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Ele bate nela quando quer

25 Novembro, 2013

O “Observatório de Mulheres Assassinadas”, organismo integrante da UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta, divulga o número de mulheres assassinadas em 2013 como sendo de 33 (36 em 2012; 39 em 2005). Estes números terão a devida divulgação pelos média, pelo que estou mais interessado numa carta aberta ao ministério da educação emitida pela UMAR (entidade de utilidade pública, publicado em D.R., II Série, 30 de Julho de 2010) a propósito de um “exemplo inaceitável e sexista de mensagem estereotipada”. Aqui fica a sua transcrição:

CARTA ABERTA AO MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO
A propósito do texto da Prova de Aferição do Ensino Básico 2010

A UMAR, União de Mulheres, Alternativa e Resposta, vem denunciar a mensagem estereotipada presente no texto da Prova de Aferição do Ensino Básico 2010. Este texto atenta a a legalidade portuguesa em matéria de igualdade, assim como se constitui um retrocesso no que se refere ao desenvolvimento e concretização dos Planos para a Igualdade.
Nessa medida, vimos junto de V.Exa. denunciar este acto irresponsável de sexismo que mostra como em Portugal não existe, por parte do Estado, uma consciência real no que se refere às suas próprias políticas.
Em primeiro lugar, a utilização por sete vezes, do vocábulo Homem tem sido desde há muito denunciado como prática de uma linguagem sexista que vem sendo substituída pela necessidade de uma linguagem mais inclusiva, matéria, aliás, do Referido no III Plano da Igualdade 2007/2010 e da Lei nº 47/2006.
Mas não é só esta mensagem que está presente neste texto. É um texto que, de alguma maneira, se assemelha à letra da canção « O mar enrola na areia », que a certa altura da canção, se explicita « bate nela quando quer ».
Ora vejamos o texto que aqui nos traz.
Em primeiro lugar, há em todo o texto uma atmosfera de namoro entre o personagem Homem e a personagem Lua : « houvera entre ambos uma espécie de longo namoro à distância», « o Homem, porém, nunca deixou de lhe dedicar belos poemas ».
Em segundo lugar, é um namoro que parece correspondido : « a Lua procurou sempre enviar-lhe as suas centelhas de luz como se quisesse dizer-lhe « sabes onde estou… » », aliás, « o Homem nunca teve dúvidas a esse respeito ».
Situadas/os que estamos num contexto de namoro, vejamos agora como este texto passa uma mensagem estereotipada e de tolerância à violência de género :
« Quando o Homem pisou o seu solo áspero e poeirento », « Quando o homem pôs a primeira vez os pés no solo lunar »
Dirão que esta é uma linguagem figurada e que, portanto, fazer aqui a ligação a personagens humanas é um exagero. Assim seria, se não fosse o resto do conteúdo do texto. Todo o texto faz a personificação da LUA como uma Mulher, e aqui vemos como as mensagens subliminares de tolerância da violência no namoro se conjugam com a perpetuação dos estereótipos :
« …a Lua sentiu-se (…) triste, por não ter sido avisada com tempo suficiente, para se embelezar e poder recebê-lo », « ela queria estar bela e sedutora no momento daquele encontro », « A Lua, como qualquer mulher que cuida da sua imagem… », « …tinha para lhe mostrar (…) a solidão das suas crateras… ».
Mas não fica por aqui, a mensagem vai mais longe : o enamoramento à distância é muito melhor do que a relação real entre corpos e tempos : « A Lua (…) sempre soubera que a distância favorece o jogo do enamoramento, pois mantém pouco visíveis as rugas, as madeixas desalinhadas e outras pequenas e grandes imperfeições… »
Finalmente, e depois de tudo isto, ainda se coloca como exercício de escrita um « Bilhete », que vem já assinado como « O Homem », condicionando qualquer pensamento crítico, divergente, não estereotipado, não deixando espaço de liberdade a raparigas e a rapazes que não se identifiquem com esta estereotipia balofa e atentadora dos direitos humanos.
Enquanto organização feminista e de mulheres não poderíamos deixar passar em branco esta pérola de sexismo, de agismo e, sobretudo e de forma inaceitável, de tolerância à violência de género.
Bem sabemos que o texto é de um escritor reconhecido ao qual não queremos tirar o mérito. No entanto, qualquer equipa com um pouco mais de consciencialização poderia escolher do mesmo autor centenas de excertos sem esta estereotipia e tolerância à violência de género. Até porque colocar a Lua como vítima nem sequer é artístico.
Maria José Magalhães
Presidente da UMAR

22 comentários leave one →
  1. morningfms's avatar
    25 Novembro, 2013 09:56

    A loucura grassa.

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  2. piscoiso's avatar
    piscoiso permalink
    25 Novembro, 2013 10:03

    O que m’espanta é ter sido Maio o mês em que mataram mais mulheres.
    Só não há referência ao dia do mês, mas não me admiraria se fosse a 13 de Maio!

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  3. Alexandre's avatar
    Alexandre permalink
    25 Novembro, 2013 10:05

    Que disparate pegado!
    É assim que alguém defende as mulheres das agressões de vários matizes de que são vítimas?
    Haja bom senso!

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  4. zazie's avatar
    25 Novembro, 2013 11:28

    Taradas

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  5. Joaquim Amado Lopes's avatar
    Joaquim Amado Lopes permalink
    25 Novembro, 2013 11:29

    Esta carta da UMAR, pelo nível de imbecilidade que revela, contribui mais para que as mulheres sejam menosprezadas do que mil textos machistas.
    Será que o Fernando Moreira de Sá é consultor de imagem de um qualquer grupo que promova a superioridade do homem sobre a mulher?

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    • RCAS's avatar
      RCAS permalink
      25 Novembro, 2013 17:07

      Fernando Moreira de Sá é consultor de tramóias no acesso ao pote!

      “No meio em que se move, Fernando Moreira de Sá olha à sua volta e vê serem concebidas as mais sórdidas campanhas contra os adversários políticos. Não tendo sido provavelmente bafejado pela Mãe Natureza, este mentecapto que fazia parte da central de ionformação de acesso ao pote, extraiu a conclusão de que participar em tramóias é a coisa mais natural do mundo e, portanto, não resiste a aparecer a vangloriar-se das façanhas em que toma parte!”

      PS- Algures na Blogosfera!

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  6. Rafael Ortega's avatar
    Rafael Ortega permalink
    25 Novembro, 2013 11:59

    Não sei o que é que elas fumam antes de escrever esses textos, mas deviam parar.
    Isso deve fazer mal à saúde.

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  7. Tiro ao Alvo's avatar
    Tiro ao Alvo permalink
    25 Novembro, 2013 12:10

    O texto da UMAR não pode ser considerado uma forma de violência sobre a inteligência? Gostava de conhecer a posição do Letria.

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  8. Luís Marques's avatar
    Luís Marques permalink
    25 Novembro, 2013 12:13

    A UMAR é uma entidade de utilidade pública, isso é que é preocupante.

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  9. Juromenha's avatar
    Juromenha permalink
    25 Novembro, 2013 12:19

    Lê-se – e, mesmo assim, custa a acreditar.
    Este “lugar selecto e pérola de cultura” devia, por decreto-lei, ser lido em todos os telejornais e publicado na primeira pagem dos jornais ditos de “referência” para edificação de um populacho “sexista”, “agista” e “tolerante à violência de género”.

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  10. ocni's avatar
    ocni permalink
    25 Novembro, 2013 14:33

    Já eu acho que a coisa deve ser uma tentativa de fazer humor, temos de ler a carta pela óptica da comédia.

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  11. Pinto's avatar
    Pinto permalink
    25 Novembro, 2013 14:38

    E o pobre do nosso primeiro-ministro olha, olha, e não encontra organismos susceptíveis de serem extintos. São todos fundamentais para a prossecução do interesse público, para o incremento do Estado social, para abrir caminho para uma sociedade socialista, no fundo, para o bem-estar de todos nós.
    O que seria de nós sem uma UMAR?

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    • zeca marreca de braga's avatar
      zeca marreca de braga permalink
      25 Novembro, 2013 17:24

      E o pobre do nosso primeiro-ministro olha, olha, e não encontra organismos susceptíveis de serem extintos?

      Vocemerce defende a extinsão administrativa da UMAR?
      Pode fazer paralha com o Cunha no liberalismo chici mici…
      (tá mal isto, ó cunha, nem 20 comments, tás a perder qualidades nas ciências de provocação gratuita…)

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  12. Surprese's avatar
    Surprese permalink
    25 Novembro, 2013 17:17

    Grande Vitor, continue a publicar pérolas destas.

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    • zeca marreca de braga's avatar
      zeca marreca de braga permalink
      25 Novembro, 2013 17:25

      nem mais… pérolas destas…

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      • zeca marreca de braga's avatar
        zeca marreca de braga permalink
        25 Novembro, 2013 17:28

        como o seu comentário…
        (é pra ajudar o VC a chegar aos 20 cometários e, se fôr o caso, cumprir os objetivos de contracto e receber a avença do mês… não quero estragar o Natal a ningué)

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      • vitorcunha's avatar
        vitorcunha permalink*
        25 Novembro, 2013 17:52

        Não estrague o seu.

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      • und's avatar
        und permalink
        25 Novembro, 2013 17:32

        contrato….ninguém….e a todo o mundo não vai nada?

        e se for o caso….for queen and lame lamé

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  13. Fincapé's avatar
    Fincapé permalink
    25 Novembro, 2013 19:47

    Para aliviar algum machismo feminista talvez se possam alterar algumas frases, como esta, por exemplo: “Quando o Homem pisou o seu solo áspero e poeirento”, para “Quando a Mulher pisou o seu solo áspero e poeirento”. Por mim, têm carta verde (Deus me livre de dizer postal)!
    Se não for possível, talvez uma fogueira debaixo de livros desses.
    Já Camões não foi muito feliz ao preferir criar a figura do gigante Adamastor em vez da giganta Adamastora. 😉

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  14. Rui Baptista's avatar
    Rui Baptista permalink
    25 Novembro, 2013 21:37

    Tá bem. Já que estamos numa de declarar interesses, eu cá estou-me cagando para a carta.

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  15. Von's avatar
    Von permalink
    26 Novembro, 2013 00:57

    É tão bom arrotar umas postas de pescada, quando se está no lar, quentinho e em segurança, em vez de levar umas chapadas no focinho.

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    • vitorcunha's avatar
      vitorcunha permalink*
      26 Novembro, 2013 07:09

      Vejo que sim. Deixe a morada que isso resolve-se.

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