Saltar para o conteúdo

As they pulled you out of the oxygen tent, you asked for the latest party

11 Janeiro, 2016

Portugal não se divide entre esquerda e direita e sim entre os que querem ser caracterizados como de esquerda e os que querem ser caracterizados como de não-esquerda. Isto ilustra que a separação política não ocorre horizontalmente mas também permite erradicar a compreensão do país num plano vertical entre conservadores e liberais. Num país conservador como Portugal, a dicotomia não pode ser multidimensional para a distribuição da mensagem, exigindo a constância de uma das variáveis de forma a criar a sensação de que as divisões são entre Esquerda e Direita ou, num plano ainda mais adequado aos média, entre o Bem e o Mal. Quem não é um bocadinho “de esquerda” é uma besta quadrada, ponto final. Daí que Marcelo Rebelo de Sousa, que não é burro, se assuma como “da esquerda da direita”.

O Bem compreende todas as artes, sofre quando um artista morre, percepciona a bondade inerente à sensibilidade do autor que distribui empatia por uma massa amorfa a que se denomina “povo” e, compreendendo o poder das tradições, necessita de as obliterar para as recriar à sua imagem. O Mal não compreende as artes, é composto de brutamontes insensíveis ao sofrimento alheio e dispensa atitudes de lavagem de consciência através do confisco a abastados para redistribuição arbitrária aos que se atribuem a qualidade de descamisados. O Bem apropria-se de tudo o que é criado ao longo de séculos, destrói laços históricos e transmuta simbologia em ideologia imediatista. O Mal, ao repudiar as revoluções, é demasiado lento para o Bem, deixando à multitude de diferenças entre pessoas o direito a criarem a história através de simples e transparentes regras de mercado: o que vinga, vinga; o que não vinga, lá vai.

David Bowie era um artista anormalmente popular para a obra que legou. Logo, o Bem já se apropriou da perda. O Mal pode enaltecer o legado, compreendendo-o pela calada para não ter que aturar a reeducação da percepção que o Bem determina inexoravelmente errada e, bem lá no fundo, agradece que o trabalho de apropriação da arte pelo Bem seja dificultado, não só mas também pela impenetrabilidade de obras que estorvam a canhestra psicanálise que o Bem exerce sobre tudo e mais alguma coisa que adiante a causa final, a do Bem ser mesmo gente que é bué de boa.

32 comentários leave one →
  1. António Costa é o Salvador's avatar
    António Costa é o Salvador permalink
    11 Janeiro, 2016 16:20

    Dá um certo gozo ver comunas a publicarem nos seus perfis de facebook a música “Heroes” que foi uma crítica ao muro de Berlim.

    Liked by 1 person

  2. MJRB's avatar
    11 Janeiro, 2016 16:42

    David Bowie um dos mais notáveis e incomparáveis de sempre ! Completíssimo !

    DBowie não era, não é, como conclui –e entende-se– VC, um artista “anormalmente popular para a obra que legou” e dispensou essa coisa da “esquerda” e da “direita”. Mas sabia, evidenciou onde estava o Bem e o Mal.
    (Extraordinária a exposição/exibição há pouco tempo em Londres, sobre a sua obra).

    Gostar

  3. procópio's avatar
    procópio permalink
    11 Janeiro, 2016 17:04

    The latest party está a ser encenado pelo Dr. Fausto.
    Magister Georgius Sabelius Faustus viveu na Alemanha entre o final do século XV e começo do século XVI.
    Há quem o tenha visto pela calada duma noite antes do Natal.
    Ressuscitou para assumir publicamente a sua condição de feiticeiro.
    Desde a sua tomada de posse tem-se afirmado de formas várias:
    “Astrólogo – o Segundo dos Mágicos – Quiromante – Aeromante – Piromante”.
    Pratica a magia como ofício e ganha o seu sustento fazendo horóscopos e outras vidências, vendendo filtros de amor e produzindo fenómenos “sobrenaturais”.
    Praticar o BEM na sua perspectiva, como estudioso das Ciências Ocultas, vai vencendo aparentemente todas as causas, até à derrota final.
    Nunca chegará a ler Johann Wolgang Goethe, a edição completa do seu Fausto, drama em verso que levou trinta anos para ser elaborado.
    O herói de Goethe fez o pacto com o diabo num momento irrefletido.
    A sua ambição era compreender o sentido da vida humana.
    No fim, consegue livrar-se do acordo maldito e é redimido.

    O nosso faustino fez um pacto sólido, reflectiu longamente ao longo dos anos, sobre toda a forma que um golpe pode tomar. Até a trigonometria dos merdia ajudou.
    A sua ambição nada tem a ver com a vida humana. A vida humana é uma chatice. Foi antes o poder, se possível absoluto, enroupado pelas palavras estafadas do costume, e a seguir encher os bolsos à sua camarilha. Um biltre sózinho não é nada. O colectivismo sempre serve para alguma coisa, co´s demónios!
    No fim, não vai contar com a nobreza da sua motivação. Tal coisa nunca existiu.
    Que fique bem claro: não se livrará do acordo maldito e nunca será redimido, a começar pelos elementos mais avisados da trupe.

    Gostar

  4. fado alexandrino's avatar
    11 Janeiro, 2016 17:32

    Merry Christmas Mr. Lawrence
    Muito obrigado a ti a e a Ryuichi Sakamoto por uma sublime momento de cinema.
    E a vitorcunha por te lembrar.

    Gostar

  5. Buiça's avatar
    Buiça permalink
    11 Janeiro, 2016 18:48

    “Anormalmente popular para a obra que legou”?????
    Que tremendo disparate. Já para não falar em ser a absoluta contradição do “o que vingou, vingou”.
    Bowie é o artista que vingou “against all odds”.
    Os primeiros parágrafos subscrevo.

    Gostar

    • vitorcunha's avatar
      11 Janeiro, 2016 19:15

      Mantenho a afirmação. Mais popular que a obra que legou.

      Não tem que ser necessariamente mau.

      Gostar

      • MJRB's avatar
        11 Janeiro, 2016 19:30

        É mesmo muito bom ! Fora de série ! Completíssimo !
        Normalmente popular e global precisamente pela obra que legou.

        Seria atrevimento-provocação sua se catalogasse DBowie pouco acima do normal ou acima da média…

        Gostar

      • Buiça's avatar
        Buiça permalink
        11 Janeiro, 2016 19:48

        Eheheh, mantém ou troca “anormalmente” por “mais”?
        Nesse caso concordo, a obra devia ser (ainda) mais popular.

        Sobre o tema de fundo, também proponho alternativa: no mundo actual de batotas monetárias e bullyings vários entre fortes e fracos, grandes e pequenos, a verdadeira luta eh entre soberanistas e globalizoides. E não tendo eu nada contra os vários soberanistas que temos em Portugal (e aqui curiosamente entram nacionalistas, conservadores, liberais-localistas que não citem ou sequer conheçam friedman, mies ou hayek, comunistas e loucanistas – quem fica de fora são os que estão comprados, o extremo-centrismo) lamento que grande parte deles se percam em ideologias que defendem que 2+2 são 22 se o poeta quiser. Eh como ir para a guerra com livros e canetas.

        Gostar

      • vitorcunha's avatar
        11 Janeiro, 2016 19:51

        Mantenho, mas, anormalmente, substituo essa manutenção para evitar compreensão anormal.

        Gostar

  6. João de Brito's avatar
    11 Janeiro, 2016 19:01

    Quando, por vezes, não entendo os textos do Vítor, digo para mim mesmo:
    – Não entendes… não comentas.
    Só que eu tenho a mania que sei ler e escrever…
    – Sabes ler e escrever, mas não és artista e a literatura é uma arte.
    Calo-me.
    Não comento.
    Mas desabafo!

    Gostar

    • MJRB's avatar
      11 Janeiro, 2016 19:24

      Para tentar baralhar o pessoal e evidenciar os seus textos, VCunha por vezes usa o método dadaísta para escrever, logo, o mesmo método ao pensar. Nada de mal advém daí, nem para o Bem nem para o Mal. São ocasionalmente “bué de bons” — como termina este seu post.

      Gostar

    • vitorcunha's avatar
      11 Janeiro, 2016 19:29

      Aposto que entende o Lobo Antunes.

      Gostar

      • MJRB's avatar
        11 Janeiro, 2016 19:34

        Boa !

        Entendo, não desgosto, mas não é dos escritores que me fascinam ou levam a lamentar a não-leitura de alguns dos seus livros.

        Gostar

  7. antónio's avatar
    antónio permalink
    11 Janeiro, 2016 19:20

    Cá pelo burgo e debaixo de um guarda chuva chamado cultura os músicos e os de outras artes vão sacando o dinheiro para o seu sustento…

    Gostar

    • MJRB's avatar
      11 Janeiro, 2016 19:43

      Não confunda Cultura com quem vive protegido por guarda-chuvas político-partidários, sejam de “esquerda”, do “centro”, da “direita”.
      Nessa actividade e em Portugal, o P”S” no governo é garantia para os seus indefectíveis, de apoios, subsídios, bolsas, empregos, tachos e o mais que lhe pedirem.

      Será no mínimo interessante começar a contabilizar quem (artistas do regime ou penduricalhos do mesmo) durante esta legislatura vai fazer o que, quando e onde quiser.

      Gostar

      • lucklucky's avatar
        lucklucky permalink
        12 Janeiro, 2016 01:10

        Existe algum artista em Portugal?

        Gostar

  8. Aladdin Sane's avatar
    11 Janeiro, 2016 20:30

    The greatest. De junkie esfomeado a multi-milionário, e assim se manteve. Até a própria morte vendeu. E pelo caminho maravilhou-nos.

    Gostar

    • MJRB's avatar
      11 Janeiro, 2016 20:40

      Óptimo: um artista multi-milionário !, depois duma infância com algumas privações, muito trabalho e talento.
      E também de acordo com o seu segundo parágrafo. Poucos génios conseguiram isso.

      Gostar

  9. MJRB's avatar
    11 Janeiro, 2016 20:37

    VCunha, 19:51,

    Pois eu mantenho –e hoje para refazermos compreensões e conclusões anormais– que o BBKing foi pontualmente influenciado pelo Rui Veloso e o DBowie é pouco melhor do que o “pai” (vão chamar “pai” a outros/s) do rock tuga.

    Gostar

    • antónio's avatar
      antónio permalink
      11 Janeiro, 2016 20:53

      MJRB, hoje os seus comentários estão demasiado dadaístas.

      Gostar

      • MJRB's avatar
        11 Janeiro, 2016 21:05

        É para despistar alguma tristeza pelo desaparecimento físico do DBowie, e simultaneamente contente por ter assistido a sete concertos seus (três deles absolutamente inesquecíveis) e, pelo privilégio de o conhecer durante um lanche + c. 10′ no total de conversas. E não só por isto.
        Um mau dia para mim.

        Gostar

      • vitorcunha's avatar
        11 Janeiro, 2016 21:08

        Quais concertos (que anos)? Conte.

        Gostar

  10. MJRB's avatar
    11 Janeiro, 2016 21:11

    VCunha,

    Quer conversa…

    Gostar

    • vitorcunha's avatar
      11 Janeiro, 2016 21:12

      Não, a sério, é interesse genuíno, se achar oportuno.

      Gostar

    • rui a.'s avatar
      rui a. permalink
      11 Janeiro, 2016 21:23

      Você conheceu o David Bowie?

      Gostar

      • MJRB's avatar
        11 Janeiro, 2016 21:27

        Algum problema para alguém ou para o país por esse facto ?

        Gostar

    • rui a.'s avatar
      rui a. permalink
      11 Janeiro, 2016 21:31

      A falar a sério, caro MJRB, vc. conheceu o Bowie? Tinha interesse em saber (e acho que o Vitor também). Gosto muito dele, embora, reconheço, só tardiamente o tenha começado a apreciar como acho que merecia. Musicalmente era um tipo brilhante e marcou inequivocamente o nosso tempo. Tem-se muito bem a percepção disso na exposição a que vc. alude e que vi em São Paulo, há dois anos.

      Gostar

      • MJRB's avatar
        11 Janeiro, 2016 21:41

        Exacto. Foi um privilégio e um não-acaso.

        Soube que a exposição/exibição no Victoria esteve também no Canadá, mas desconheço essa em São Paulo — obviamente acredito em si.

        Havemos de degustar umas francesinhas e então falamos.

        Gostar

  11. MJRB's avatar
    11 Janeiro, 2016 21:28

    VCunha, 21:26

    Com todo o gosto, noutro local e não neste dia.

    Gostar

  12. lucklucky's avatar
    lucklucky permalink
    12 Janeiro, 2016 01:12

    Vamos por musica:

    Gostar

Deixe uma resposta para lucklucky Cancelar resposta