gostei muito do filme, só é pena ter diálogos.

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  10. Joao D permalink
    26 Fevereiro, 2008 11:46

    Ai os comunistas não são corruptos? hahaahha e entao o Judas? não vinha da escola PCP (ou BCP??)? e entao a Camara de Setubal? e a de Sesimbra? e a de Almada? e a de Loures?

    Só não houve mais corrupção nas camaras PCP porque estão localizadas em sitios sem pressões urbanisticas!

    A camara do PSD de Figueira de Castelo Rodrigo tb não tem corrupção…por que não há actividade económica na zona para a corromper!

    Simples!
    À esquerda ou à direita, as pessoas são pessoas. (ponto)

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  11. 26 Fevereiro, 2008 11:47

    Cara Helena Matos,
    É óbvio, porque é uma pessoa inteligente e culta, que percebeu perfeitamente(está lá explicito), o que Abílio Fernandes escreveu.
    O realizador tinha várias hipóteses:
    Não identificava o autarca com nenhum partido político.
    Identificava-o com partidos políticos com casos de corrupção na vida autárquica.
    Identificava-o com partidos sem casos de corrupção na vida autárquica.
    Escolheu a terceira e tem esse direito.
    Tal como Abílio Fernandes tem o mesmo direito de criticar essa opção e de considerar que ela teve fins políticos diversos. Onde é que leu no referido artigo a defesa da proibição do filme? Estamos no domínio de atribuir aos outros aquilo que eles não pensam nem escrevem, para assim os criticarmos? Ou para a Helena Matos a liberdade de expressão é só para os outros? Recuso-me a acreditar que assim seja…
    Duas notas há margem, ou talvez não, do tema.
    Para partido «irreversivelmente em declínio» e «condenado ao desaparecimento» pelo menos desde a queda do Muro de Berlim (19 anos) o PCP perturba muitos espíritos e faz gastar muita tinta e muitos teclados…
    Ao contrário do que escreve João Miguel Tavares no DN, Abílio Fernandes não é «actual deputado do PCP» há mais de um ano! Foi substituido a meio do mandato , tal como acordado e ao contrário do que se passou com Luisa Mesquita, por um deputado mais jovem, no caso João Oliveira na altura com 27 anos http://www.parlamento.pt/deputados/Deputado.aspx?ID=2234

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  12. 26 Fevereiro, 2008 12:54

    Mas estamos a falar apenas de mera ficção (cinematográfica) ? Ou não?

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  13. 26 Fevereiro, 2008 14:17

    Pelo que sei do filme, o protagonista é um autarca que não se deixa corromper e por isso uns empresários armam-lhe uma armadilha para ver se ele cede. Se o argumento é mesmo esse, faz todo o sentido que seja um autarca de um partido pouco associado a corrupção (se fosse um autarca do PS ou do PSD, não tinhamos filme – ao fim de 5 minutos e negócio já estava feito e só dava para mostrar alguns construtores civis algures entre a meia e a terceira idade, em vez da soraia Chaves)

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  14. honni soit qui mal y pense permalink
    26 Fevereiro, 2008 15:06

    a unica coisa que poderiamos concordar com o abilio era se decidissem “nacionalizar a soraia ” ela é para todos nós … (upa upa …)
    agora daqui a uns anitos tentem entrar no litoral alentejano ou no alqueva dos pins do pinho !!!!!!!! pobretes mas alegretes

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