As they pulled you out of the oxygen tent, you asked for the latest party
Portugal não se divide entre esquerda e direita e sim entre os que querem ser caracterizados como de esquerda e os que querem ser caracterizados como de não-esquerda. Isto ilustra que a separação política não ocorre horizontalmente mas também permite erradicar a compreensão do país num plano vertical entre conservadores e liberais. Num país conservador como Portugal, a dicotomia não pode ser multidimensional para a distribuição da mensagem, exigindo a constância de uma das variáveis de forma a criar a sensação de que as divisões são entre Esquerda e Direita ou, num plano ainda mais adequado aos média, entre o Bem e o Mal. Quem não é um bocadinho “de esquerda” é uma besta quadrada, ponto final. Daí que Marcelo Rebelo de Sousa, que não é burro, se assuma como “da esquerda da direita”.
O Bem compreende todas as artes, sofre quando um artista morre, percepciona a bondade inerente à sensibilidade do autor que distribui empatia por uma massa amorfa a que se denomina “povo” e, compreendendo o poder das tradições, necessita de as obliterar para as recriar à sua imagem. O Mal não compreende as artes, é composto de brutamontes insensíveis ao sofrimento alheio e dispensa atitudes de lavagem de consciência através do confisco a abastados para redistribuição arbitrária aos que se atribuem a qualidade de descamisados. O Bem apropria-se de tudo o que é criado ao longo de séculos, destrói laços históricos e transmuta simbologia em ideologia imediatista. O Mal, ao repudiar as revoluções, é demasiado lento para o Bem, deixando à multitude de diferenças entre pessoas o direito a criarem a história através de simples e transparentes regras de mercado: o que vinga, vinga; o que não vinga, lá vai.
David Bowie era um artista anormalmente popular para a obra que legou. Logo, o Bem já se apropriou da perda. O Mal pode enaltecer o legado, compreendendo-o pela calada para não ter que aturar a reeducação da percepção que o Bem determina inexoravelmente errada e, bem lá no fundo, agradece que o trabalho de apropriação da arte pelo Bem seja dificultado, não só mas também pela impenetrabilidade de obras que estorvam a canhestra psicanálise que o Bem exerce sobre tudo e mais alguma coisa que adiante a causa final, a do Bem ser mesmo gente que é bué de boa.

Dá um certo gozo ver comunas a publicarem nos seus perfis de facebook a música “Heroes” que foi uma crítica ao muro de Berlim.
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David Bowie um dos mais notáveis e incomparáveis de sempre ! Completíssimo !
DBowie não era, não é, como conclui –e entende-se– VC, um artista “anormalmente popular para a obra que legou” e dispensou essa coisa da “esquerda” e da “direita”. Mas sabia, evidenciou onde estava o Bem e o Mal.
(Extraordinária a exposição/exibição há pouco tempo em Londres, sobre a sua obra).
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The latest party está a ser encenado pelo Dr. Fausto.
Magister Georgius Sabelius Faustus viveu na Alemanha entre o final do século XV e começo do século XVI.
Há quem o tenha visto pela calada duma noite antes do Natal.
Ressuscitou para assumir publicamente a sua condição de feiticeiro.
Desde a sua tomada de posse tem-se afirmado de formas várias:
“Astrólogo – o Segundo dos Mágicos – Quiromante – Aeromante – Piromante”.
Pratica a magia como ofício e ganha o seu sustento fazendo horóscopos e outras vidências, vendendo filtros de amor e produzindo fenómenos “sobrenaturais”.
Praticar o BEM na sua perspectiva, como estudioso das Ciências Ocultas, vai vencendo aparentemente todas as causas, até à derrota final.
Nunca chegará a ler Johann Wolgang Goethe, a edição completa do seu Fausto, drama em verso que levou trinta anos para ser elaborado.
O herói de Goethe fez o pacto com o diabo num momento irrefletido.
A sua ambição era compreender o sentido da vida humana.
No fim, consegue livrar-se do acordo maldito e é redimido.
O nosso faustino fez um pacto sólido, reflectiu longamente ao longo dos anos, sobre toda a forma que um golpe pode tomar. Até a trigonometria dos merdia ajudou.
A sua ambição nada tem a ver com a vida humana. A vida humana é uma chatice. Foi antes o poder, se possível absoluto, enroupado pelas palavras estafadas do costume, e a seguir encher os bolsos à sua camarilha. Um biltre sózinho não é nada. O colectivismo sempre serve para alguma coisa, co´s demónios!
No fim, não vai contar com a nobreza da sua motivação. Tal coisa nunca existiu.
Que fique bem claro: não se livrará do acordo maldito e nunca será redimido, a começar pelos elementos mais avisados da trupe.
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Merry Christmas Mr. Lawrence
Muito obrigado a ti a e a Ryuichi Sakamoto por uma sublime momento de cinema.
E a vitorcunha por te lembrar.
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“Anormalmente popular para a obra que legou”?????
Que tremendo disparate. Já para não falar em ser a absoluta contradição do “o que vingou, vingou”.
Bowie é o artista que vingou “against all odds”.
Os primeiros parágrafos subscrevo.
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Mantenho a afirmação. Mais popular que a obra que legou.
Não tem que ser necessariamente mau.
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É mesmo muito bom ! Fora de série ! Completíssimo !
Normalmente popular e global precisamente pela obra que legou.
Seria atrevimento-provocação sua se catalogasse DBowie pouco acima do normal ou acima da média…
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Eheheh, mantém ou troca “anormalmente” por “mais”?
Nesse caso concordo, a obra devia ser (ainda) mais popular.
Sobre o tema de fundo, também proponho alternativa: no mundo actual de batotas monetárias e bullyings vários entre fortes e fracos, grandes e pequenos, a verdadeira luta eh entre soberanistas e globalizoides. E não tendo eu nada contra os vários soberanistas que temos em Portugal (e aqui curiosamente entram nacionalistas, conservadores, liberais-localistas que não citem ou sequer conheçam friedman, mies ou hayek, comunistas e loucanistas – quem fica de fora são os que estão comprados, o extremo-centrismo) lamento que grande parte deles se percam em ideologias que defendem que 2+2 são 22 se o poeta quiser. Eh como ir para a guerra com livros e canetas.
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Mantenho, mas, anormalmente, substituo essa manutenção para evitar compreensão anormal.
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Quando, por vezes, não entendo os textos do Vítor, digo para mim mesmo:
– Não entendes… não comentas.
Só que eu tenho a mania que sei ler e escrever…
– Sabes ler e escrever, mas não és artista e a literatura é uma arte.
Calo-me.
Não comento.
Mas desabafo!
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Para tentar baralhar o pessoal e evidenciar os seus textos, VCunha por vezes usa o método dadaísta para escrever, logo, o mesmo método ao pensar. Nada de mal advém daí, nem para o Bem nem para o Mal. São ocasionalmente “bué de bons” — como termina este seu post.
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Aposto que entende o Lobo Antunes.
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Boa !
Entendo, não desgosto, mas não é dos escritores que me fascinam ou levam a lamentar a não-leitura de alguns dos seus livros.
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Cá pelo burgo e debaixo de um guarda chuva chamado cultura os músicos e os de outras artes vão sacando o dinheiro para o seu sustento…
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Não confunda Cultura com quem vive protegido por guarda-chuvas político-partidários, sejam de “esquerda”, do “centro”, da “direita”.
Nessa actividade e em Portugal, o P”S” no governo é garantia para os seus indefectíveis, de apoios, subsídios, bolsas, empregos, tachos e o mais que lhe pedirem.
Será no mínimo interessante começar a contabilizar quem (artistas do regime ou penduricalhos do mesmo) durante esta legislatura vai fazer o que, quando e onde quiser.
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Existe algum artista em Portugal?
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The greatest. De junkie esfomeado a multi-milionário, e assim se manteve. Até a própria morte vendeu. E pelo caminho maravilhou-nos.
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Óptimo: um artista multi-milionário !, depois duma infância com algumas privações, muito trabalho e talento.
E também de acordo com o seu segundo parágrafo. Poucos génios conseguiram isso.
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VCunha, 19:51,
Pois eu mantenho –e hoje para refazermos compreensões e conclusões anormais– que o BBKing foi pontualmente influenciado pelo Rui Veloso e o DBowie é pouco melhor do que o “pai” (vão chamar “pai” a outros/s) do rock tuga.
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MJRB, hoje os seus comentários estão demasiado dadaístas.
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É para despistar alguma tristeza pelo desaparecimento físico do DBowie, e simultaneamente contente por ter assistido a sete concertos seus (três deles absolutamente inesquecíveis) e, pelo privilégio de o conhecer durante um lanche + c. 10′ no total de conversas. E não só por isto.
Um mau dia para mim.
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Quais concertos (que anos)? Conte.
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VCunha,
Quer conversa…
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Não, a sério, é interesse genuíno, se achar oportuno.
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É inoportuno.
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OK. Talvez noutra altura.
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Você conheceu o David Bowie?
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Algum problema para alguém ou para o país por esse facto ?
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A falar a sério, caro MJRB, vc. conheceu o Bowie? Tinha interesse em saber (e acho que o Vitor também). Gosto muito dele, embora, reconheço, só tardiamente o tenha começado a apreciar como acho que merecia. Musicalmente era um tipo brilhante e marcou inequivocamente o nosso tempo. Tem-se muito bem a percepção disso na exposição a que vc. alude e que vi em São Paulo, há dois anos.
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Exacto. Foi um privilégio e um não-acaso.
Soube que a exposição/exibição no Victoria esteve também no Canadá, mas desconheço essa em São Paulo — obviamente acredito em si.
Havemos de degustar umas francesinhas e então falamos.
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VCunha, 21:26
Com todo o gosto, noutro local e não neste dia.
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Vamos por musica:
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